AS ALMAS REFLETEM DEUS                      

     A ciência, à proporção que se adianta no conhecimento da Natureza, tem conseguido fazer recuar a idéia de Deus, mas esta se engrandece, recuando. O Ser eterno, do ponto de vista teórico, tornou-se tão majestoso como o Deus fantástico da Bíblia. O que a Ciência derruiu para sempre foi a noção de um Deus antropomorfo, feito à imagem do homem, e exterior ao mundo físico. Porém, a essa noção veio substituir uma outra mais elevada, a de Deus, imanente, sempre presente no seio das coisas. Para nós, a idéia de Deus não mais exprime hoje a de um ser qualquer, porém, sim, a do Ser que contém todos os seres.

     O Universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna. Assim como o nosso corpo é dirigido por uma vontade central que governa os seus atos e regula os seus movimentos, do mesmo modo que através das modificações da carne nos sentimos viver em uma unidade permanente a que chamamos Alma, Consciência, Eu, assim também o Universo, debaixo de suas formas cambiantes, variadas, múltiplas, reflete-se, conhece-se, possui-se em uma Unidade viva, em uma Razão consciente, que é Deus.

     O Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial. Ele é a Unidade central onde vão desabrochar e harmonizar-se todas as relações. É o princípio de solidariedade e de amor, pelo qual todos os seres são irmãos. É o foco de onde se irradiam e se espalham no infinito todas as potências morais: A Sabedoria, a Justiça e a Bondade!

     Não há, portanto, criação espontânea, miraculosa; a criação é contínua, sem começo nem fim. O Universo sempre existiu; possui em si o seu princípio de força, de movimento. Traz consigo seu fito. O Universo renova-se incessantemente em suas partes; no conjunto, é eterno. Tudo se transforma, tudo evolui pelo jogo contínuo da vida e da morte, mas nada perece. Enquanto, nos céus, se obscurecem e se extinguem sóis, enquanto mundos envelhecidos desagregam-se e desfazem-se, em outros pontos, sistemas novos elaboram-se, astros se acendem e mundos vêm à luz. De par com a decrepitude e com a morte, humanidades novas desabrocham em eterno renovar.

     E, através dos tempos sem-fim e dos espaços sem limites, a obra grandiosa prossegue pelo trabalho de todos os seres, solidários uns com os outros, e em proveito de cada um. O Universo oferece-nos o espetáculo de uma evolução incessante, para a qual todos concorrem, da qual todos participam. A essa obra gigantesca preside um princípio imutável. É a Unidade universal, unidade divina, que abraça, liga, dirige todas as individualidades, todas as atividades particulares, fazendo-as convergir para um fim comum, que é a Perfeição na plenitude da existência.

     Ao mesmo tempo em que as leis do mundo físico mostram-nos a ação de um sublime ordenador, as leis morais, por intermédio da consciência e da razão, falam-nos eloqüentemente de um princípio de justiça, de uma providência universal.

     O espetáculo da Natureza, o aspecto dos céus, das montanhas, dos mares, apresenta ao nosso espírito a idéia de um Deus oculto no Universo.

     A consciência mostra-o em nós, ou, antes, dá-nos alguma coisa dele, que é o sentimento do Dever e do Bem; é um ideal moral para onde tendem as faculdades do espírito e do coração. O dever ordena imperiosamente, impõe-se; sua voz domina todas as potências da alma. Possui uma força que impele os homens até ao sacrifício, até à morte. Por si só, dá à existência sua grandeza e sua dignidade. A voz da consciência é a manifestação em nós de uma Potência superior à matéria, de uma Realidade viva e ativa.

     A razão igualmente nos fala de Deus. Os sentidos fazem-nos conhecer o mundo material, o mundo dos efeitos; a razão revela-nos o mundo das causas. A razão é superior à experiência. Esta verifica os fatos, a razão agrupa-os e deduz as suas leis. Por si só, demonstra que, na origem do movimento e da vida, se acha a Inteligência; que o menor não pode conter o maior, nem o inconsciente produzir o consciente, fato este que, entretanto, resultaria da concepção de um universo que se ignorasse a si mesmo. A razão descobriu as leis universais antes da experiência; o que esta fez foi tão-somente confirmar as suas previsões e fornecer as provas. Porém há graus na razão. ela não é igualmente desenvolvida em todos os homens. Daí a desproporção e a variedade de opiniões.

     Se o homem soubesse recolher-se e estudar a si próprio, se sua alma desviasse toda a sombra que as paixões acumulam, se, rasgando o espesso véu em que o envolvem os preconceitos, a ignorância, os sofismas, descesse ao fundo da sua consciência e da sua razão, acharia aí o princípio de uma vida interior oposta inteiramente à vida externa. Poderia, então, entrar em relação com a Natureza inteira, com o Universo e Deus, e essa vida lhe daria um antegozo daquela que lhe reservam o futuro de além-túmulo e os mundos superiores. Aí também está o registro misterioso em que todos os seus atos, bons ou maus, ficam inscritos, em que todos os fatos de sua vida se gravam em caracteres indeléveis, para reaparecerem à hora da morte, como brilhante clarão.

     Algumas vezes, uma voz poderosa, um canto grave e severo ergue-se dessas profundezas do ser, retumba no meio das ocupações frívolas e dos cuidados da nossa vida, a fim de chamar-nos ao dever. Infeliz daquele que recusa ouvi-la! Chegará o tempo em que o remorso ardente lhe ensinará que não se repelem impunemente as advertências da consciência.

     Sim, há em cada um de nós fontes ocultas de onde podem brotar ondas de vida e de amor, virtudes, potências inumeráveis. É aí, é nesse santuário íntimo que cumpre procurar Deus. Deus está em nós, ou, pelo menos, há em nós um reflexo dEle. Ora, o que não existe não poderia ser refletido. As almas refletem Deus como as gotas do orvalho da manhã refletem os fogos do Sol, cada qual segundo o seu brilho e grau de pureza.

     É por essa refração, por essa percepção interna, e não pela experiência dos sentidos, que os homens de gênio, os grandes missionários, os profetas conheceram Deus e suas leis, e revelaram-nas aos povos da Terra. (Léon Denis - Obra: Depois da Morte).

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