A FLORESTA
Tudo
na floresta é encanto, quer na primavera, quando as seivas potentes incham suas
mil artérias, quer quando os rebentos novos reverdecem fartamente, quer quando
o outono a decora de tintas ardentes, de cores prestigiosas, ou quando o inverno
a transforma em um mágico palácio de cristal, que as sombrias ramadas moldam
sob a neve, ou se carregam de pingentes diamantinos, transformando cada pinheiro
em árvore de Natal.
A
floresta não é somente maravilhoso espetáculo; é ainda perpétuo
ensinamento. Ela nos fala, sem cessar, das regras fortes, dos princípios
augustos que regem toda a vida, e presidem à renovação dos seres e das
estações. Aos tumultuosos, aos agitados, oferece seus retiros profundos,
propícios à reflexão. Aos impacientes, ávidos de gozo, diz que nada é
duradouro, senão aquilo que custa trabalho e precisa tempo para germinar, para
sair da sombra e subir para o céu. Aos violentos, aos impulsivos, opõe a vista
de sua lenta evolução. Verte a calma nas almas enfebrecidas. Simpática às
alegrias, compassiva às dores humanas, ela cura os corações chagados,
consola, repousa e comunica a todos as forças obscuras, as energias escondidas
em seu seio. A lenda de Anteu1
é sempre aplicável aos feridos da existência, a todos aqueles que esgotaram
as suas faculdades, suas potências vitais nas ásperas lutas deste mundo.
Basta-lhes pôr-se em contato com a Natureza, para encontrarem, na virtude
secreta que dela emana, recursos ilimitados.
E que
analogias, que lições em todas as coisas! A bolota, sob o seu invólucro
modesto, contém não só um carvalho completo em seu majestoso desenvolvimento,
mas uma floresta inteira. A semente minúscula encerra em seu garrido berço
toda a flor, com sua graça, suas cores, seus perfumes. De igual maneira, a Alma
humana possui, em gérmen, todo o desenvolvimento de suas faculdades, de suas
potências futuras. Se não tivéssemos sob os olhos o espetáculo das
metamorfoses vegetais, nós nos recusaríamos a crê-lo. As fases de evolução
das Almas em seu curso nos escapam, e não podemos compreender atualmente todo o
esplendor de seu porvir. Temos, no entanto, um exemplo disso na pessoa desses
gênios, que passaram através da História deslumbrantemente, deixando aos
pósteros obras imperecíveis. Tais são as alturas a que se podem elevar as
Almas mais atrasadas na escada das vidas inumeráveis, com o auxílio destes
dois fatores essenciais: o tempo e o trabalho!
Assim,
a Natureza nos mostra, em toda a beleza da vida, o prêmio do esforço paciente
e corajoso e a imagem dos nossos destinos sem-fim. Ela nos diz que tudo está em
seu lugar no Universo; mas também que tudo evolve e se transforma, Almas e
coisas. A morte é apenas aparente; aos tristes invernos, sucedem os dias
primaveris, cheios de vida e de promessas.
A lei
de nossas existências não é diferente das estações. Depois dos dias de sol,
do verão, vem o inverno da velhice, e, com ele, a esperança dos renascimentos
e de nova mocidade. A Natureza, tal qual os seres, ama e sofre. Por toda parte,
sob a onda de amor que transborda no Universo, encontra-se a corrente de dor;
mas esta é salutar, pois que, purificando a sensibilidade do ser, desperta nele
qualidades latentes de emoção, de ternura, e lhe proporciona assim um
acréscimo de vida.
A
floresta é o adorno da Terra e a verdadeira conservadora do globo. Sem ela, o
solo, arrastado pelas chuvas, cedo voltaria aos abismos do mar imenso. Ela
retém as largas gotas da tempestade em seus tapetes de relva, no enredamento de
suas raízes; ela as economiza para as fontes e as entrega, pouco a pouco,
transformadas, tornadas fertilizantes e não devastadoras. Por toda parte em que
as árvores desaparecem, a terra se empobrece, perde sua beleza. Gradualmente,
chegam a monotonia, a aridez, e, depois, a morte. Regeneradora por excelência,
a respiração de seus milhares de folhas destila o ar e purifica a atmosfera.
Do
ponto de vista psíquico, já o vimos, o papel da floresta não é menos
considerável. Ela foi sempre o asilo do pensamento recolhido e sonhador.
Quantas obras delicadas e fortes têm sido meditadas em sua sombra fresca e
mutável, na paz de suas potentes e fraternais ramadas! Quem quer que possua
alma de artista, de escritor, de poeta, saberá haurir nessa fonte viva e
transbordante a inspiração fecunda. Com seu ritmo majestoso, a floresta
embalou a infância das religiões. A arquitetura sagrada, em suas mais altivas
audácias, não tem feito mais que a copiar. As naves góticas de nossas
catedrais são alguma coisa além da imitação pela pedra, das mil colunatas e
das abóbadas imponentes dos bosques? A voz dos órgãos não é o frêmito do
vento, que, segundo a hora, suspira nos rosais, ou faz gemer os grandes
pinheiros? A floresta serviu de modelo às manifestações mais altas da idéia
religiosa em sua expansão estética. Nas primeiras idades, ela cobria a
superfície quase inteira do globo.
Nada
mais impressionante para nossos pais, que a antiga e profunda selva dos
gauleses, em sua grandeza misteriosa, com seus santuários naturais, onde se
consumavam os ritos sagrados, seus retiros por vezes cheios de horror, quando os
rumores da tempestade faziam ressoar o eco dos bosques e, do seio das touceiras,
subia o grito das feras; cheia de encanto e de poesia, quando, vindo a calma, o
céu azul, a cristalina luz aparecia através da ramada e o canto dos pássaros
celebrava a festa eterna da vida. De século em século, a alma céltica guardou
o forte cunho da floresta primitiva e o amor de seus santuários, moradas dos
Espíritos tutelares que Vercingétorix e Joana d’Arc veneraram, dos quais
ouviram, na verde solidão, as vozes inspiradoras.
O
espírito céltico é ávido de claridade e de espaço, apaixonado da liberdade;
possui intuição profunda das coisas da alma que reclamam revelação direta,
comunhão pessoal com a Natureza visível e invisível. Eis por que ele estará
sempre em oposição à Igreja Romana, desconfiada dessa Natureza e cuja
doutrina é toda cheia de compressão e de autoridade. Os druidas e os bardos
lhe foram rebeldes. Apesar das conquistas romanas e das invasões bárbaras que
facilitaram a expansão do Cristianismo, a alma céltica, por uma espécie de
instinto, sempre se sentiu herdeira de uma fé mais larga e mais livre que a de
Roma.
Inutilmente
os monges procurarão impor-lhe a idéia de ascetismos e de renúncia, a
submissão a dogmas rígidos, a uma concepção lúgubre da morte e do Além; o
espírito céltico, em sua sede ardente de saber, de viver e de agir, escapará
a esse círculo estreito.
A
idéia fundamental do druidismo é a evolução, a idéia do progresso e do
desenvolvimento na liberdade. Essa idéia é tomada, até certa medida, à
Natureza e completada pela Revelação.
Com
efeito, a impressão geral que ressalta do espetáculo do mundo é um sentimento
de harmonia, uma noção de encadeamento, uma idéia de fim e de lei, isto é,
relações eternas dos seres e das coisas. A concepção evolutiva emana do
estudo dessas leis. Há uma direção, uma finalidade na evolução, e esse rumo
traz o conjunto das vidas, por gradações insensíveis e seculares, para um
estado sempre melhor.
O
Cristianismo, ou antes, o Catolicismo afastou essa idéia, mas a Ciência nos
torna a levar para ela. Primeiramente, esta espiritualiza a matéria,
reduzindo-a a centros de força e nos mostra o sistema nervoso, complicando-se
cada vez mais na escala dos seres, para chegar ao homem. As espécies bravias
tendem a desaparecer diante da superioridade do homem. Com o desenvolvimento do
cérebro, o pensamento triunfa. A consciência executa sua ascensão paralela.
Há aproximação entre as leis morais e as certezas físicas e biológicas. A
ordem que se manifesta nos dois domínios chega a conclusões análogas. A
Natureza é plástica, móvel quanto elas, e sofre a influência do Espírito
Divino.
Sendo
essa evolução a lei central do Universo, o principal papel da ordem social é
facilitá-la a todos os seus componentes. A vida é, pois, boa, útil e fecunda.
Diante das perspectivas infinitas que ela nos abre, todos os sentimentos
deprimentes, pessimismo, dúvida, tristeza, desespero, desaparecem para dar
lugar às inspirações imortais, à esperança imperecível. (Leon Denis – O
Grande Enigma)
1= Anteu - (mit.gr.) - gigante, filho de Posêidon (Netuno) e de Géia (a Terra). Héracles (Hércules) tentou matá-lo três vezes, mas o gigante recobrava as forças cada vez que tocava o solo. Por fim, Hércules o suspendeu nos braços e sufocou-o no ar.