EMANCIPAÇÃO DA MULHER 

     Em todos os tempos os homens têm sido orgulhosos. É um vício constitucional, inerente à sua natureza. O homem - falo do sexo - o homem, forte pelo desenvolvimento de seus músculos, pelas concepções um pouco ousadas de seus pensamentos, não levou em conta a fraqueza a que se faz alusão nas santas Escrituras, fraqueza que faz a desgraça de toda a sua descendência. Julgou-se forte, e serviu-se da mulher, não como de uma companheira, de uma família: dela se serviu do ponto de vista puramente bestial; dela fez um animal bastante agradável e a acostumou a manter-se a uma respeitosa distância do senhor. Mas como Deus não quis que uma metade da humanidade fosse dependente da outra, não fez duas criações distintas: uma para estar constantemente ao serviço da outra. Quis que todas as suas criaturas pudessem participar do banquete da vida e do infinito numa mesma proporção.

     Nesses cérebros, por tanto tempo mantidos afastados de toda ciência como impróprios a receber os benefícios da instrução, Deus fez nascer, como contrapeso, astúcias que põem em cheque as forças do homem. A mulher é fraca, o homem é forte, é sábio; mas a mulher é astuciosa e a ciência contra a astúcia nem sempre leva a melhor. Se fosse a verdadeira ciência, ela a venceria; mas é uma ciência falsa e incompleta, e a mulher facilmente encontra a falta da couraça. Provocada pela posição que lhe era dada, a mulher desenvolveu o germe que sentia em si; a necessidade de sair de seu rebaixamento lhe deu o desejo de romper suas cadeias. Segui a sua marcha; tomai-a desde a era cristã e observai-a: vê-la-eis cada vez mais dominante, mas ela não gastou toda a sua força; conservou-a para tempos mais oportunos e aproxima-se a época em que a vai desenvolver por sua vez. Aliás, a geração que se ergue traz em seus flancos a mudança que nos é anunciada desde muito tempo, e a mulher atual quer ter, na sociedade, um lugar igual ao do homem.

     Observai bem; olhai nos interiores, e vede quanto a mulher tende a libertar-se do jugo; Ela reina como senhora, por vezes déspota. Vós a tivestes muito tempo vergada; ela se reergue, como uma mola comprimida que se distende, porque começa a compreender que é chegada a sua hora.

     Pobres homens! se refletísseis que os Espíritos não têm sexo; que o que hoje é homem pode ser mulher amanhã: que escolhem indiferentemente, e por vezes de preferência, o sexo feminino, antes vos deveríeis regozijar que vos afligir com a emancipação da mulher, e admiti-la no banquete da inteligência, abrindo-lhe todas as grandes portas da ciência,  porque ela tem concepções mais finas, mais suaves, contatos mais delicados que os do homem. Porque a mulher não seria médica? Não é chamada naturalmente a dar cuidados aos doentes? e não os daria com mais inteligência, se tivesse os conhecimentos necessários? Não há casos em que, quando se trata de pessoas de seu sexo, seria preferível uma médica? Quantas mulheres não têm dado provas de sua aptidão para certas ciências? da finura de seu tato em certos negócios? Por que, então, os homens reservariam para si o monopólio, senão por medo de as ver ganhar superioridade? Sem falar das profissões especiais, a primeira profissão da mulher não é a de mãe de família? Ora, a mãe instruída é mais adequada para dirigir a instrução e a educação de seus filhos; ao mesmo tempo em que alimenta o corpo, pode desenvolver o coração e o espírito. A primeira infância, é necessariamente confiada aos cuidados da mulher; se esta for instruída, a regeneração social terá dado um passo imenso, e é o que será feito.

     A igualdade do homem e da mulher teria ainda outro resultado. Ser senhor, ser forte é muito bom. Mas é, também, assumir uma grande responsabilidade. Partilhando o fardo dos negócios da família com uma companheira capaz, esclarecida, naturalmente devotada aos interesses comuns, o homem alivia a sua carga e diminui sua responsabilidade, ao passo que a mulher, estando sob tutela e, por isto mesmo, num estado de submissão forçada, não tem voz no capítulo senão quando o homem condescender em lha dar.

     Diz-se que as mulheres são muito faladoras e frívolas. Mas, de quem a falta, senão dos homens que lhes não permitem a reflexão? Dai-lhes o alimento do espírito, e elas falarão menos; meditarão e refletirão. Acusai-as de frivolidade? Mas o que é que têm a fazer? - Falo sobretudo da mulher do mundo - Nada, absolutamente. Em que pode ela ocupar-se? se refletir e transcrever seus pensamentos, tratam-na ironicamente de sabichonas. Se cultivar as ciências ou as artes, seus trabalhos não são considerados, salvo raríssimas exceções e, contudo, como o homem, ela necessita de estímulo. Lisonjear um artista é dar-lhe tom e coragem; mas para a mulher, isto realmente não vale a pena! Então lhes resta o domínio da frivolidade, no qual se podem estimular entre si.

     Que o homem destrua as barreiras que seu amor-próprio opõe à emancipação da mulher e em breve vê-la-á tomar o seu vôo, com grande vantagem para a sociedade. A mulher - sabei-o - tem a centelha divina absolutamente como vós, porque a mulher é vós, como vós sois a mulher. (Um Espírito - R. E. 1867).

                                                                                                                                                                  PRÓXIMO