CHARLES FOURIER 

     Um discípulo de Charles Fourier, que ao mesmo tempo é espírita, ultimamente nos dirigiu uma evocação com o pedido de solicitar uma resposta, se fosse possível, a fim de se esclarecer sobre certas questões. Tendo-nos parecido ambas instrutivas, transcrevemo-las a seguir:

     “Irmão Fourier:

     Do alto da esfera ultramundana, se teu Espírito me pode ver e ouvir, eu te peço comunicar-te comigo, a fim de me fortificar na convicção que tua admirável teoria dos quatro movimentos fez nascer em mim sobre a lei da harmonia universal, ou de me desenganar se tiveste a infelicidade, tu mesmo, de te enganares. A ti, cujo gênio incomparável parece ter levantado a cortina que ocultava a Natureza, e cujo Espírito deve ser mais lúcido ainda do que o era no mundo material, eu te peço que me digas se reconheces, no mundo dos Espíritos, como na Terra, que haja desmoronamento da ordem natural estabelecida por Deus, em nossa organização social; se as atrações passionais são realmente a alavanca de que Deus se serve para conduzir o homem ao seu verdadeiro destino; se a analogia é um meio seguro para descobrir a verdade.

     Peço-te me digas, também, o que pensas das sociedades cooperativas que germinam de todos os lados na superfície do nosso globo. Se teu Espírito pode ler no pensamento do homem sincero, tu deves saber que a dúvida o torna infeliz; eis por que te suplico, de tua morada de além-túmulo, a bondade de fazer tudo quanto dependa de ti para me convencer.

     Recebe, nosso irmão, a segurança do respeito que devo à tua memória e de minha maior veneração.” (J.G.)    

     Resposta: “É uma pergunta muito séria, caro irmão em crença, indagar de um homem se ele se enganou, quando um certo número de anos se passaram desde que ele expôs o sistema que melhor satisfazia a suas aspirações para o desconhecido! Enganei-me?... Quem não se enganou quando quis, com as suas forças, levantar o véu que lhe ocultava o fogo sagrado?! Prometeu1 fez homens com esse fogo, mas a lei do progresso condenou esses homens às lutas físicas e morais. Eu fiz um sistema, destinado, como todos os sistemas, a viver um tempo, depois transformar-se, associar-se a novos elementos mais verdadeiros. Vede, há idéias como homens. Desde que nasceram, não morrem: transformam-se. Grosseiras de início, envoltas na ganga da linguagem, encontram sucessivamente artistas que as talham e as vão polindo cada vez mais, até que esse eixo informe se tenha tornado o diamante de vivo brilho, a pedra preciosa por excelência.

     Busquei conscienciosamente e achei muito. Apoiando-me nos princípios adquiridos, fiz avançar alguns passos o pensamento inteligente e regenerador. O que descobri era verdadeiro em princípio; falseei-o, ao querer aplicá-lo. Quis criar a série, estabelecer harmonias. Mas essas séries, essas harmonias não necessitavam de criador; existiam desde o começo; e eu não podia senão perturbá-las, querendo estabelecê-las sobre as pequenas bases de minha concepção, quando Deus lhes havia dado o universo por laboratório gigantesco.

     Meu mais sério título, e o que ignoram e talvez mais desdenhem, é ter partilhado com Jean Reynaud, Ballanche, Joseph de Maîstre e muitos outros, o pressentimento da verdade; é ter sonhado com essa regeneração humana pela provação, essa sucessão de existências reparadoras, essa comunicação do mundo livre e do mundo encadeado à matéria, que tendes a felicidade de tocar com o dedo. Nós tínhamos previsto e vós realizais o nosso sonho. Eis os nossos maiores títulos de glória, os únicos que, por minha parte, estimo e dos quais me lembro.

     Duvidais, dizeis vós, meu amigo! tanto melhor; porque aquele que duvida verdadeiramente, procura; e aquele que procura, encontra. Procurai, pois, e, se não depende senão de mim pôr a convicção em vossas mãos, contai com o meu concurso devotado. Mas escutai um conselho de amigo, que pus em prática em minha vida e no qual sempre me achei bem: Se quiserdes uma demonstração séria de uma lei universal, buscai a sua aplicação individual. Quereis a verdade? Buscai-a em vós mesmos, e na observação dos fatos de vossa própria vida. Todos os elementos da prova lá estão. Que aquele que quer saber se examine, e encontrará.” (Espírito de Charles Fourier - R. E. abril de 1869).

 

(1) = Prometeu, deus ou gênio do fogo, filho do Titã Japeto e irmão de Atlas. Na mitologia clássica é o iniciador da primeira civilização humana. Depois de ter formado o homem com argila, para dar-lhe uma alma, roubou o fogo do céu. Zeus, para puni-lo, mandou que Hefaístos o acorrentasse no Cáucaso, onde uma águia lhe devorava o fígado, que sempre se renovava. Foi libertado por Héracles. (nota do compilador)  

Charles Fourier = filósofo e economista francês (1772-1837). O sistema de Fourier, ou fourierismo, preceituava a associação dos indivíduos em falanstérios, grupos humanos harmoniosamente constituídos com o propósito de proporcionar a cada um de seus membros o bem-estar pelo trabalho livremente consentido. (nota do compilador)

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