A RÃ E O SAPO
Em uma fresca manhã,
Indo o sapo passear,
Encontrou-se com a rã
Que ele andava a namorar.
Dirigiu-se logo a esta,
E diz-lhe, num ar de festa:
“Muito me alegro eu, comadrezinha
Por vê-la tão gentil e tão louçã!
Nem parece ser rã
Mas sim de todos nós ser a rainha!...”
Então a pobre tola
Ao ver-se assim louvada,
Perdeu de todo a bola,
E diz, lisonjeada,
Ao namorado sapo,
Em voz cariciosa,
Tufando o verde papo:
“Ora, não me diga tal!
Ao pé de si nada vale
Minha pobre louçania!...
Nem luxo nem valentia!
Sou feia e fraca mulher...
Agora belo e gentil
Com o seu ar senhoril,
Como um valente requer,
Só o meu compadre amigo...
Tem porte garboso e fero,
Perfil correto e austero
Qual um antigo cruzado!
Vê-se bem no seu olhar
Viril, ousado;
E nesse andar Marcial,
como o dum guerreiro antigo.
Em confronto de beleza
Com certeza,
Tudo tem a recear
Quem acompanhar consigo.
E valor? À gentileza
Reúne a força, a destreza,
Fazendo que ninguém haja mais belo!
E a ciência seus dotes deu também,
a fim de que ninguém
Lhe leve os louros em sabedoria!
É um doce encanto vê-lo
Nessa sua distinta galhardia!...
Meu lindo compadre amigo:
Eu, por mim, digo e redigo,
Que sábio assim, tão valente,
Tão ousado e tão prudente,
Não há outro igual entre os senhores!”
Acreditou o sapo nos louvores.
(Tão sincera mostrava ser a rã!)
E lá foram os dois por entre flores,
Gozando amores,
Nessa linda manhã.
Imaginou-se o sapo um lutador,
Herói capaz de ser o vencedor
Do mais guerreiro exército do mundo!...
Mas, ai do triste e cego sapo imundo,
Que na ilusão vivia,
Do seu saber profundo,
Da sua galhardia,
Do seu poder sem par!
Deitou-se a meditar
Em que sublime ação
Teria de mostrar
O seu real valor
À comadre gentil e lisonjeira.
Dando o braço,
Envolvidos em terna fantasia,
Sem que temor, canseira ou arrelia,
Viesse despertá-lo do seu sonho
Lindo, risonho,
Quando, depois de larga correria
Pela florida e verde pradaria,
Encontraram pastores
Apascentando gado.
Por tão gentis louvores
Da sua comadrinha,
- A mais grácil rainha
Dos sapos sonhadores -,
Pensou que era chegado
O ensejo de mostrar quanto valia:
Escolheu dentre os bois o mais possante,
(Para bem realçar a valentia)
Correndo para ele mui chibante,
Em ar de desafio.
E dele nem deu fé,
Quando mudou um pé
Pousou-o todo em cima do imprudente.
Viu logo o infeliz
O horrível cariz,
Que tinha o ser vaidoso e ser valente.
Mas, pela sua fátua presunção,
Não deu sinal de fraco.
Não emendou a mão,
Nem deu, sequer, cavaco.
Torceu-se, esperneou,
Mas o terrível pé não se tirou!
Prolongava-se a triste situação,
Sem que houvesse mudança,
Nem esperança
De solução,
Quando a matreira rã,
Simulando não ver a entalação,
Diz, rindo e folgazã: -
“Venha daí meu compadre!
Então, que demora é essa?
Ande já, que tenho pressa...”
Fingindo inda o valente
Que instantes antes foi:
-
“Já lá vou, linda comadre,
- Que estou pisando aqui um pobre boi...”
Sucede assim por esse mundo fora,
Com uma semelhança encantadora,
Coisas sem conto ao homem imprudente,
A rã - Lisonja - afaga-o na vaidade,
E ao sentir-se esmagado p’la verdade,
Na sua fatuidade,
Para não confessar sua fraqueza,
Imita
o pobre sapo na esperteza.
(Espírito
de João de Deus - Do País da Luz - Fernando de Lacerda).
Nota do compilador.: João de Deus foi o maior poeta lírico português do século dezenove e um dos maiores da raça latina. A sua característica é a simplicidade; notável pedagogista. Seu nome era João de Deus Ramos.