LEI DOS FENÔMENOS ESPÍRITAS - RESUMO II
14.
- Por estas poucas palavras pode ver-se que as manifestações espíritas, sejam
de que natureza foram, nada têm de sobrenatural ou maravilhoso. São fenômenos
que se produzem em virtude da lei que rege as relações entre o mundo visível
e o invisível, lei tão natural quanto as da eletricidade, das gravitações,
etc. O Espiritismo é a ciência que nos dá a conhecer essa lei, como a
mecânica nos dá a conhecer as do movimento e a ótica as da luz.
Estando as manifestações espíritas na natureza,
produziram-se em todas as épocas. Conhecida a lei que as rege, explica-nos uma
porção de problemas olhados como insolúveis. É a chave de uma porção de
fenômenos explorados e amplificados pela superstição.
15. - Afastado completamente o maravilhoso, tais
fenômenos nada mais têm que repugne à razão, porque vêm tomar lugar ao lado
dos outros fenômenos naturais. Nos tempos de ignorância, todos os efeitos
cujas causas não eram conhecidas eram reputados sobrenaturais. As descobertas
científicas foram restringindo continuamente o círculo do maravilhoso. O
conhecimento dessa nova lei vem reduzi-lo a nada. Assim, os que acusam o
Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso, provam, por isto mesmo, que falam do
que não conhecem.
16. - Uma idéia mais ou menos geral entre pessoas
que não conhecem o Espiritismo é crer que os Espíritos,
apenas porque são desprendidos da
matéria, devem
saber tudo e possuir a
sabedoria suprema. Isto é um erro grave. Deixando seu envoltório corporal,
não se despojam imediatamente de suas imperfeições: só com o tempo se
depuram e se melhoram.
Sendo os Espíritos as almas dos homens, como há
homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, o
mesmo se encontra entre os Espíritos. Há-os que são levianos e brincalhões,
outros mentirosos e trapaceiros, hipócritas, maus e vingativos; outros, ao
contrário, possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na
terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes
pontos a considerar, pois explica a natureza boa ou má das comunicações que
se recebem. É preciso aplicar-se em as distinguir.
Disto resulta que não basta dirigir-se a um
Espírito qualquer para ter uma resposta justa para cada pergunta. Porque o
Espírito responderá conforme o que sabe e, muitas vezes, dará sua opinião
pessoal, que pode estar certa ou errada. Se for prudente, confessará sua
ignorância sobre o que não sabe; se leviano ou mentiroso, responderá a tudo,
sem se preocupar com a verdade; se orgulhoso, dará sua idéia como verdade
absoluta. É por isto que São João, o Evangelista, diz: “Não creiais a todo o Espírito, mas experimentais se os Espíritos
são de Deus”. A experiência prova a sabedoria deste conselho. Seria,
pois, imprudência e leviandade aceitar sem controle tudo o que vem dos
Espíritos.
Os Espíritos só podem responder sobre o que sabem
e, ainda, sobre o que lhes é permitido dizer, porque há coisas que não devem
revelar, porque ainda não é dado ao homem tudo conhecer.
17. - A
qualidade dos Espíritos é reconhecida pela linguagem. A dos Espíritos
realmente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de toda
trivialidade, puerilidade ou contradição; respira sabedoria, benevolência e
modéstia; é concisa, sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores,
ignorantes ou orgulhosa carece dessas qualidades; o vazio das idéias aí é
quase sempre compensado pela abundância de palavras.
18. - Outro ponto a considerar, igualmente
essencial, é que os Espíritos são livres; comunicam-se quando querem e a quem
lhes convém e, também, quando podem, pois têm as suas ocupações. Não
estão às ordens e ao capricho de quem quer que seja,
e a ninguém é dado fazê-las rir mau grado seu, nem lhes fazer dizer o
que querem calar. De sorte que ninguém pode afirmar que um certo Espírito
virá a seu apelo em determinado momento ou responderá a esta ou àquela
pergunta. Dizer o contrário é provar a absoluta ignorância dos princípios
mais elementares do Espiritismo. Só o charlatanismo tem fontes infalíveis.
19. - Os Espíritos são atraídos pela simpatia,
pela similitude dos gostos e dos caracteres, pela intenção que faz desejada a
sua presença. Os Espíritos superiores não vão a reuniões fúteis, do mesmo
modo que um cientista da Terra não iria a uma reunião de jovens estúrdios.
Diz o simples bom senso que não pode ser salutar, combater os vícios, tentar
reconduzir ao bom caminho; se não forem escutados retiram-se. Seria fazer uma
idéia completamente falsa pensar que Espíritos sérios se comprazem em
responder a futilidades, a
perguntas ociosas, que
nem provam interesse, nem
respeito por eles, nem real desejo
de instruir-se e ainda menos, que possam
vir dar espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram em vida, não
farão depois de mortos.
20. - Do que precede resulta que toda reunião
espírita, para ser proveitosa, deve, como primeira condição, ser séria e
recolhida; que aí tudo deve passar-se respeitosamente, religiosamente, com
dignidade, se quiser obter o concurso habitual dos bons Espíritos. É preciso
não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado quando
vivos, teriam tido por eles considerações às quais têm ainda mais direito
depois de mortos.
Em vão alegam a necessidade de certas
experiências curiosas, frívolas e divertidas, para convencer os incrédulos; o
que acontece é de resultado negativo. O incrédulo, já inclinado a troçar das
mais sagradas crenças, não pode ver uma coisa séria naquilo de que fazem
pilhérias; não pode ser levado a respeitar aquilo que lhe não é apresentado
de modo respeitável. Assim, reuniões fúteis e levianas, dessas onde nem há
ordem, nem seriedade, nem recolhimento, ele sempre leva uma impressão má. O
que pode convencê-lo é sobretudo, a prova da presença de seres cuja memória
lhe é cara; é diante de suas palavras graves e solenes, diante de revelações
íntimas que o vemos empalidecer e comover-se. Mas, por isso mesmo que há mais
respeito, veneração, apego à pessoa cuja alma se lhe apresenta, ele fica
chocado de vê-la vir a uma assembléia irreverente, entre mesas que dançam e
chocarrices de Espíritos levianos. Por mais incrédulo que seja, sua
consciência repele essa aliança entre o sério e o frívolo, o religioso e o
profano, razão por que taxa tudo
de palhaçada e, por vezes, sai menos convencido do que havia entrado.
As reuniões desse gênero sempre fazem mais mal do
que bem, porque afastam da doutrina mais gente do que atraem, sem contar que
oferecem o flanco à crítica dos detratores, que aí acham fundados motivos
para troça.
21. - É erro fazer um divertimento com as
manifestações físicas. Se elas não têm a importância do ensino
filosófico, têm sua utilidade, do ponto de vista dos fenômenos, porque são o
a, b, c, da ciência, do qual deram a
chave. Posto que hoje menos necessárias, ainda a ajudam a convicção de certas
pessoas. Mas não excluem, absolutamente, a ordem e a compostura nas reuniões
onde se fazem experiências. Se fossem sempre praticadas de maneira conveniente,
convenceriam mais facilmente e, sob todos os respeitos, produziriam muito
melhores resultados.
22. - Sem dúvida, estas explicações são muito
incompletas e, necessariamente, podem provocar numerosas perguntas. Mas não se
deve perder de vista que isto não é um curso de Espiritismo. Tais quais são,
bastam para mostrar a base sobre que ele repousa, o caráter das manifestações
e o grau de confiança que podem inspirar, conforme as circunstâncias.
Quanto à utilidade das manifestações ela é imensa, por suas conseqüências.
Mas, ainda que só tivessem como resultado dar a conhecer uma nova lei da
natureza, demonstrar materialmente a existência da alma e a sua imortalidade,
já seria muito, porque seria uma larga via aberta à filosofia. (R.
E. abril 1864 - Allan Kardec).