A ESCRAVIDÃO NO BRASIL
Impulsionadas apenas pelo braço do negro escravo, as capitanias de Pernambuco e Bahia prosperavam. Ao longo da costa, os canaviais estendiam-se, cada vez maiores e os engenhos de açúcar multiplicavam-se. Ao fim do século1 lideravam a produção de açúcar no mundo. E, para manter essa posição, incentivavam o tráfico de escravos, a ponto de, anualmente, os navios negreiros despejarem na costa brasileira cinco mil africanos. Alguns, ao chegarem, doentes e estropiados, morriam. E, não raro, após o desembarque, os negreiros atiravam ao mar corpos dos que terminavam a vida a bordo. A duração de vida de cada escravo era, em média, de cinco anos.
O que era Pernambuco naquela época? Apenas um ancoradouro abrigado, mas de acesso dificílimo e perigoso. Logo à chegada, via-se de imediato a povoação. Ilhas, mangues infectos, pauis; não passava de um punhado de armazéns, cabanas de palha e algumas 150 ou 200 casas. Aquela povoação era conhecida pelo nome de "O Povo". E assim os portugueses a identificavam, pois o povo não era senão de mercadores, alguns funcionários da Coroa, artesãos, centenas de negros alforriados por incapacidade em servir e soldados.
De tempo a tempo, um desembarque de escravos chegados da África. Era o espetáculo, quase circense, que os habitantes desfrutavam com maior diversão. Era quando o populacho aglomerava-se no cais a ver o desembarque da "mercadoria" - coluna de esqueletos, ferimentos, ventres enormes, joelhos deixando à mostra as rótulas, infestados de bichos de moscas, olhar esgazeante de debilóides. Vários não se continham em pé. Caíam e eram carregados por outros como fardos.
Incrível tanta maldade contra um ser humano, só por ser de cor negra! E houve um escritor, homem de estudos, que assim os analisou: "... um tipo antropologicamente inferior, não raro próximo do antropóide, e bem pouco digno do nome de homem". Deus se apiede dessa criatura, a quem sequer o nome ainda hoje recuso-me a citar... não por mágoa (que existiu), mas por não tentar perpetuar-lhe a lembrança, mesmo no mal feito.
A população dividia-se em duas categorias: livres e escravos.
No alto, os Senhores de Engenho, uma minoria tirânica, de mais ou menos umas vinte ou trinta famílias entrelaçadas pelo sangue ou pelo casamento. Eram quase deuses. Possuíam tantas terras, seus escravos já haviam desbastado tantas, que dez dias a correr a cavalo de brida solta, não atingia o fim. Contavam com índios domesticados, funcionários da Coroa, e praticamente controlavam a Justiça. Eram na época os chamados "homens bons da terra"! Tudo lhes era de direito! Senhores de baraço e cutelo2.
Aos índios era dada uma espécie de pagamento pelo que produzissem. Colocados pela lei sob a jurisdição direta dos jesuítas, tinham a condição de livres, mesmo porque eles não aceitaram submeter-se à escravidão. Não se lhes tomava a totalidade de sua produção como se fazia com os africanos. Serviam, também, os indígenas para caçar negros fugidos, o que faziam com satisfação. Também como segurança das casas e fazendas. Quantas vezes, em Pernambuco e Bahia, os jesuítas emprestavam ao governo índios para expedições contra escravos sublevados. Os negros nada tinham que os protegesse.
A legislação colonial portuguesa sempre recusava para exercer qualquer cargo ou função pública, aquele que tivesse a mínima dose de sangue negro. Nem os jesuítas deixavam de discriminar os negros e mulatos, pondo-os para fora de seus colégios. Freqüentemente, perfilhavam-se bastardos de sangue indígena, mas, nunca se teve notícia que um amo fizesse o mesmo com o fruto de suas mancebias com negras! Mantinham-nos em cativeiro. Os castigos, então, a que eram submetidas essas pobres criaturas alcançavam o auge em requintes de crueldade - castração, dentes destruídos a marteladas, olhos furados, queimaduras por ferro em brasa. Alguns eram até emparedados, atirados, às caldeiradas ou passados em moendas. Às negras que não queriam parir, amputavam-se-lhes os seios, ou recebiam coices na barriga. Às vezes, passavam mel em seus corpos, pendurando-os em árvores, deixando-os expostos aos mosquitos e às formigas. Como ditava a lei, o escravo não se distinguia de um animal. Muitos suicidavam-se, outros tentavam fugir. Mas a fuga não era aconselhável, até que descobriram a região de Palmares... (Espírito de J. L. - Médium: Luiz Carlos Carneiro - Obra: Senhor Deus! (M'tang e N'cumbo) PRÓXIMA
Notas do compilador: 1 - Segundo o autor espiritual, trata-se do final do século XVI. 2 - Senhores de baraço e cutelo: aqueles que exerciam poder de vida e de morte sobre seus vassalos, na época feudal. Pessoas prepotentes, despóticas.