ABRI-ME

Apelo de Cárita                                                                                       DIGITÁLIS BRANCA

     Escrevem-nos de Lyon:                                                                                                 

     “... O Espiritismo, o grande traço de união entre todos os filhos de Deus, nos abriu um horizonte tão largo, que podemos olhar de um a outro ponto todos os corações esparsos, que as circunstâncias colocaram no oriente e no ocidente, e os ver vibrar a um só apelo de Cárita. Ainda me lembro da profunda emoção que senti quando, o ano passado, a Revista Espírita, nos dava conta da impressão produzida em todas as partes da Europa por uma comunicação desse excelente Espírito. Sem dúvida poder-se-á dizer tudo quanto se queira contra o Espiritismo: é uma prova de que ele cresce, porque geralmente não se atacam as coisas pequenas, mas aos grandes efeitos. Aliás, que são os ataques senão como a cólera de uma criança que atirasse pedras ao oceano, para o impedir de roncar, e os detratores do Espiritismo quase não suspeitam  que, denegrindo a doutrina, cobrem todas as despesas de uma propaganda que dá a todos os que a lêem vontade de conhecer esse terrível inimigo, que tem como palavra de ordem: “Fora da caridade não há salvação...”

     Esta carta estava acompanhada da seguinte comunicação, ditada pelo Espírito de Cárita, a eloqüente e graciosa pedinte, que os bons corações conhecem tão bem.

     “Faz frio, chove, o vento sopra muito forte; abri-me!

     Fiz uma longa caminhada através da região da miséria e volto, com o coração semimorto, as espáduas vergadas ao fardo de todas as dores. Abri-me bem depressa, meus amados, vós que sabeis que quando a caridade bate à vossa porta é que encontrou muitos infelizes em seu caminho. Abri o vosso coração para receber minhas confidências; abri a vossa bolsa para enxugar as lágrimas dos meus protegidos e escutai-me com essa emoção que a dor faz subir de vossa alma nos lábios. Oh! vós que sabeis o que Deus reserva e que, muitas vezes chorais essas lágrimas de amor que o Cristo chamava o orvalho da vida celeste, abri-me!... Obrigado! eu entrei.

     Parti esta manhã. Chamavam-me de todos os lados; e o sofrimento tem a voz tão vibrante, que basta um só apelo. Minha primeira visita foi para dois pobres velhos: marido e mulher. Viveram ambos esses longos dias em que o pão rareia, em que o sol se esconde, em que o trabalho falta aos braços fortes que o chamam, enterraram sua miséria no lar da dignidade e ninguém pôde adivinhar que muitas vezes o dia transcorria sem trazer seu pão cotidiano. Depois chegou a idade, os membros enfraqueceram, os olhos ficaram velados e o patrão que fornecia trabalho disse: Nada mais tenho a fazer. Entretanto a morte não veio e a fome e o frio diariamente são os visitantes habituais da pobre morada. Como responder a essa miséria? Proclamando-a? oh! não. Há feridas que não se curam arrancando o aparelho que as cobre. O que acalma o coração é uma palavra de consolo, dita por uma voz amiga que adivinhou, com sua alma, o que lhe foi oculto ao altar. Para esses pobres, abri-me!

     E depois vi uma mãe repartir seu único pedaço de pão com os três filhinhos; e como o pedaço era minúsculo, nada guardou para si. Vi a lareira apagada, a cama viúva de seu mobiliário; vi os membros tiritantes sob um invólucro de trapos; vi o marido entrar em casa sem ter encontrado trabalho; vi enfim o filho menor morrer sem socorro, porque o pai e a mãe são espíritas e tiveram que sofrer humilhações das obras de beneficência.

     Vi a miséria em toda a sua chaga horrível; vi os corações se atrofiarem e a dignidade extinguir-se sob o verme roedor da necessidade de viver. Vi criaturas de Deus renegar sua origem imortal, porque não compreendiam a provação. Vi, enfim, o materialismo crescer com a miséria e em vão exclamei: Abri-me! eu sou a caridade; venho a vós com o coração cheio de ternura: não choreis mais, eu venho vos consolar. Mas o coração dos infelizes não me escutou, pois suas entranhas tinham muita fome!

     Então aproximei-me de vós, meus bons amigos, de vós que me escutastes, de vós que sabeis que Cárita é a mendiga para os pobres e vos disse: Abri-me!

     Acabo de vos contar o que vi em minha longa jornada e, eu vos peço, tende para os meus pobres um pensamento, uma palavra, uma suave lembrança, a fim de que à noite, à hora da prece, eles não adormeçam sem agradecer a Deus, porque vós lhes sorristes de longe. Sabeis que os pobres são a pedra de toque que Deus envia à Terra para experimentar vossos corações. Não os repilais, a fim de que um dia, quando tiverdes transposto o sólio que conduz ao espaço, Deus vos reconheça por corações de sua aliança e vos admita na morada dos eleitos! - CÁRITA.”

     É com felicidade que nos fazemos intérpretes da boa Cárita e esperamos que ela não tenha dito em vão: abri-me! Se ela bate à porta com tanta insistência, é que o inverno aí bate por seu lado. (Allan Kardec - R. E. 1865).

                                                                                                                                                         Próximo