RECUSA

DEUS NÃO CASTIGA

     Tu que possuis, escuta-me. Um dia dois filhos do mesmo pai receberam cada um seu alqueire de trigo. O mais velho fechou o seu num lugar retirado; o outro encontrou no caminho um pobre que pedia esmolas; correu para ele a despejar em seu manto a metade do trigo que recebera; depois, seguiu seu caminho e foi semear o resto no campo paterno.

     Por esse tempo veio uma grande fome e as aves do céu morriam à beira dos caminhos. O irmão mais velho correu ao seu esconderijo, mas ali só encontrou poeira; o caçula ia tristemente contemplar seu trigo seco no pé, quando deparou com o pobre que havia ajudado. - Irmão, disse-lhe o mendigo, eu estava morrendo e tu me socorreste; agora que a esperança secou em teu coração, segue-me. Teu meio alqueire rendeu cinco vezes em minhas mãos; matarei a tua fome e viverás em abundância.

OOoOoOo

     Escuta-me, avarento! Conheces a felicidade? Sim, não é? Teus olhos brilham com reflexos sombrios nas órbitas que a avareza tornou mais profundas; teus lábios se cerram; tuas narinas se dilatam e teus ouvidos ficam atentos. Sim, eu escuto: é o tinir do ouro que tua mão acaricia, ao se derramar no teu escaninho. Tu dizes: que suprema volúpia! Silêncio, vem gente! Fecha depressa! Oh! como estás pálido! Teu corpo todo estremece. Domina-te; os passos se afastam. Abre; olha ainda o teu ouro. Abre; não tremas; estás perfeitamente só. Ouves? Não é nada; é o vento que geme nas frestas. Olha! Quanto ouro! Mergulha as mãos; faze soar o metal; tu és feliz.

     Feliz, tu! Mas a noite não te dá repouso; teu sono é povoado de fantasmas.

     Tens frio! Aproxima-te da lareira; aquece-te a este fogo que crepita tão alegremente. Cai neve; o viajante friorento envolve-se em seu manto, o pobre tirita sob os andrajos. A chama da lareira diminui; atira mais lenha. Não; pára! é o teu ouro que consomes com essa madeira; é o teu ouro que queimas!

     Tens fome! Olha, toma: sacia-te; tudo isto é teu; pagaste com o teu ouro. Com o teu ouro! esta abundância te revolta; este supérfluo será necessário para manter-se a vida? não, este pedaço de pão será bastante; ainda é muito. Tuas roupas caem em frangalhos; tua casa se fende e ameaça ruína; sofrerás frio e fome; mas que importa! Tens ouro!

     Infeliz! A morte separa-te deste ouro. Deixá-lo-ás à borda de teu túmulo, como a poeira que o viajante sacode à soleira da porta, onde a família querida o espera para festejar o regresso.

    Teu sangue enfraquecido, envelhecido por tua voluntária miséria, gelou-se em tuas veias. Os herdeiros ávidos atiram teu corpo a um recanto de cemitério; eis-te face a face com a eternidade. Miserável, que fizeste desse ouro que te foi confiado para aliviar o pobre? Ouves estas blasfêmias? Estas lágrimas? Vês este sangue? São as blasfêmias dos sofrimentos que terias podido acalmar; são as lágrimas que fizeste correr; é o sangue que derramaste. Tens horror a ti mesmo; desejarias fugir e não podes. Sofres, desesperado! Tu te contorces no teu sofrimento. Sofre! não haverá piedade para contigo! Não tiveste entranhas para o teu irmão infeliz: quem teria para ti? Sofre! Sofre sempre! Teu suplício não terá fim. Para te punir, Deus quer que assim o creias.  (Espírito São Luís - R. E. 1858)

OBS.: Ouvindo o fim destas eloqüentes e poéticas palavras, estávamos surpreendidos por ouvir São Luís falar da eternidade dos sofrimentos, quando todos os Espíritos superiores são concordes em combater tal crença, quando as últimas palavras: para te punir, Deus quer que assim o creias, tudo explicaram. Nós as reproduzimos nos caracteres gerais dos Espíritos da terceira ordem. Com efeito, quanto mais imperfeitos os Espíritos, mais restritas e circunscritas as suas idéias; para eles o futuro está vago; não o compreendem. Sofrem; seus sofrimentos são longos; e para quem sofre há muito tempo, isto é sofrer sempre. Este próprio pensamento é um castigo.  (Allan Kardec).

DEUS  É  IMUTÁVEL;  SE  TIVESSE  SUJEITO  ÀS  MUDANÇAS,  AS  LEIS  QUE  REGEM  O  UNIVERSO  NÃO  TERIAM  NENHUMA  ESTABILIDADE

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