VISITA SEM BANQUETE
Meus caros irmãos e amigos espíritas
de Lyon.
Apresso-me em vos dizer quanto sou sensível ao
novo testemunho de simpatia que me acabais de dar, com o amável e grato convite
para vos visitar este ano. Aceito-o com prazer, porque, para mim, é sempre uma
felicidade encontrar-me em vosso meio.
Amigos, minha alegria é grande ao ver a família
crescer a olhos vistos: é a mais eloqüente resposta aos tolos e ignóbeis
ataques ao Espiritismo. Parece que tal crescimento lhes aumenta o furor, porque,
hoje mesmo, recebi uma carta de Lyon, anunciando a remessa de um jornal dessa
cidade, La France littéraire, no
qual a doutrina em geral, e minhas obras em particular, são agredidas de
maneira tão desagradável que me consultam se devem responder pela imprensa ou
pelos tribunais. Digo que a resposta deve ser o desprezo.
Se a doutrina não fizesse progressos, se minhas
obras fossem natimortas, ninguém se inquietaria e nada diria. São os nossos
sucessos que exasperam os inimigos. Deixemo-los, pois, derramar a sua raiva
impotente, que mostra como sentem próxima a sua derrota. Eles não são tão
tolos para se agarrarem a um aborto. Quanto mais ignóbeis forem os seus
ataques, menos estes devem ser temidos, porque desprezados pelas criaturas
honestas e provam que aqueles não têm boas razões a opor, desde que só sabem
dizer injúrias.
Continuai, pois, meus amigos, a grande obra de
regeneração, iniciada sob tão felizes auspícios e em breve colhereis o fruto
da perseverança. Provai, sobretudo pela união e pela prática do bem, que o
Espiritismo é a dádiva da paz e da concórdia entre os homens, e fazei que,
vendo-vos, se possa dizer que seria desejável que todos fossem espíritas.
Meus amigos, sinto-me feliz por ver tantos grupos
unidos no mesmo sentimento e marcharem de comum acordo para o nobre objetivo que
nos propomos. Sendo tal objetivo o mesmo para todos, não poderia haver
divisões: uma mesma bandeira vos deve guiar e nela está escrito: “Fora
da Caridade não há salvação”. Ficai certos de que em torno dela é que
a humanidade inteira sentirá necessidade de se unir, quando se cansar das lutas
geradas pelo orgulho, pela inveja e pela cupidez. Esta máxima, verdadeira
âncora de salvação, pois será o repouso após a fadiga, o Espiritismo terá
a glória de havê-la proclamado. Inscrevei-a em todos os locais de reunião e
em vossas casas. Que ela seja, de agora em diante, a palavra de união entre
todos os homens que, sinceramente, querem o bem, sem segunda intenção pessoal.
Mas fazei melhor ainda: gravai-a em vossos corações e, desde já, desfrutareis
a calma e a serenidade que aí acharão as gerações futuras, quando a paz for
a base das relações sociais. Sois os pioneiros: deveis dar exemplo, a fim de
encorajar os outros a vos seguirem.
Não esqueçais que a tática dos vossos inimigos
encarnados e desencarnados é dividir-vos. Provai-lhes que perdem o tempo na
tentativa de suscitar, entre os grupos, sentimentos de inveja e rivalidades, que
seriam uma apostasia da verdadeira doutrina espírita cristã.
As 500 assinaturas que subscrevem o convite que
tivestes a bondade de me enviar representam um protesto contra essa tentativa; e
ainda há outros que terei o prazer de aí ver. Aos meus olhos é mais que
simples fórmula: é um estímulo à marcha que nos traçam os bons Espíritos.
Eu as conservarei preciosamente, porque um dia constituirão os gloriosos
arquivos do Espiritismo.
Ainda uma palavra, meus amigos. Indo ver-vos, uma
coisa desejo: é que não haja banquete. E isto por vários motivos. Não quero
que minha visita seja ocasião para despesas que poderiam impedir a presença de
alguns e privar-me do prazer de ver todos reunidos. Os tempos estão duros. Não
devemos fazer despesas inúteis. O dinheiro que isto custaria seria melhor
empregado em auxílio aos que mais tarde necessitarão. Eu vo-lo digo com toda
sinceridade: o pensamento naquilo que fizerdes por mim em tal circunstância
poderia ser uma causa de privação para muitos e me tiraria o prazer da
reunião. Nem vou a Lyon para exibição nem para receber homenagens, mas para
me entender convosco, consolar os aflitos, encorajar os fracos, ajudar-vos com
os meus conselhos até onde estiver em mim fazê-lo. E o que de mais agradável
me podeis oferecer é o espetáculo de uma união boa, franca e sólida. Crede:
os termos tão afetuosos do vosso convite para mim valem mais que todos os
banquetes do mundo, ainda que oferecido num palácio. Que me restaria de um
banquete? Nada. Ao passo que vosso convite fica como preciosa lembrança e uma
prova de vossa afeição.
Até breve, meus amigos; se Deus quiser terei o prazer de vos apertar as mãos cordialmente. (Allan Kardec - Revista Espírita de 1862).
Nota do compilador: Por este documento pode-se
comprovar que Kardec foi um homem destituído de quaisquer interesses de
grandeza. Sua simplicidade e honestidade eram marcantes. Somente a homem com
esse caráter e de formação intelectual invejável, poderiam vir os
Espíritos Superiores transmitir-nos a Doutrina Espírita (O consolador, nas
palavras do Cristo).