BIOGRAFIA DE KARDEC II                     

 

     “Em 1850, desde que se tratou das manifestações dos Espíritos, o Sr. Allan Kardec entregou-se a observações perseverantes sobre esses fenômenos e empenhou-se principalmente em lhes deduzir as conseqüências filosóficas. Entreviu desde logo o princípio de novas leis naturais: as que regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível; reconheceu na ação deste último uma das forças da Natureza, cujo conhecimento deveria lançar luz sobre uma porção de problemas reputados insolúveis, e compreendeu o seu alcance do ponto de vista religioso.

 

     “Suas principais obras sobre esta matéria são: O Livro dos Espíritos, para a parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu a 18 de abril de 1857; O Livro dos Médiuns,  para a parte experimental e científica (janeiro de 1861); O Evangelho Segundo o Espiritismo, para a parte moral (abril de 1864; O Céu e o Inferno, ou a justiça de Deus segundo o Espiritismo (agosto de 1865); A Gênese, os Milagres e as Predições (janeiro de 1868); a Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos, coleção mensal começada a 1º de janeiro de 1858. Fundou em Paris, a 1º de abril de 1858, a primeira Sociedade Espírita regularmente constituída, sob o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cujo fim exclusivo é o estudo de tudo o que possa contribuir para o progresso desta nova Ciência. A justo título o Sr. Allan Kardec se defende de haver algo  escrito sob a influência de idéias preconcebidas ou sistemáticas: homem de um caráter frio e calmo, observou os fatos e de suas observações deduziu as leis que os regem; foi o primeiro a elaborar a sua teoria e a dispô-los num corpo metódico e regular.

 

     “Demonstrando que os fatos falsamente qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis, fá-los entrar na ordem dos fenômenos da Natureza e assim destrói o último refúgio do maravilhoso, um dos elementos da superstição.  

 

     “Durante os primeiros anos em que se cogitava dos fenômenos espíritas, essas manifestações eram antes objeto de curiosidade do que assunto para sérias meditações; O Livro dos Espíritos colocou o assunto sob um aspecto completamente novo. Abandonaram-se então as mesas girantes, que apenas haviam sido um prelúdio, voltando-se o interesse para um corpo de doutrina que abarcava todas as questões ligadas à Humanidade.

 

     “Do aparecimento do Livro dos Espíritos data a verdadeira fundação do Espiritismo, que até então se constituía apenas de elementos esparsos, sem coordenação, e cujo alcance não havia sido compreendido suficientemente; também a partir desse momento a doutrina chamou a atenção dos homens sérios e tomou rápido desenvolvimento. Em poucos anos essas idéias encontraram numerosos aderentes em todas as camadas da sociedade e em todos os países. Este sucesso sem precedentes se deve sem dúvida às simpatias que essas idéias encontraram, mas é devido em grande parte à clareza, que é uma das características distintivas dos escritos de Allan Kardec.

 

     “Abstendo-se de fórmulas abstratas da Metafísica, o autor soube fazer-se ler sem fadiga, condição essencial para a vulgarização de uma idéia. Sobre todos os pontos da controvérsia, sua argumentação, de uma lógica cerrada, oferece pouca margem à refutação e predispõe à convicção. As provas materiais que o Espiritismo oferece da existência da alma e da vida futura tendem à destruição das idéias materialistas e panteístas. Um dos mais fecundos princípios desta doutrina, que decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevisto por uma porção de filósofos antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros, mas permanecendo apenas em estado de hipótese e de sistema, ao passo que o Espiritismo demonstra a sua realidade e prova que é um dos atributos essenciais da Humanidade. Deste princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais. Assim, o homem sabe de onde vem, para onde vai, para o que está na Terra e porque sofre.

 

     “As idéias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos em vidas anteriores; a marcha dos povos e da Humanidade, pela volta dos homens dos tempos passados, que revivem depois de haverem progredido; as simpatias e as antipatias, pela natureza das relações anteriores; essas relações, que ligam a grande família humana de todas as épocas, oferecem as próprias leis da Natureza, e não mais uma teoria, como base dos grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de solidariedade universal.

    

      “Em vez do princípio: “Fora da Igreja não há salvação”, que alimenta a divisão e a animosidade entre as diversas seitas, e que tem feito correr tanto sangue, o Espiritismo tem por máxima: “Fora da Caridade não há salvação”, isto é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a mútua benevolência.

 

     “Em vez da fé cega, que aniquila a liberdade de pensar, diz ele: “Não há fé inabalável senão aquela que pode olhar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. A fé necessita de uma base, e esta base é a inteligência perfeita daquilo que se deve crer; para crer não basta ver; é necessário sobretudo compreender. A fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que hoje faz o maior número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abdicação de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio”.

   

     Trabalhador infatigável, sempre o primeiro e o último a postos, Allan Kardec sucumbiu a 31 de março de 1869, em meio aos preparativos de mudança de local, exigida pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações. Numerosas obras em via de conclusão, ou que aguardavam o tempo oportuno para aparecerem, virão um dia provar, ainda mais, a extensão e o poder de suas concepções.

    

     Morreu como viveu: trabalhando. Há longos anos sofria de uma moléstia do coração, que só podia ser combatida pelo repouso intelectual e alguma atividade material. Mas, inteiramente dedicado ao seu trabalho, recusava-se a tudo quanto pudesse tomar-lhe o tempo, em prejuízo de suas ocupações prediletas. Nele, como em todas as almas fortemente temperadas, a lâmina gastou a bainha.   

    

     O corpo tornava-se pesado e se recusava a servi-lo, mas o espírito, mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, alargava cada vez mais o seu círculo de atividades.

 

     Numa luta desigual, a matéria não podia resistir eternamente. Um dia foi vencida: O aneurisma rompeu-se e Allan Kardec caiu fulminado. Um homem deixava a Terra, mas um grande nome tomava lugar entre as ilustrações deste século, um grande Espírito ia retemperar-se no infinito, onde todos os que ele havia consolado e esclarecido impacientemente esperavam a sua chegada.

 

     “A morte”, dizia ele ainda recentemente, “a morte fere em golpes redobrados nas camadas ilustres!... A quem virá ela agora libertar?”

 

 

     Ele foi, após tantos outros, retemperar-se no Espaço, buscar novos elementos para renovar o seu organismo gasto por uma vida de labores incessantes. Partiu com aqueles que serão os faróis da nova geração, para voltar em breve com eles a fim de continuar e concluir a obra deixada entre mãos devotadas.

 

     O homem não existe mais; a alma, porém, ficará entre nós. É um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador infatigável que aumentou as Falanges do Espaço. Como na Terra, sem ferir a ninguém, a cada um saberá fazer ouvir os conselhos convenientes; dosará o zelo prematuro dos ardentes, ajudará os sinceros e os desinteressados e estimulará os mornos. Hoje ele vê e sabe tudo quanto previa ainda há pouco! Não mais está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos. E nos fará partilhar da sua convicção, obrigando-nos a tocar a verdade com o dedo, indicando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que o fez um padrão nos anais literários.

 

     O homem não existe mais - repetimo-lo. Mas Allan Kardec é imortal e sua lembrança, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com os que sustentarem, alto e firme, a bandeira que ele sempre soube fazer respeitar.

 

     Uma individualidade poderosa construiu a obra; era o guia e a luz de todos. Na Terra, a obra tomará o lugar do indivíduo. Não nos uniremos em torno de Allan Kardec; estaremos unidos em torno do Espiritismo, tal qual ele o constituiu, e, por seus conselhos, sob sua influência, avançaremos a passos certos para as fases prometidas à Humanidade regenerada. (Revista Espírita de maio de 1869).

 

Nota do compilador: 1 - Pestalozzi (Johann Heinrich) - 1746-1827 - Pedagogo suíço, discípulo de J. J. Rousseau, esforçou-se por melhorar a educação e instrução das crianças pobres.

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