BOA-FÉ
Perante Deus a boa fé é uma coisa respeitável. É coisa respeitável e boa; mas ao mesmo tempo uma das que mais perde aqueles que dela usam.
É também a única virtude que perde, aí e aqui, os que lhe prestam culto; por isso precavém-te contra ela. Aí, em coisas de caráter terreno os seus malefícios podem ser de caráter remediável e transitório; mas quando são conjugados os efeitos de caráter terreno com os de caráter extraterreno, então, meu amigo, se não são irreparáveis, são sempre perigosos e às vezes terríveis.
É o homem sujeito, por vezes, a provações que se baseiam na sua boa-fé. É pela boa-fé que a vaidade ou o orgulho fazem caminho no coração de médiuns. Ao sentirem-se distinguidos por provas de afeto dos seus irmãos das regiões desconhecidas, provas só dadas àqueles a quem realmente Deus permite que se dêem, começam a possuir-se desta vaidade de tal modo, que dentro em breve já não sabem distinguir entre o favor de que ele lhes faz mercê, daquilo que supõem que como obrigação lhes é devido. Quando chegam a este ponto estão no caminho de perderem tudo quanto anteriormente conquistaram com enormes sacrifícios e duras provações.
É a germinação da semente lançada pela vaidade no alfobre da boa-fé.
São a princípio de uma simplicidade santa e honesta.
Tudo lhes corre tranqüilo e sereno, à medida dos seus desejos bem intencionados e bons; e nessa confiança adormecem. Então o lobo cerval do orgulho mascara-se com a pele da ovelha da simplicidade e entra-lhe no redil.
O seu cão de guarda, a boa-fé, está adormecido e confiado; e se chega a acordar já não tem tempo nem forças para expulsar o inimigo terrível do aprisco, e dentro em breve terá ele destruído o mimoso rebanho, longamente e carinhosamente apascentado.
Meu amigo. O teu rebanho está lindo. Outro maior nem mais galante existe; mas substitui o teu lebréu ou tem-no sempre vigilante.
A beleza das tuas ovelhas seduz e tenta os lobos que tens contido em respeito, e a distância, pela tua valentia e poder; mas, como vês, eles se aproximam cada vez mais com uma tenacidade e com um atrevimento que aterra.
Passam por entre nós, terríveis e ousados; e acercam-se de ti, humildemente, como o mais brando e manso dos teus amigos; mas ai de ti se te apanham desprevenido!.
E nós não podemos obstar a isso. Assim é necessário.
O pai de tudo assim o quer para experimentar a constância e a vigilância daqueles a quem Ele investe na missão de pastores.
Se sabem manter-se à altura do encargo que lhes confiou, dar-lhes-á, ao fim do seu serviço, a Raquel da felicidade; se se deixam vitimar pelos lobos que lhes assediam o rebanho nem de Lia lhes fará mercê.
E estranha coisa! As ovelhas deste espiritual rebanho não sofrerão com os lobos, senão a pungentíssima dor de verem triturado e esfacelado pelas feras o seu pastor querido, a quem amam e servem.
Tu tens visto como ultimamente tens sido atacado.
A tua boa-fé descansava, e ia-te deixando descansar, na confiança de que eles não entrariam no aprisco, iludindo ou salvando os obstáculos que lhes tens disposto. Assim tem sucedido; mas, como vês, já hoje saltaram esses obstáculos derradeiros como têm saltado os outros. Desperta, pois, bem, a tua boa-fé, ou muda de lebréu.
Os primeiros ataques não serão os perigosos; mas é que em seguimento desses virão os outros; e quando deres alarme poderá já ser tarde.
É este conselho de caráter pessoal; mas generaliza-o. Publica-o, porque não terá menos valor que tudo que de bem te possam dizer.
Será mais uma prevenção a todos aqueles que se encontrem na situação em que te encontras, e que precisam acautelar-se, como tu. E por esse mundo fora há muitos assim.
Constituem mesmo um grande entrave à divulgação das nossas manifestações e da doutrina espírita.
Olha que o lobo reveste-se tanto com o nome de um amigo, como com o desafio de um inimigo. Está muitas vezes na prova a que querem inopinadamente submeter os médiuns. Toma ele as mais variadas formas e os mais simpáticos aspectos. Não te lembras como ele te atacou, e quase subjugou, no começo da tua obra?
Um médium deve ser sempre o instrumento passivo e humilde da ação desconhecida e misteriosa da vontade de Deus.
Se quer ele próprio operar; se supõe que é por ele que pode e que só ele executa, e que só da sua vontade e do seu mérito depende, está perdido.
Isto não é acusar-te, sossega.
Não tenho razão para isso, por enquanto. É prevenir-te como é prevenir todos aqueles que se dediquem ao estudo da nossa vida, destino e fim.
É bradar-te que estejas alerta.
Que
não adormeças nem deixes adormecer a tua boa-fé. Trabalha. Trabalha
quanto puderes; mais, porém, quando possas do que quando queiras.
Não te sujeites a experiências que não tenham fim elevado, e que não tenham alguma esperança bem fundada, de utilidade geral. Naquelas em que só o teu amor próprio possa ter interesse, resiste. Bane-as de ti. Não te importes que a tua vaidade ou o teu crédito medianímico sofram. Lucrarás infinitamente mais em te humilhares, do que em te mostrares arrogante e poderoso.
Nota, repito, que isto é só quando a tua simples personalidade estiver em foco.Deixa passar o riso e a provocação, que Deus te vingará a tempo. É nesse riso, na dúvida, e na provocação desnecessária que está o lobo, também. Já te disse que ele toma as mais variadas formas e procura todas as oportunidades; e as mais perigosas são aquelas em que eles podem atacar o fundo vaidoso e arrogante de toda personalidade humana.
Quando estás só - e isto agora é relativamente a ti - pode tomar o nome de qualquer de nós; quando estás acompanhado pode tomar o aspecto da defesa da doutrina que professas e apostolizas.
Cautela, pois. Nenhum de nós estranhará as provas a que nos submeteres; e quanto mais rigorosas mais nos alegrarão, por te vermos alerta. Tu é que te deves acautelar com aquelas a que te queiram submeter. Tu o sabes - aquelas por que hás de passar. Hão de ser bem mais terríveis do que as nossas. Toma para teu exemplo o bíblico exemplo de Job; e completarás os teus sete anos de Jacob, para receberes a Raquel prometida pelo Senhor. (Espírito de Castilho - Do País da Luz 1 - F. Lacerda).