DIZES-ME O QUE PENSAS
A comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem é uma condição de primeira necessidade e não é possível encontrá-la num meio heterogêneo, onde tivessem acesso as paixões inferiores como o orgulho, a inveja e o ciúme, as quais sempre se revelam pela malevolência e pela acrimônia de linguagem, por mais espesso que seja o véu com que se procure cobri-las. Eis o á-bê-cê da Ciência Espírita. Se quisermos fechar a porta desse recinto aos maus Espíritos, comecemos por lhes fechar a porta de nossos corações e evitemos tudo quanto lhes possa conferir poder sobre nós. Se algum dia a Sociedade se tornasse joguete dos Espíritos enganadores, é que a ela teriam sido atraídos. Por quem? Por aqueles nos quais eles encontram eco, pois vão aonde são escutados. É conhecido o provérbio: Dizes-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Podemos parodiá-lo em relação aos nossos Espíritos simpáticos, dizendo: Dizes-me o que pensas, dir-te-ei com quem andas.
Ora, os pensamentos se traduzem por atos; se admitirmos que a discórdia, o orgulho, a inveja e o ciúme não podem ser inspirados senão por maus Espíritos, aqueles que aqui trouxessem elementos de desunião suscitariam entraves, com o que indicariam a natureza de seus satélites ocultos. Então só poderíamos lamentar sua presença no seio da Sociedade. Deus permita que assim não aconteça; e espero que, auxiliados pelos bons Espíritos, se a estes nos tornarmos favoráveis, a Sociedade consolidar-se-á, tanto pela consideração que tiver merecido, quanto pela utilidade de seus trabalhos.
Se tivéssemos em mira apenas experiências para satisfação de nossa curiosidade, a natureza das comunicações seria mais ou menos indiferente, pois nelas veríamos somente o que elas são. Como, porém, em nossos estudos não buscamos uma diversão para nós, nem para o público, queremos comunicações verdadeiras. Por isto necessitamos da simpatia dos bons Espíritos; e esta só é conseguida pelos que afastam os maus com a sinceridade de seu coração.
Dizer que Espíritos levianos jamais deslizaram entre nós, para encobrirmos qualquer ponto vulnerável de nossa parte, seria uma presunção de perfeição. Os Espíritos superiores chegaram mesmo a permiti-lo, a fim de experimentar a nossa perspicácia e o nosso zelo na pesquisa da verdade. Entretanto, o nosso raciocínio deve pôr-nos em guarda contra as ciladas que nos podem ser armadas e em todos os casos dá-nos os meios de evitá-las.
O objetivo da Sociedade não é apenas a pesquisa dos princípios da Ciência Espírita. Ela vai mais longe: estuda também as suas conseqüências morais, pois é principalmente nestas que está a sua verdadeira utilidade.
Ensinam os nossos estudos que o mundo invisível que nos circunda reage constantemente sobre o mundo visível; e no-lo mostram como uma das forças da Natureza. Conhecer os efeitos dessa força oculta, que nos domina e nos subjuga malgrado nosso, não será ter a chave de muitos problemas, as explicações de uma porção de fatos que passam desapercebidos? Se esses efeitos podem ser funestos, conhecer a causa do mal não é ter um meio de preservar-se contra ele, assim como o conhecimento das propriedades da eletricidade nos deu o meio de atenuar os desastrosos efeitos do raio? Se então sucumbirmos não nos poderemos queixar senão de nós mesmos, porque a ignorância não nos servirá de desculpa. O perigo está no império que os maus Espíritos exercem sobre as pessoas, o que não é apenas uma coisa funesta, do ponto de vista dos erros de princípios que eles podem propagar, como ainda do ponto de vista dos interesses da vida material. Ensina a experiência que não é impunemente que nos abandonamos ao domínio dos maus Espíritos. Porque suas intenções jamais podem ser boas. Uma de suas táticas para alcançar os seus fins é a desunião, pois sabem muito bem que podem facilmente dominar quem estiver sem apoio. Assim, o seu primeiro cuidado, quando querem apoderar-se de alguém, é sempre inspirar-lhe a desconfiança e o isolamento, a fim de que ninguém possa desmascará-los, esclarecendo a vítima com conselhos salutares. Uma vez senhores do terreno, podem à vontade fascinar a pessoa com promessas sedutoras, subjugá-la por meio da lisonja às suas inclinações, para o que aproveitam os lados fracos que descobrem a fim de melhor fazê-la sentir, depois, a amargura das decepções, feri-la nas suas afeições, humilhá-la no seu orgulho, e, muitas vezes, elevá-la por um instante, apenas, para a precipitar de mais alto.
Eis, senhores o que nos mostram os exemplos que a cada momento se desdobram aos nossos olhos, tanto no mundo dos Espíritos quanto no mundo corpóreo, circunstância que podemos aproveitar para nós próprios, ao mesmo tempo que procuramos torná-la proveitosa aos outros.
Entretanto, perguntarão se não atrairemos os maus Espíritos, evocando homens que foram o rebotalho da sociedade. Não, porque jamais sofremos a sua influência. Só haverá perigo quando é o Espírito que se impõe; nunca, porém, quando nos impomos ao Espírito. Sabeis que tais Espíritos não atendem ao vosso chamado senão constrangidos e forçados; que em geral se acham tão deslocados em vosso meio que têm pressa em retirar-se. Para nós sua presença é um estudo, porque para conhecer é necessário ver tudo. O médico não chega ao apogeu do conhecimento senão sondando as mais hediondas chagas.
Ora, essa comparação do médico é tanto mais justa quanto mais sabeis das chagas que temos curado e dos sofrimentos que temos aliviado. Nosso dever é mostrar-nos caridosos e benevolentes para com os seres de além-túmulo, assim como para os nossos semelhantes. (ALLAN KARDEC - Revista Espírita de 1859). PRÓXIMA