O DESEJO DA ROSA
Num pequeno, mas agradável jardim, diversas flores conversavam cada qual sobre seus sonhos e esperanças.
Dizia o crisântemo, suspirando:
- Como meus irmãos, eu espero um dia acompanhar alguém à sua última morada, o cemitério, levando paz e consolo aos familiares, como se fora uma mensagem de esperança.
Do tronco de uma árvore retrucou a orquídea, orgulhosa:
- Que horror! Não desejo servir à morte, mas à vida. Meu sonho é enfeitar o ombro de alguma dama elegante, e acompanhá-la numa festa, participando da alegria geral.
Do seu canto, perto do muro, falou a margarida:
- Não, não. Tenho anseios mais simples. Gostaria de ser colocada num vaso alto, que realce minha haste longa e elegante, para adornar um lar modesto que seja, mas onde exista o amor e a concórdia entre as pessoas. Quero ouvir os diálogos entre os familiares, seus afagos e carinhos... Enfim, uma família humilde, mas feliz.
A hortênsia, abanando o lindo cacho florido concordou:
- Adornar um vaso, sim, concordo. Mas nada de ambiente simples e pobre. Almejo algo mais: ser levada para alguma casa rica e passar o resto dos meus dias num ambiente de luxo e beleza.
A humilde violeta, escondida entre as folhas, tudo ouvia calada.
As outras flores, ouvindo um suspiro abafado, olharam para baixo. Vendo que a fitavam, a violeta sussurrou com sua voz delicada:
- Ah, minhas amigas! Desejo apenas alegrar alguém, ser dada de presente num pequeno ramalhete, para que com meu perfume as pessoas possam se sentir melhores e mais felizes.
A violeta fez uma pausa e concluiu risonha:
- Uma coisa, porém, temos em comum, embora nossos sonhos sejam diferentes. Todas nós desejamos ser úteis de alguma maneira.
As flores concordaram em uníssono, aplaudindo a pequena violeta.
A rosa, que até aquele momento mantivera-se indiferente à conversa, replicou altaneira, não se contendo:
- Pobrezinhas! Tenho pena de vocês que sonham em ser arrancadas para servir a outrem. Eu não! Quero permanecer aqui mesmo, no meu lugar, sem sair deste jardim. Servir a outras pessoas, isso nunca! Tenho meu orgulho! Sei que sou bela e desejável, mas quero servir a mim mesma. Quero admirar-me e sentir meu perfume, e que ninguém se aproxime de mim! Que se extasiem com minha beleza, mas de longe - falou soberba.
Olhou as outras flores, fez uma pausa e concluiu:
- Para defender-me, tenho espinhos, e não hesitarei em ferir quem tentar se aproximar de mim.
As demais flores se olharam, surpresas, e depois se puseram a meditar, cada qual entregue aos próprios pensamentos.
Dois dias depois, ao despertar, as flores perceberam sensibilizadas que, da linda e orgulhosa rosa, quase nada mais restava.
O vento que soprara à noite se incumbira de derrubar-lhe as lindas pétalas veludosas. Algumas poucas ainda restavam e, numa delas, dependurada, uma gota de orvalho, parecendo uma lágrima vertida pela bela rosa.
E as flores do jardim choraram pela companheira que, frágil e de vida breve, desejara apenas servir a si mesma.
Em poucos dias, alegremente, as flores foram sendo levadas, despedindo-se umas das outras satisfeitas, cada qual tomando o seu rumo, mas conscientes de que elas seriam úteis e apreciadas, qualquer que fosse o seu destino. (Célia Xavier de Camargo - Jornal "O Imortal" de Cambé PR - setembro 2007)