A FOME ENTRE OS ESPÍRITOS

     O Sr. Bizet, cura1 de Sétif,2 faleceu a 15 de abril, com a idade de quarenta e três anos, sem dúvida vitimado por seu zelo durante o cólera e pelas fadigas suportadas durante a fome, quando desenvolveu uma atividade e uma dedicação verdadeiramente exemplares. O que transbordava de todos os corações era a lembrança dos sentimentos de caridade cristã, que animavam o Sr. Padre Bizet. Sua caridade era suave, paciente, sobretudo durante o longo inverno que acabamos de atravessar, em meio a uma miséria horrível, que tinha posto a seu encargo uma multidão de infelizes. Sua caridade tudo cria, tudo esperava, tudo suportava e jamais se desencorajava. Foi no meio desse devotamento para socorrer os infelizes esfomeados, diariamente ameaçados de morrer de frio e de fome, que contraiu o germe da moléstia que o levou deste mundo, se é que já não estava atingido, devido ao zelo excepcional que desenvolveu durante o cólera no verão passado.

     A Sociedade de Paris3 quis dar-lhe um testemunho de sua respeitosa simpatia, chamando-o ao seu seio, onde ele deu a seguinte comunicação:

    “Estou contente, senhor, pelo benevolente apelo que tiveste a bondade de me dirigir, e ao qual considero uma honra e um prazer responder. Se não vim imediatamente ao vosso meio, é que a perturbação da separação e o espetáculo novo com que fui chocado não mo permitiram. E depois, não sabia a quem escutar; encontrei muitos amigos cujo acolhimento simpático me ajudou poderosamente a me reconhecer; mas também tive sob os olhos o atroz espetáculo da fome entre os Espíritos. Encontrei lá em cima muitos desses infelizes, mortos nas torturas da fome, ainda procurando em vão satisfazer uma necessidade imaginária, lutando uns contra os outros para arrancar um pedaço de comida que se esconde nas mãos, rasgando-se entre si e, se assim posso dizer, devorando-se mutuamente; uma cena horrível, pavorosa, ultrapassando tudo quanto a imaginação humana pode conceber de mais desolador!... Inúmeros desses infelizes me reconheceram e seu primeiro grito foi: Pão!  Era em vão que eu tentava lhes fazer compreender a situação; eram surdos às minhas consolações. - Que coisa terrível é a morte em semelhantes condições, e como aquele espetáculo é mesmo de natureza a fazer refletir sobre o nada de certos pensamentos humanos!... Assim, enquanto na Terra se pensa que os que partiram ao menos estão livres da tortura cruel que sofriam, percebe-se do outro lado que isto não é nada, e que o quadro não é menos sombrio, posto que os atores tenham mudado de aparência.

     Perguntais se eu era Espírita. Se entendeis por esta palavra aceitar todas  as crenças que vossa doutrina preconiza, não; eu não estava lá. Admirava os vossos princípios; julgava-os capazes de fazer a salvação dos que sinceramente os põem em prática; mas fazia minhas reservas sobre um grande número de pontos. A vosso respeito, não segui o exemplo de meus confrades e de alguns de meus superiores, que eu interiormente censurava, porque sempre pensei que a intolerância era a mãe da incredulidade e que era preferível ter uma crença que levava à caridade e à prática do bem, do que não a ter absolutamente. Era eu Espírita de fato? Não me cabe pronunciar-me a respeito.

     Quanto ao pouco bem que pude fazer, estou realmente confuso com os exagerados elogios de que me tornaram objeto. Quem não teria agido como eu?... Não são ainda mais merecedores do que eu, se nisto há algum mérito, os que se devotaram em socorrer os infelizes árabes, e que a isto não foram levados senão pelo amor do bem?... Para mim a caridade era um dever, por força do caráter de que eu estava revestido. Faltando a ela eu era culpado. Teria mentido a Deus e aos homens, aos quais eu havia consagrado a minha existência. Aliás, quem poderia ter ficado insensível ante tantas misérias?...

      Vós o vedes, fizeram como sempre: ampliaram enormemente os fatos; cercaram-me de uma espécie de renome, que me deixa confuso e magoado e pelo que sofro em meu amor próprio. Porque, enfim, bem sei que não mereço tudo isto, e estou bem certo, senhor, que me conhecendo melhor, reduzirei ao seu justo valor o ruído que fazem em torno de mim: Se tenho algum mérito, que mo concedam, concordo; mas que não me ergam um pedestal com uma reputação usurpada: eu não poderia concordar com isto.

     Como vedes, senhor, ainda estou muito novo neste mundo novo para mim, sobretudo muito ignorante e mais desejoso de me instruir do que capaz de instruir os outros. Hoje vossos princípios me parecem tanto mais justos quanto, depois de haver lido a sua teoria, vejo a sua mais larga aplicação prática. Assim, seria feliz assimilando-os completamente e vos seria reconhecido se tivésseis a bondade de me aceitar algumas vezes como um dos vossos ouvintes”.

(Espírito de Cura Bizet - R. E. 1868) 

OBS.: A quem quer que não conheça a verdadeira constituição do mundo invisível, parecerá estranho que Espíritos que, segundo eles, são seres abstratos, imateriais, indefinidos, sem corpo, sejam vítimas dos horrores da fome; mas o espanto cessa quando se sabe que esses mesmos Espíritos são seres como nós: têm um corpo, fluídico é verdade, mas que não deixa de ser matéria; que deixando o seu invólucro carnal, certos Espíritos continuam a vida terrena com as mesmas vicissitudes, durante um tempo mais ou menos longo. Isto parece singular, mas é; e a observação nos ensina que tal é a situação dos Espíritos que viveram mais a vida material que a vida espiritual, situação por vezes terrível, porque a ilusão das necessidades da carne se faz sentir, e se têm todas as angústias de uma necessidade impossível de saciar. O suplício mitológico de Tântalo, nos antigos, acusa um conhecimento mais exato do que se supõe, do estado do mundo de além-túmulo, sobretudo mais exato do que entre os modernos.

     Muito outra é a posição dos que, desde esta vida, se desmaterializaram pela elevação de seus pensamentos e sua identificação com a vida futura: Todas as dores da vida corporal cessam com o último suspiro e logo o Espírito plana, radioso, no mundo etéreo, feliz como um prisioneiro livre de suas cadeias.

     Quem nos disse isto? É um sistema, uma teoria? Alguém disse que deveria ser assim e se acredita sob palavra? Não; são os próprios habitantes do mundo invisível que o repetem em todos os pontos do globo, para ensinamento dos encarnados.

     Sim, legiões de Espíritos continuam a vida corporal com suas torturas e suas angústias. Mas quais? Os que ainda estão muito enfeudados na matéria para dela se destacarem instantaneamente. É uma crueldade do Ser Supremo? Não; é uma lei da natureza    inerente ao estado de inferioridade dos Espíritos e necessária ao adiantamento; é uma prolongação mesta4 da vida terrestre durante alguns dias, meses ou anos, conforme o estado moral dos indivíduos. Seriam bem vindos para taxar de barbárie essa legislação aqueles que preconizam o dogma das penas eternas, irremissíveis, e as chamas do inferno como um efeito da soberana justiça? Podem eles o pôr em paralelo com uma situação temporária, sempre subordinada à vontade do indivíduo de progredir, à possibilidade de avançar por novas encarnações? Aliás não depende de cada um escapar a essa vida intermediária, que, francamente, nem é a vida material, nem a espiritual? Os Espíritas a ela escapam naturalmente, porque, compreendendo o estado do mundo espiritual antes de nele entrar, imediatamente se dão conta de sua situação.

     As evocações nos mostram uma porção de Espíritos que ainda se julgam deste mundo: suicidas, supliciados que não suspeitam que estão mortos e sofrem o seu gênero de morte; outros que assistem ao próprio enterro, como ao de um estranho; avarentos que guardam os seus tesouros, soberanos que julgam mandar ainda e ficam furiosos por não serem obedecidos; depois de grandes naufrágios, náufragos que lutam contra o furor das ondas; depois de uma batalha, soldados que se batem e, ao lado disto, Espíritos radiosos, que nada mais têm de terrestres e são para os encarnados o que a borboleta é para a lagarta. Pode perguntar-se para que servem as evocações, quando nos dão a conhecer, até nos mínimos detalhes, esse mundo que nos espera a todos, ao sairmos deste? É a humanidade encarnada que conversa com a humanidade desencarnada; o prisioneiro que fala com o homem livre. Não, por certo, elas para nada servem ao homem superficial que nisto só vê um divertimento; elas não lhe servem mais que a física e a química recreativas para a sua instrução. Mas para o filósofo, o observador sério, que pensa no amanhã da vida, é uma grande e salutar lição; é todo um mundo novo que se descobre; é a luz atirada sobre o futuro; é a destruição dos preconceitos seculares sobre a alma e a vida futura; é a sanção da solidariedade universal que liga todos os seres. Dirão que se pode ser enganado. Sem dúvida, como se o pode sobre todas as coisas, mesmo as que se vê e se toca. Tudo depende da maneira de observar. 

     O quadro apresentado pelo Sr. Padre Bizet nada tem, pois, de estranho; vem, ao contrário, confirmar, por mais um grande exemplo, o que se sabia; e o que afasta toda idéia de repercussão de pensamentos, é que o fez espontaneamente, sem que ninguém pensasse em chamar sua atenção sobre aquele ponto. Porque, então, teria vindo dizer, sem que se lhe perguntasse, se aquilo não fosse certo? Sem dúvida a isto foi levado para a nossa instrução. Aliás, toda a comunicação tem um cunho de seriedade, de sinceridade e de modéstia, que é bem o seu caráter e que não é próprio dos Espíritos mistificadores. (Allan Kardec).

Notas do compilador: 1 - cura = padre de aldeia; 2 - Sétif = cidade da Argélia; 3 = Sociedade de Paris = Esta era a denominação da organização criada por Allan Kardec para os contatos com o Mundo Espiritual, na qual ele participou ativamente por quase 15 anos até o seu desencarne. Foi o primeiro Centro Espírita do planeta e nele foram recebidas todas as comunicações espirituais que fazem parte dos cinco livros da codificação espírita; 4 - Mesta = triste, melancólica.

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