DEUS É  UM EMPECILHO                             

     A maioria das pessoas que aí se esfalfam a representar o que não são, para conseguirem aplausos da turba, deitavam fogo à imagem chagosa do Deus da igualdade e do amor.

     Deitar fogo à imagem, expressão apagada, e talvez falha de verdade.

     Quando ele andou por esse mundo a ensinar o amor aos humildes e o perdão aos maus, a acarinhar os pobres e a sorrir às crianças, polarizando idéias e semeando exemplos, votaram-no a uma morte infamante e ignominiosa, como perturbador e como impostor.

     Alguns dos homens de hoje, mais liberais, mais tolerantes, como grato agradecimento de estarem gozando do bem por ele generosamente difundido, consolam-se de o não poderem matar novamente, suprimindo-o.

     Entrou em moda negar Cristo e negar Deus. A negação passou a representar uma manifestação de esnobismo, e uma necessidade social.

     Quem queira ser notável no mundo, e proponha a sua candidatura a homem célebre, tem de inscrever, como artigo primeiro do seu programa, a negação deísta.

     É chique e é útil. Celebriza-se rapidamente o super-homem (como é moda agora dizer-se) e dispensa-o do atestado de vacina, de bons costumes, e de provar que tem alguma coisa dentro do crânio.

     Realmente, Deus é um empecilho.

     Pode lá admitir-se que haja alguém com direito de apreciar os nossos atos, sabendo mais do que nós, podendo mais do que nós, e, pior do que isso: que se conserve sempre, impertinentemente, fora do alcance da navalha com que aí se pode atassalhar1 a vida e a reputação alheia?

     Dentre os que o confessam há ainda duas classes: - os que o amam por instinto, por educação, por tradição, e até, às vezes, por uma pontinha de egoísmo, e os que o servem, e a quem a sua existência representa uma utilidade, e constitui rico manancial a explorar.    

     Raros serão aí os homens que o amem e sirvam em elucidada consciência, e como íntima manifestação da sua alma agradecida.

     Raros serão aqueles que o admirem na sua ação permanente e fecunda; no fulgor da sua justiça, na doçura da sua bondade, na força do seu poder, na grandeza suprema da sua vontade e da sua onisciência.

     Raros serão aqueles que o encontrem na asa do inseto, como no fragor das tempestades; na ação instintiva dos protozoários, como nas criações portentosas do cérebro humano; no poder terrível dos infinitamente pequenos, como na luz potencial dos sóis: - poeira luminosa que gira no espaço infinito a marchetar o manto do Universo.

     Raros serão os que o saibam ver nos fenômenos da Natureza, nos segredos insondáveis da Criação, na suprema ordem, na eterna regência das leis que prendem, dominam e harmonizam o existente.

     Abstraindo a parcela rara da humanidade que o vislumbra em tudo, e o ama como Ele deve ser amado, para o resto do gênero humano Ele existirá ou deixará de existir, conforme a vantagem ou desvantagem que a sua existência possa ocasionar.

     Uns negam-no, porque lhes simplifica o problema e aquieta escrúpulos de consciência, amordaçando assim os protestos da dúvida; outros crêem na sua existência, e, amoldando-o à sua fantasia rasteira, semelham-no a um homem respeitável, ou coisa de pouco mais, de brancas barbas intonsas2, calva a S. Pedro, ar venerando e sisudo de patriarca bíblico.

     Supõem-no individualidade que preside a todos os atos humanos, ainda os mais pueris; juiz fero, argos3 universal, que tudo vê e bisbilhoteia, e que, em gestos solenes e pesados, distribui o sol e a chuva, conforme lhe pedem.    

     Crêem-no a beneficiar uns filhos em detrimento dos outros; e que, depois de ter escravizado à dor, nesse mundo, aqueles com quem não simpatiza, ainda os condena às eternas penas do inferno, só para se dar ao luxo neroniano4 de ver ígneos torresmos humanos, ou de pitadear carne tisnada, esmagando-a entre os dedos, como os átomos do célebre luminar coimbrão.

     Pessoas de digestão difícil, sujeitas a pesadelos, pitam-no iracundo, despedindo raios, trovejando ameaças, deliciando-se em torturar as crianças e os velhos, e entretendo-se em jogar aos dados, com o seu eterno rival, o decrépito Satã. As almas dos míseros bichos humanos, que em desenfastiado momento colocou no mundo desamparadas, entregues a si próprias, ignorantes e indefesas para reagir ás argutas tentações do velho e engenhoso Demônio; entregando-lhe aquelas que não conseguem fazer o que Ele, o próprio Deus, não conseguiu: - dominar e vencer a astúcia do velho e solerte Belzebu.

     Os de espírito forte, que pascem5 livres teorias pelas vastas campinas da Razão fria, sob o olhar vigilante e protetor da Ciência positiva, liquidaram mais limpamente o embaraço com a supressão completa. Não estiveram para perder tempo, procurando desatar o nó - cortaram-no com a espada flamejante da sua independente sabedoria.

     Não estranhem se dentre a intelectual coorte de negadores, encontrarem o carroceiro soez6, o sapateiro filósofo, em igualitária promiscuidade com o sábio da academia, e com o luminar da medicina que procura a alma com a ponta do seu bisturi. Isso nada faz ao caso.

     A inteligência, a esperteza, e a arguta previsão das coisas, não escolhem classes nem cérebros para fazer o seu recrutamento.

     A luz científica que ilumina os mais recônditos recessos do desconhecido, tanto pode acender-se no cérebro alcoolizado de um catedrático da taberna, como no de um catedrático de universidade.

     Em ambos pode fulgir a centelha do gênio que os leve, argoladamente, à desvendação do mistério máximo, que tem resistido, impenetrável, à investigação humana.    

Não se admirem. O saber em qualquer parte se aninha e enrosca; e para ver claro onde toda a gente encontra densa treva, tão de lince podem ser os olhos oculados dos homens da ciência, como os olhos blefaríticos7 dos videntes de tripeça.

     Les beaux esprits...

     Não quiseram, porém, na sua científica previdência, deixar a pobre Humanidade sem ídolos para adorar. Reconheceram que o coração humano carece de um ideal superior que o alimente e fortaleça; que o sentimento exige alguma coisa de grande, de infinitamente grande, para admirar e amar. Para substituir nessa indispensável adoração o velho Deus, que escavacaram, inventaram o deus-Homem, por já estar fora da moda a sanguinária deusa Razão, da revolução francesa.

     Endeusaram-no, sublimaram-no; proclamaram a sua onipotência e a sua libertação do Preconceito e da Religião, e a sua rebeldia contra Deus e contra o diabo.

     Começaram, entretanto, a reconhecer que a matéria mole e prutefativa de que esse deus era formado, não tinha muito durável conservação, nem aplicando-lhe os mais apurados ingredientes dos salchicheiros de Chicago. Recorrera, salvadoramente, aos grandes homens simbólicos da História - vasto e provido depósito de sublimidades, onde se podem escolher, a preço módico, deuses para todos os paladares, à vontade do freguês.

     Talvez lhes sorrisse, vagamente, a esperança de virem a ter ali apetecível guarida, e poderem ser um dia também escolhidos para fetiches, se voltarmos à perfeição lendária dos animais falantes, e os burros tiverem necessidade de escolher deuses...

     E bem o haverão merecido, por terem visto a tempo que os grandes homens vivos não serviam para as altas funções em que os queriam investir. Enquanto vivos, nenhum deixaria de quebrar a gravidade augusta, necessária a um deus, à picada coceguenta de qualquer inseto iconoclasta; depois de mortos, o característico odor das suas divinas carnes em fermentação, não seria excessivamente agradável aos seus fiéis.    

     Estes preciosos ateus, videirinhos8 da anarquia intelectual, e apaixonados adoradores da Ciência soberana, admitem que um frágil instrumento de óptica perscrute o infinito; que se possam medir, sem esforço, as distâncias incomensuráveis, representado-as em rosários de zeros intermináveis e fecundos como os anéis de uma solitária; que se contem as bactérias que uma gota d’água contém, e os micróbios que repastam em um cão morto, beijado pelo sol do combro9 de um valado; mas insurgem-se, como heróica libertação do intelecto e da consciência, contra a possibilidade de que não haja manifestação sem causa, e de que, para no Universo existir em as leis, que são forçados a reconhecer, para existir matéria que se transforma incessantemente dentro de uma lei imutável, e vida, que tudo anima e agita, é indispensável haver uma fonte de onde tudo dimanasse ou um obreiro que tudo fizesse e sabiamente regularizasse.

     Divinizam homens porque constataram a existência de algumas das leis naturais, e lhes indicaram a função e a ordem, sem jamais lhes terem atingido a origem; e repudiam esta necessária origem, só porque ainda não conseguiram percebê-la, conquanto ela se aperceba e constate nas mais insignificantes manifestações daquelas leis.

     Enaltecem o pioneiro que descobre um continente novo; o que investiga e descreve novas e não sonhadas manifestações da fauna, da mineralogia; o que arranca um átomo à força universal e lhes dá a eletricidade; o que, num acaso feliz, conquistou o vapor; os que, vislumbrando o começo de infinitos segredos, lhes deram a luz invisível, a irradiação da matéria, a etérea onda vibratória, a luz permanente e indestrutível, o conhecimento dos organismos infinitamente pequenos, a conservação ou a condução dos sons; enfim, alguns dos pequenos  nadas que constituem esquírolas do grande Todo; e simulam grosseiro desdém pela inconcebível maravilha que é esse Todo, e pela Entidade que o deve ter organizado.

(Espírito de Eça de Queiroz - Do País da Luz 3 - Fernando de Lacerda). 

Notas do compilador: 1 - atassalhar = fazer em pedaços; caluniar; 2 - Intonsas = que não são tosquiadas; 3 - Argos = príncipe grego que, conforme a lenda, tinha cem olhos, dos quais cinqüenta sempre abertos; 4 - Neroniano = De Nero, imperador romano; 5 - Pascem = agradam; 6 - Soez = vil; torpe; 7 - Blefaríticos = enganados; 8 - Videirinhos = aqueles que tratam com cuidado das suas vidas ou dos seus interesses; 9 - Combro = pequena elevação de terreno.

O  FUTURO  ESPIRITUAL  DA  FAMÍLIA  DEPENDE  SEMPRE  DA  FORMA  QUE  DERDES  A  TODAS  AS  VOSSAS  AÇÕES

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