A DOR MORAL
Doutor, tendes duvidado, bem sei, inúmeras vezes, da minha sinceridade; justo é, pois, me reabilite perante vós, antes que me relateis a causa de vossas mortificações; quero que conheçais, in totum, meu imo e meus ideais, para vos inspirar plena confiança. Só me compreendereis, porém, se responderdes afirmativamente à argüição que ora vos faço: sois, ou não, adverso à crença da multiplicidade de nossas existências?
- Não. Confesso lealmente que algumas vezes me ocorrem reminiscências de transcorridas existências e fenômenos psíquicos inexplicáveis me hão sucedido. Tenho-os ocultado, porém, receoso de me não darem crédito ou escarnecerem de mim... Infelizmente, tenho a importuna e incessante idéia de que não vivo pela primeira vez; que a esta precederam outras encarnações, maculadas de crimes hediondos e, por isso, para remi-las, tenho sofrido ininterruptas desditas... Sei que fui um tirano cruel; flagelei a Humanidade; criei uma atmosfera de ódios e vinganças que, desencadeadas sobre mim, se transformaram em tempestades de remorsos e suplícios espirituais! Fui, em prístinas eras, um monstro moral; hoje, o sou no físico. É a execração de muitas vítimas que me persegue, através dos séculos, tornando-me desgraçado; fui déspota, egoísta, insensível à dor alheia, aos clamores dos que infelicitava; agora, compadeço-me dos torturados, procurando mitigar-lhes o sofrimento, amo o convívio social, sou humilde, emotivo, admiro o Belo e as crianças, e vejo-me isolado como se fora um morfético, sem lar amigo, temido pelas almas em flor das crianças e das donzelas, que sentem repulsa por meu organismo híbrido - de sicário e príncipe. Ninguém se compadece de meus infortúnios, causo aversão a todos com esta máscara afivelada ao rosto sinistro, como se manipulada por um Satanás vingativo, que me fez sua presa! Sinto-me demais na Terra e não sei onde refugiar-me para repousar... Julgo ouvir, constantemente, estas palavras de Jesus, qual sentença inexorável: “Surge et ambula!” Sou um espectro vivo... Inspiro pavor e ridículo a quantos me vêem...
- Deus meu! - exclamou Yvan, juntando as mãos em súplica, como se tentasse suster-lhe a catadupa dos pensamentos dolorosos - como é que, com essas intuições de pregressos delitos, quisestes agravar a angustiosa situação cometendo outro delito, talvez o mais abominável de todos - o suicídio? Se tendes idéias tão positivas da conseqüência funesta das iniqüidades humanas, da justiça celestial; se credes na realidade inconcussa dos avatares, para efeito de reparação espiritual, como dissestes ainda há pouco que a morte é o repouso absoluto e desejado?- A dor moral, quando superlativa, quebranta todas as energias físicas e mentais, atrofia-nos a faculdade de raciocinar até sobre as coisas tangíveis, quanto mais sobre os fenômenos metafísicos! Quem poderá demonstrar, cabalmente, que haja a imortalidade da alma e uma Justiça suprema; que não somos o produto arbitrário de cego destino, da Natureza ou da fatalidade?
- Que prova tudo isso? Justamente o que acabais de aduzir - a dor moral - para a qual não há lenitivo na terapêutica; que se não aloja em nenhum órgão; que não deixa vestígio no coração nem no cérebro, e, no entanto, existe; vós, eu, todos nós sentimo-la, bem como o amor, o ódio, a ternura, o reconhecimento, a saudade, o zelo; tudo que palpita, trepida e vive intensamente em nosso âmago - desaparece um dia - qual raio de sol num cárcere, sem deixar pegadas no organismo, e a Ciência é impotente para explicar todos esses fenômenos anímicos, sem base no mundo material... Há, pois, em nosso ser, algo que subsiste à morte, algo que é a sede dos pensamentos e de todos os sentimentos; que se desagrega do corpo carnal e se localiza noutro corpo intangível, indestrutível, eterno. E quando aquele se torna inerte, empedernido... Que é que o movimenta? O coração? Mas, porque pára o coração?
É porque ele e todos os órgãos são impulsados, vivificados pelo motor divino, que se chama - Alma - que o abandona um dia para se alçar ao Espaço, haurir ensinamentos, receber benéficos conselhos, retemperar energias exauridas nas lutas cotidianas. Esvaeceu-se ela? Porque, então, os indivíduos são todos dessemelhantes física, moral e intelectualmente? De onde lhes provém a diversidade de instintos, de discernimentos, de caráter?
Se todos os Espíritos, no instante do nascimento, começassem uma única existência, porque todos os seres humanos não são idênticos? E onde se originam as variedades de aptidões mentais, de gênio, de sentimentos, de bons e maus instintos?
Como surgem, em nosso íntimo, reminiscências de outras eras? Como irrompem, na mente dos artistas geniais, idéias e conhecimentos superiores aos adquiridos nas Academias? Onde Da Vinci, Sânzio, Fídias, Murilo, aprenderam as artes que os imortalizaram? Não ultrapassaram seus humildes e anônimos mestres? Que é a vocação imperiosa para determinada ciência ou arte, manifestada desde a infância, senão a inconsciente ressurreição dos ensinamentos acumulados n’alma em pretéritas existências?
As recordações súbitas, quais relâmpagos fugazes, de findas encarnações e de aprendizagem ultraterrenas, provam as vidas sucessivas, os surtos pelo Infinito, e, portanto, a imortalidade do nosso Ego, com todos os tesouros intelectuais intatos e aumentados progressivamente; os sofrimentos que parecem injustos, quando somos probos e abominamos o Mal, evidenciam nossa qualidade de galés, cumprindo as penas exaradas pelo Magistrado Supremo do Universo, das quais nos havíamos esquecido.
Não somos, pois, o produto arbitrário do destino, mas vassalos insubmissos de um Monarca justiceiro, que não nos condena eternamente aos suplícios infernais, não nos excrucia com padecimentos improfícuos, mas imprescindíveis ao acrisolamento do nosso Espírito. Depende do nosso esforço próprio, do desvelo com que cumprimos todos os nossos deveres, a nossa liberdade perpétua.
Temos, diante de nós, um futuro vastíssimo, e o triunfo que obtivermos coincidirá com a isenção de todas as dores, a conquista de felicidade em vão sonhada na masmorra terrestre por nossas almas de calcetas revéis, felicidade que só existe nas mansões de luz e de portentos aqui desconhecidos...
É utopia o que imagino? É a matéria putrescível, irracional, que concebe esses planos grandiosos sobre o nosso porvir, para serem derrocados no sepulcro? Não! É a psique encantada que nele se encasula; Esse aspirar é a voz do Criador, oculto em nosso ádito, segredando-nos o que de nós pretende, o que nos outorgara e o que nos aguarda no Além, se o ouvirmos e lhe seguirmos fielmente os ditames.
Quando se passa convosco um desses fenômenos, a que chamastes metafísicos, sem base no mundo real, vós que conheceis minuciosamente o organismo humano - e mormente o vosso - que o tendes escalpelado, dissecado, necropsia, como o explicais cientificamente?
- Impossível! Não os posso classificar nem compreender; sinto-os, mas não há para eles meios positivos de análise nem identificação, e, por isso, estabelece-se a dúvida em meu cérebro. Como são muito complexos e penosos para mim, prefiro não os sondar, nem perquirir a verdade...
- Eis
a conduta de quase todos os cientistas; refratários ao estudo das verdades
transcendentes, que combatem sem investigar, preferindo persistir no erro a dar
solução aos chamados enigmas do Além...
É
cômodo esse modo de agir, mas é também desleal e deplorável...
Fazem como as estriges* que, ofuscadas pela luz, preferem abrir os olhos na treva, e, por isso, devem negar a existência do Sol! (Espírito de Victor Hugo - Do Calvário ao Infinito - Zilda Gama).
(*) estriges = feiticeiras. (nota do compilador)