APRENDERA
ESPIRITISMO NO BRASIL
A sociedade Espírita de Paris acaba de sofrer uma nova perda na pessoa do Sr. Charles-Julien Leclerc, antigo mecânico, de cinqüenta e sete anos, morto subitamente de um ataque de apoplexia fulminante, a 2 de dezembro, quando entrava na Ópera. Tinha morado muito tempo no Brasil e lá, tinha aprendido as primeiras noções de Espiritismo, para o que o havia preparado a doutrina de Fourrier, da qual era zeloso partidário. Voltando à França, depois de haver conquistado uma posição de independência por seu trabalho, dedicou-se à causa do Espiritismo cujo alto alcance humanitário e moralizador para a classe operária tinha entrevisto facilmente. Era um homem de bem, querido, estimado e lamentado por todos que o conheceram, um Espírita de coração, esforçando-se para pôr em prática, em proveito de seu adiantamento moral, os ensinamentos da doutrina, um desses homens que honram a crença que professam.
A pedido da família, fizemos ao pé do túmulo a prece pelas almas que acabam de deixar a terra (Evangelho Segundo o Espiritismo), seguida destas palavras:
“Caro Senhor Leclerc, sois um exemplo da incerteza da vida, pois que, na antevéspera de vossa morte, estáveis entre nós, sem que nada deixasse pressentir uma partida tão súbita. Assim Deus nos adverte para nos mantermos sempre prontos a prestar contas do emprego que fizemos do tempo que passamos na terra. Elos nos chama no momento que menos esperamos. Que seu nome seja bendito por vos ter poupado as angústias e os sofrimentos que por vezes acompanham o trabalho da separação.
Fostes unir-vos aos colegas que vos precederam e que, sem dúvida, vieram receber-vos no sólio da nova vida; mas essa vida, com a qual vos identificastes, não vos deve ter nenhuma surpresa; nela entrastes como num país conhecido, e não duvidamos que aí gozeis da felicidade reservada aos homens de bem; aos que praticaram as leis do Senhor.
Vossos colegas da Sociedade Espírita de Paris se honram por vos ter contado em suas fileiras, e vossa memória lhes será sempre cara. Por minha voz eles vos oferecem a expressão de seus sentimentos, muito sinceros, da simpatia que soubestes vos conciliar. Se alguma coisa suaviza nosso pesar por esta separação, é o pensamento que sois feliz como o merecíeis, e a esperança de que não deixareis de vir participar dos nossos trabalhos.Caro irmão, que o Senhor derrame sobre vós os tesouros de sua bondade infinita. Nós lhe pedimos que vos conceda a graça de velar por vossos filhos e de os dirigir na via do bem, que seguintes”.
Prontamente
desprendido, como o supúnhamos, o Sr. Leclerc pôde manifestar-se na Sociedade,
na sessão que se seguiu ao seu enterro. Conseqüentemente, não houve nenhuma
interrupção em sua presença, desde que tinha assistido à sessão precedente.
Além do sentimento de afeição que a ele nos ligavam, esta comunicação devia
ter o seu lado instrutivo. Seria interessante conhecer as sensações que
acompanham esse gênero de morte. Nada do que possa esclarecer sobre as diversas
fases desta passagem, que todo o mundo deve transpor, não poderia ser
indiferente. Eis a comunicação:
“Posso, enfim, por minha vez, vir a esta mesa! Posto que minha morte seja recente, já, mais de uma vez, fui tomado de impaciência. Eu não podia apressar a marcha do tempo. Eu tinha também que vos agradecer a vossa pressa em cercar meus despojos mortais e pensamentos simpáticos que prodigalizastes ao meu Espírito. Oh! mestre! Obrigado por vossa benevolência, pela emoção profunda que sentistes, acolhendo meu amado filho. Como eu seria ingrato se eu não vos conservasse uma eterna gratidão!
Meu Deus, obrigado! meus votos estão realizados. Este mundo que eu não conhecia senão através das comunicações do Espíritos, hoje posso apreciar a sua beleza. Em certa medida, ao chegar aqui experimentei as mesmas emoções, mas infinitamente mais vivas, do que o abordando pela primeira vez na terra da América. Eu não conhecia esta região senão pela descrição dos viajantes e estava longe de fazer uma idéia de suas luxuriantes produções. Deu-se o mesmo aqui. Quanto este mundo é diferente do nosso! Cada rosto é a reprodução exata dos sentimentos íntimos; nenhuma fisionomia mentirosa; impossível a hipocrisia; o pensamento se revela inteiramente ao olhar, benevolente ou malévolo, conforme a natureza do Espírito.Ora, vede! Aqui ainda sou castigado por minha falta principal, que eu combatia com tanto esforço na terra, e que tinha chegado a dominar em parte; a impaciência que tinha de me ver entre vós perturbou-me a tal ponto que não sei mais exprimir minhas idéias com lucidez, posto que esta matéria que outrora tanto me arrastava à cólera não mais exista! Vamos, eu me acalmo, já que é necessário.
Oh! fiquei muito surpreso com este fim inesperado! Eu não temia a morte e, de muito tempo, a considerava como o fim da provação; mas essa morte tão imprevista não deixou de me causar um profundo choque... Que golpe para minha pobre mulher!... Como o pesar sucedeu rapidamente ao prazer! Eu sentia um verdadeiro prazer em ouvir boa música, mas não pensava em tão cedo um contato com a grande voz do infinito... Como a vida é frágil!... Um glóbulo de sangue coagula; a circulação perde a regularidade e tudo está acabado!... Eu teria querido viver ainda alguns anos, ver meus filhos todos estabelecidos; Deus decidiu de outro modo: que a sua vontade seja feita!
No momento em que a morte me feriu, recebi como que uma cacetada na cabeça; um peso esmagador me derrubou; de repente senti-me livre, aliviado. Planei acima de meus despojos; considerei com espanto as lágrimas dos meus e, enfim, me dei conta do que me tinha acontecido. Reconheci-me prontamente. Vi meu segundo filho acorrer, chamado pelo telégrafo. Ah! bem tentei consolá-lo; soprei-lhe meus melhores pensamentos e vi, com certa felicidade alguns cérebros refratários pouco a pouco inclinados para o lado da crença que fez toda a minha força neste últimos anos, à qual devia tão bons momentos. Se venci um pouco o homem velho, a que o devo, senão ao nosso caro ensino, aos conselhos reiterados de meus guias? E contudo eu corava, posto que Espírito, ainda me deixei dominar por esse maldito defeito: a impaciência. Assim sou castigado, porque estava ansioso para me comunicar e vos contar mil detalhes, que sou obrigado a adiar. Oh! serei paciente, mas com pesar. Estou tão feliz aqui, que me custa deixar-vos. Entretanto bons amigos estão junto a mim e eles próprios se uniram para me acolher: Sanson, Baluze, Sonnez, o alegre Sonnez, de cuja verve satírica eu tanto gostava, depois Jobard, o bravo Costeau e tantos outros. Em último lugar, a Sra. Dozon; depois um pobre infeliz, muito para lastimar, e cujo arrependimento me toca. Orai por ele, como por todos os que se deixaram dominar pela prova.Em breve voltarei novamente a me entreter e, ficai persuadidos, não serei menos assíduo às nossas caras reuniões como Espírito, do que o era como encarnado." (Espírito de Leclerc - 7/12/1866 - R. E. 1867)