O DOUTOR VIGNAL
Sem dúvida os leitores se lembram dos interessantes estudos sobre o Espírito de pessoas vivas, publicado na Revista de janeiro e março de 1860, e aos quais se haviam submetido o Sr. Conde de R... e o Sr. Dr. Vignal. Este último, retirado há vários anos, faleceu a 25 de março último. Na véspera do enterro, perguntamos a um sonâmbulo muito lúcido, que via bem os Espíritos, se o via. Disse ele: "Vejo um cadáver, no qual se opera um trabalho extraordinário. Dir-se-ia uma massa que se agita e como algo que faz esforços para se desprender dela, mas que apenas tem que vencer a resistência. Não distingo forma de Espírito bem determinada." A 31 de março foi evocado na Sociedade de Paris. O mesmo sonâmbulo assistia, adormecido, à sessão durante a evocação. Ele o viu e o descreveu perfeitamente, enquanto se comunicava pelo médium de sua escolha.
Dizemos de sua escolha, porque a experiência demonstra o inconveniente de impor um médium ao Espírito, que pode não encontrar nele as condições necessárias para se comunicar livremente. Quando se faz pela primeira vez a evocação de um Espírito, convém que todos os médiuns presentes se ponham à sua disposição e esperem que se manifeste por um deles. Nesta sessão havia onze médiuns.
Pergunta: Caro Sr. Vignal, todos os vossos antigos colegas da Sociedade de Paris conservaram de vós a melhor lembrança, e eu, em particular, a das excelentes relações, que não se descontinuaram entre nós. Chamando-vos ao nosso meio, para começar temos por objetivo dar-vos um testemunho de simpatia e seremos muito felizes se tiverdes a bondade, ou se puderdes, vir palestrar conosco.
Resposta: Caro amigo e digno mestre, vossa boa lembrança e vossos testemunhos de simpatia me são muito sensíveis. Se hoje posso vir a vós e assistir, livre e desprendido, a esta reunião de todos os nossos bons amigos e irmãos Espíritas, é graças ao vosso bom pensamento e à assistência que vossas preces me trouxeram. Como dizia com justeza meu jovem secretário, eu estava muito impaciente para me comunicar; desde o começo desta noite, empreguei todas as minhas forças espirituais para dominar este desejo. Vossa palestras e as graves questões que aqui agitais, interessando-me vivamente, tornaram minha espera menos penosa. Perdoai, caro amigo, mas o meu reconhecimento precisava manifestar-se.
Pergunta: Para começar, tende a bondade de dizer como vos achais no mundo dos Espíritos. Ao mesmo tempo, fazei o favor de descrever o trabalho da separação, vossas sensações nesse momento e dizer ao cabo de quanto tempo vós vos reconhecestes.
Resposta: Estou tão feliz quanto se pode ser, quando se vê confirmarem-se plenamente todos os pensamentos secretos, que se pode ter emitido sobre uma doutrina consoladora e reparadora. Sou feliz! sim, o sou, porque agora vejo sem nenhum obstáculo desdobrar-se à minha frente o futuro da ciência e da filosofia espíritas.
Mas afastemos por hoje essas digressões inoportunas. Virei de novo entreter-vos a respeito, sabendo que minha presença vos dará tanto prazer quanto eu mesmo experimento vos visitando.
O desligamento foi muito rápido; mais rápido do que meu pouco mérito me permitia esperar. Fui ajudado poderosamente por vosso concurso, e vossa sonâmbula vos deu uma ideia muito clara do fenômeno da separação, para que eu deva insistir sobre ele. Era uma espécie de oscilação descontínua, ou arrastamento em dois sentidos opostos. O Espírito triunfou, pois que aqui estou. Não deixei o corpo completamente senão no momento em que depositado na terra. Vim convosco.
Pergunta: Que pensais do serviço que foi feito nos vossos funerais? Julguei dever estar presente. Naquele momento estáveis bastante desprendido para o ver, e as preces que disse por vós, naturalmente não ostensivas, foram até vós?
Resposta: Sim. Como vos disse, vossa assistência tudo fez em parte e eu vim convosco, abandonando completamente minha velha crisálida. As coisas materiais pouco me tocam, aliás vós o sabeis. Eu só pensava na alma e em Deus.
Pergunta: Lembrai-vos que a pedido vosso, há cinco anos, em fevereiro de 1860, fizemos um estudo sobre vós, estando ainda vivo? Naquele momento vosso Espírito desprendeu-se para vir conversar conosco. Podeis descrever-nos, tanto quanto possível, a diferença que existe entre o vosso desprendimento atual e o de então?
Resposta: Sim, certo. Eu me lembro. Mas que diferença entre o meu estado de então e o de hoje! então a matéria ainda me constringia com seu sistema inflexível; eu queria destacar-me de maneira mais absoluta e não podia. Hoje sou livre. Um vasto campo, o do desconhecido, abre-se à minha frente, e espero, com a vossa ajuda e a dos bons Espíritos, aos quais me recomendo, avançar e me penetrar o mais rapidamente possível dos sentimentos que devo experimentar e dos atos que devo realizar para subir o caminho da prova e merecer o mundo das recompensas. Que majestade! que grandeza! é quase um sentimento de espanto que domina então que, fracos como somos, queremos fixar as sublimes claridades.
Pergunta:De outra vez teremos prazer de continuar esta palestra, quando quiserdes vir até nós.
Resposta: Respondi sucintamente e sem ordenação às vossas diversas perguntas. Não espereis ainda muito de vosso fiel discípulo; não estou inteiramente livre. Conversar, conversar ainda seria minha felicidade; meu guia modera meu entusiasmo e já apreciei bastante a sua bondade e sua justiça, para me submeter inteiramente à sua decisão, por mais pesar que eu experimente em ser interrompido. Consolo-me pensando que poderei vir muitas vezes assistir incógnito às vossas reuniões. Falar-vos-ei algumas vezes; amo-vos e quero prová-lo. Mas outros Espíritos mais adiantados que eu reclamam a prioridade e eu deveria apagar-me ante os que tiveram a bondade de permitir ao meu Espírito dar livre curso à torrente de pensamentos que havia acumulado.
Deixo-vos, amigos, e devo agradecer duplamente, não só a vós, Espíritas, que me chamastes, mas também a este Espírito que permitiu que eu tomasse o seu lugar e que, em vida, trazia o nome ilustre de Pascal. Dr. Vignal (31/março/1865 -Revista Espírita. Diálogo entre Allan Kardec e o Espírito de um médico).
VEJA AQUI O DIÁLOGO ATRAVÉS DE UM MÉDIUM DE KARDEC COM O DOUTOR VIGNAL, QUANDO ESTE ESTAVA DORMINDO EM OUTRA CIDADE.