A MOCIDADE
Os
poetas têm cantado a mocidade com a
opulência de seus dons, o brilho de suas cores, os surtos de sua força, o
encanto de sua graça e de sua beleza...
“A
mocidade é semelhante às florestas – diz ainda Maurice de Guérin, em seu
imortal Centauro -, às florestas
verdejantes, atormentadas pelos ventos; ela mostra, por todos os lados, as ricas
dádivas da vida; profundo murmúrio penetra sempre em sua folhagem.”
A
imagem é bela e bela principalmente pela sua justeza e verdade.
O
que caracteriza a mocidade é a opulência, a plenitude da vida, a
superabundância das coisas, o impulso para o futuro. A dedicação, a
necessidade de amar, de nos comunicarmos, caracteriza esse período da vida em
que a Alma, novamente ligada a um corpo cujos elementos são novos e fortes, se
sente capaz de empreender vasta carreira e se promete a si mesma grandes
esperanças.
A
mocidade tem capital importância, porque é a primeira orientação para o
destino; nela o esquecimento do passado é completo; este não existe mais, e
todas as suas potências estão voltadas para o futuro. Eis por que os
moralistas e os educadores concentraram sua experiência e seus esforços nesse
prefácio da vida humana, do qual dependerá todo o livro. “A esperança da
seara está na semente”, dizia Leibniz; a promessa dos frutos está igualmente
contida no sorriso das flores.
O
Cristianismo monacal e medieval falseou completamente a noção da vida e da
educação. Preconizando a fealdade física e o desprezo do corpo, não
compreendeu que a Alma talha seu corpo, tal qual Deus forma a Alma, e que o
corpo deve trazer a assinatura de ambos, firma que deve ser a assinatura da
Beleza.
Enquanto
o nosso século ou o que se seguir não tiver corrigido esse erro, nada terão
feito para o verdadeiro progresso do mundo. Embelezai os corpos, se quiserdes
semear as Almas e aplainar o caminho do destino. Não esqueçais, ó futuros
educadores de povos, que a fealdade é um elemento mórbido.
Torna-se,
pois, necessário, refazer completamente a educação da mocidade, se desejarmos
acelerar as vitórias e o progresso do século por vir. É preciso que tudo em
torno dessa juventude: homens e coisas, artes, ciências, literatura, tudo lhe
fale de grandiosidade, nobreza, força, glória e beleza.
Quando
a mocidade antiga ia concorrer anualmente às festas gloriosas da Olimpíada,
desde que punha o pé na cidade célebre, era empolgada pela magia fascinada da
Beleza.
Os
edifícios, com sua impecável simetria; o Forum,
com suas soberbas estátuas, representando ora a formosura de Hércules, ora a
de Apolo; o concurso religioso do povo; a majestade dos templos; a harmoniosa
organização da festa; as coroas de mirto e louro, que faziam já recender o
orgulho da vitória; tudo falava aos efebos vindos das extremidades da Ática
para lutar no stadium: “Ó jovens, sede felizes, sede grandes, sede belos, sede
fortes!” Um pouco mais além, no
santuário de Olímpia, Zeus de
Fídias, radiante de imortal beleza, consagrava, com seu gesto divino, essa
lição solene e harmoniosa das coisas.
É
preciso ressuscitar essa disciplina da antigüidade sagrada, se quisermos
refazer a juventude e a força da Humanidade.
Tudo
repousa hoje na ciência oficial – para método, na democracia – para
princípio social. Eis precisamente que ambas estão ameaçadas. A ciência
materialista esvai-se na dissecação e na análise; decompõe em lugar de
criar, disseca em lugar de agir.
Por outra parte, a democracia, em suas obras
vivas, traz já os germens da decadência. Preconiza a mediocridade em todos os
gêneros; proscreve o gênio e desconfia da força; o século XX começou com esse
balanço intelectual e moral, impotente e doloroso. O erro foi de tomar a ciência
por ideal e a democracia por fim, enquanto que ambas são meios, apenas.
A
mocidade de amanhã deverá reagir vigorosamente contra essas duas idolatrias; -
a de hoje já começa a fazê-lo. Há, entre os nossos jovens, alguns Espíritos
de elite, iniciados, esclarecidos da primeira hora, que desbravam o caminho e
preparam o êxodo e a marcha do Espírito para o futuro. São os espiritualistas
de bom quilate, os que sabem que lá, onde sopra o Espírito, é que está a
verdadeira bondade.
Será
a divisa da legião nova, isto é, da mocidade livre, liberta das peias de
falsas disciplinas, da mocidade que se interroga e se ausculta a si própria,
que ouve as vozes íntimas e procura compreender seu destino, estudando o
mistério e a lei da evolução.
Será o “reino do Espírito” a que as Almas amantes da Altura aspiram. Certamente, o fim ainda está longe de ser atingido; é preciso pulverizar muitos ídolos, cujo pedestal é rebelde ao martelo do demolidor; entretanto, tudo nos orienta para esse termo, entrevisto pelos pensadores, para além dos horizontes de nossa idade: uma força para aí nos conduz, assim qual impele um batel o vento do mar largo; e esperamos, antes de morrer, poder saudar de longe a terra prometida, que o sol futuro iluminará com sua glória matinal e suas fecundas claridades. (Léon Denis– O Grande Enigma).