A ALMA ERRANTE   

     “Eu sou uma alma errante, uma alma penada. Vago através dos espaços, esperando um corpo. Viajo nas asas do vento, no azul do céu, no canto dos pássaros, nas pálidas claridades do luar. Eu sou uma alma penada...

     Desde o instante em que Deus nos separou d’Ele muitas vezes temos vivido na Terra, subindo de geração em geração, abandonando sem cessar os corpos que nos são confiados e continuando a obra do nosso próprio aperfeiçoamento através das existências que sofremos.

     Quando deixamos este hospedeiro incômodo, que nos serve tão mal; quando ele vai fecundar e renovar a terra, de onde saiu; quando em liberdade, enfim, abrimos as asas, então Deus nos dá a conhecer o nosso objetivo. Vemos nossas existências precedentes, avaliamos o nosso progresso realizado durante séculos; compreendemos as punições e as recompensas que nos atingiram, pelas alegrias e pelas dores de nossa vida; vemos nossa inteligência crescer de nascimento em nascimento, e aspiramos ao estado supremo, pelo qual deixaremos esta pátria inferior para ganhar os planetas radiosos, onde as paixões são mais elevadas, o amor menos ambicioso, a felicidade mais constante, os órgãos mais desenvolvidos, os sentidos mais numerosos, e onde a residência é reservada aos habitantes de mundos que, por suas virtudes, se aproximaram da beatitude, mais do que nós.

     Quando Deus nos envia novamente a corpos que devem viver para nós uma vida miserável, perdemos toda a consciência daquilo que antecedeu a esses novos renascimentos. O eu, que havia despertado, readormece; não persiste mais; de nossas passadas existências restam apenas vagas reminiscências, que nos causam simpatias, antipatias e, por vezes, idéias inatas.

     Não falarei de todas as criaturas que viveram do meu sopro. Mas a minha última existência sofreu uma desgraça tão grande, que é apenas desta que eu vos quero contar a história”.

     OBS.: Seria difícil definir melhor o princípio e a finalidade da reencarnação, a progressão dos seres, a pluralidade dos mundos e o futuro que nos espera. Eis agora, em duas palavras, a história daquela alma. (Allan Kardec):

     “Um moço amava a uma jovem e era correspondido. Havia obstáculos opondo-se à sua união. Ele pediu a Deus lhe permitisse que, durante o sono do corpo, sua alma se desprendesse a fim de ir visitar a bem-amada. Este favor lhe foi concedido.

     Assim, todas as noites sua alma se evola, deixando o corpo em estado de completa inércia, estado de que não sai senão quando a alma retorna para se reincorporar. Durante esse tempo, vai visitar a sua amada.

     Ele a vê, sem que ela o suspeite; quer falar-lhe, mas ela não o escuta; observa-lhe os menores movimentos e surpreende-lhe o pensamento. É feliz com as alegrias dela; é triste com as suas dores. Nada mais gracioso e mais delicado que o quadro destas cenas entre a moça e a alma invisível.

     Mas, oh! fraqueza do ser encarnado! Um dia, ou melhor, uma noite, ele se esquece. Três dias se passam sem que pense em seu corpo, que não pode viver sem a alma. De repente, pensa em sua mãe, que o espera e que deve estar inquieta devido a um sono tão prolongado. E corre. Mas é demasiado tarde. Seu corpo cessara de viver.

     Assiste aos seus funerais, depois consola sua mãe. Em desespero a noiva não quer ouvir falar de nenhuma outra união. Vencida, entretanto, pelas solicitações da própria mãe, acaba cedendo, depois de longa resistência.

     A alma errante lhe perdoa uma infidelidade que não está em seu pensamento. Mas, para receber suas carícias e não mais a deixar, pede para encarnar-se no filho que vai nascer”. (Maxime Du Camp, autor de Les Six Noiveilles - R. E. 1859).

Nota do compilador: Maxime Du Camp = escritor francês (1822-1894). Autor de narrativas de viagens, de romances, de memórias. Foi amigo de Flaubert. O artigo acima foi escrito em vida e por sua essência espiritual, Kardec o inseriu na Revista Espírita.

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