A DÚVIDA
Enquanto na Terra, temos uma venda nos olhos que só a morte arranca.
Essa venda, que é a dúvida, obriga-nos a ir de encontro à verdade, como se fôssemos cegos.
Repara. Em todos os atos da vida do homem se encontra o efeito deletério da dúvida.
Em todos os momentos em que ele se veja colocado ante um problema novo, ante uma afirmação nova, ante uma nova conquista, a sua primeira e a mais intensa impressão é a dúvida.
A dúvida é a filha da inveja e do despeito. Procura bem a origem do mais poderoso obstáculo ao progresso, e, quase sempre, encontrarás como progenitores incontestados de tão mesquinho sentimento aqueles dois parasitas do coração humano.
Não se perdoa nunca a quem pelo esforço potencial e criador do seu gênio, pela adaptação das suas faculdades assimiladoras, ou pelo providencial propulsor que a ignorância denomina acaso, atire a sua barra mais além que a maioria suprema dos seus semelhantes ignaros.
Aparece alguém que afirma poder avançar-se mais um passo na infinita senda da perfeição e do saber?
Duvida-se.
Por que se duvida?
Porque toda a gente se sente invejosa e despeitada de que não haja sido esse alguém.
Consulta a sua ação, a sua inteligência, todas as suas faculdades produtoras e inventivas, assimilativas, concatenadoras, e num exame miraculosamente rápido, acha o vazio da sua aptidão a inanidade da sua competência, e, besta invejosa, arremessa logo o único sentimento que a vacuidade do seu cérebro ou a pequenez do seu coração pode manifestar em abundância - a dúvida.
Procure cada um bem dentro do seu íntimo, no mais escondido recesso da sua alma, e reconhecerá quanta verdade existe nesta observação.
Não duvidamos porque tenhamos razões poderosas ou ponderosas para o podermos fazer; mas porque olhando, analisando a nossa própria individualidade, nos reconhecemos inaptos e incapazes de ver ou de fazer o que outrem nos diz que viu ou que fez; ou, quando por vaidade ou pretensão, ou mesmo justiça, nos supuséssemos capazes de o fazer, esse outrem se antecipou a nós na sua execução, ou na sua divulgação.
No primeiro caso é a inveja; no segundo o despeito; e conseqüência lógica de ambos: - dúvida.
Não conheci eu bem, enquanto aí estive, a pedra angular sobre que assenta a misteriosa máquina que obstrui secularmente a marcha gradual e evolucionista do progresso; porque se a tivesse conhecido, se não fosse só o descobrimento da morte que me levou a essa perfeição analítica e inteirada da claudicação do eu humano, teria escalpelado e posto a nu a chaga corrosiva e purulenta que mina, apodrece e deprecia a mais complicada e maravilhosa obra da Criação.
A minha obra, filha da observação, foi a de quem procurou ser justo; mas teria sido a de um santo, se eu não tivesse, como a humanidade toda, a venda do mistério a cegar-me a alma e a desvirtuar-me a ação...
(Espírito de Émile Zola - 28/11/1906 - Obra: Do País da Luz - Médium: Fernando Lacerda).
OBSERVAÇÃO DO COMPILADOR: Émile Zola = escritor francês (1840-1902). PONDEROSAS = dignas de atenção, convincentes, importantes. PRÓXIMA