EU FAZIA RIR COM ELES

     Ao deparar-se-me ensejo de falar para aí, eu quisera dizer coisas novas e acertadas. É esta empresa difícil. Dizer coisas novas é fácil, talvez; mas, novas e acertadas, parece-me caso de mais arrojo que o que pode dispor quem passou aí a vida a fazer, ou a buscar fazer, espírito com os ridículos humanos.

     Se me lanço a fazer reflexões sérias, parece-me que irei fazer um carrego de coisas pesadas, de fardos de alfândega, para que não me sinto com forças.

     Pertenci sempre ao grupo dos leves, dos que, quando mesmo tinham motivo para levar a vida em choros e lamentos, a levavam aos frouxos de riso, às casquinadas de troça. Não digo que uma ou outra vez eu não carregasse a mão e a pintura me não saísse fresca em demasia.

     Aqui aparecia um nu sugestivo, de mancha muito escura, a desafiar a cupidez em lugar do riso; ali um sombreado mais duro, a vincar uma fraqueza, que despertava o formalismo e não a alegria franca. Por vezes, o que eu queria sátira saía chalaça, o que eu preparava chalaça saía nota pesada como um carroção de quatro rodados.

     Enganava-me no peso; mas fazia o contrário dos varejadores de gêneros; enganava-me, deitando de mais e o acepipe saía salgadito; saía mais apimentado que o legítimo vatapá baiano.

     Nem, por isso, deixava de ter amadores. Creio que até teria mais, e dos mais seletos. Ia encontrá-los nos grupos graves e circunspectos dos velhos pais nobres, que os saboreavam com delícia, às escondidas da fera conjugal e do sisudo companheiro do banco, da bolsa, da repartição, ou da prosa. E não deixava de haver também muita fera conjugal, que nos saudosos recantos da sua alcova, não piscasse os olhos encorreados ou não arejasse as gengivas viúvas de dentes, ao saborear algum pedacito onde eu, no meu esquecimento de distraído, tivesse deixado cair todo o conteúdo de um pimenteiro de legítima pimenta do reino, sem a nacionalização patriótica, feita com matérias apropriadas, a que teimam chamar falsificação.

     Assim me conheciam aí, assim me conhecem ainda; e, se eu aparecesse daqui, agora, a pregar homílias evangélicas, atiravam-se a você, seu moço, como se diz na sua terra que Santiago se atirou aos mouros.

     Não nos metamos nisso, que é perigoso. Mas compreende você que, se não devo dizer coisas sérias, por incompreensíveis em mim e por arriscadas para a integridade da sua reputação, não me será também lícito que venha dialogar pilhérias que farão rir despreocupados e comichar esquentadiços. Seria um suplício para mim, agora que, cá por coisas, não posso partilhar da festa.

     Seria o mesmo que obrigarem uma cozinheira gulosa a fazer o petisco da sua predileção com proibição formal de o provar. Ela seria capaz de lhe deixar entrar o bispo, de propósito, com grande cerimonial e festiva solenidade; e eu não sei bem o que seria capaz de fazer. Ora, se não sei o que seria capaz de fazer, o melhor é não fazer nada.

     É um gesto pouco próprio para o meu feitio e comedimento ir d’anjinho em procissão, de virgens, sem procurar dar um belisco na nádega rechonchuda que me fique mais próxima. Se não der o belisco, ninguém me conhecerá ao passar, e perderei o vistão que devo fazer na procissão notável; se dou o belisco, sou capaz de quebrar a solenidade do ato, provocar o escândalo da população que estadeia pela berma dos caminhos, para ver o cortejo circunspecto dos pregadores que você vem fazendo desfilar deste mundo.

     Parece-me que me meti em boa, quando, abelhudamente, lhe vim prometer atirar daqui notas para a sua reportagem extramundial. Precipitei-me, ao afogar o gostinho de me deixar entrevistar.

     Quando pensei em lhe falar, não expectava a maneira grave e pesada como você desempenha a sua missão. Você aí era um repórter falido, morto pelo secretário da redação todos os dias que Deus deita ao mundo. Um repórter que se preza, além de ser fura-fura, tem necessidade impreterível de pôr coisas bonitas e apropositadas nas bocas de onde saem, muitas vezes, misturadas com gafanhotos, asneiras maiores que o Pão d’Açúcar. Agrada assim na redação, a que leva papinha feita; ao entrevistado, a quem veste ricamente o que ele dá envolto em andrajos sujos; ao público, que se delicia com peças literárias de efeito, abrindo a boca em grande ahs! como quando se vê rebentar, no escuro da noite e lá no alto, os foguetões multicores.

     Esperava eu que você me dissesse:

     - Como está, passou bem?

     - Eu bem, muito obrigado. E o senhor, como passa?

     - Bem, agradecido. Como vai isso por aí?

     - Ah! por aqui vai muito bem. Não se fuma, não se come, não se bebe, não... não se faz mais nada. É um mundo leal. Não há aqui jornalistas...

     - ?!...

     - Ah, desculpe. Esquecia-me de você. É tal a praga que até chega já a esta mansão de justos, vindo lançar aqui a perturbação... a desordem...

     - ?!!...

     - Desculpe, desculpe. É que estou a lembrar-me do que é isso lá por baixo e começo a recear se com a invenção dos aeroplanos e com a coscuvilhice dos homens dos jornais, nós perderemos o nosso rico sossego e teremos, em breve, de estabelecer defesa heróica contra uma invasão de gafanhotos de tela e aço, de extremo caudal a fazer pu-pu, cavalgados por sujeitos atrevidos, de pena em riste e tiras de papel na mão, para nos desalojar desta doce quietude em que aqui vivemos.

     - Então, S. Sa. está aqui em doce quietude?

     - Não, homem, não estamos, diria eu, arrependido daquela rajada de franqueza, com que iria despertar a gulosa curiosidade terrena. Nós aqui trabalhamos conforme o nosso mister. A queda, que daí trouxe, não me serve muito para aqui. Nestes mundos não se representam comédias. Se há representações, são de tragédias, meu amigo, são de tragédias. E, olhe, quer você ver uma coisa que passa fora de todas as regras dramáticas conhecidas lá na Terra por onde canta o sabiá?

     É que os que melhor representavam lá a comédia e a farsa da vida são os que melhores trágicos dão aqui, agora. Lá passavam o tempo a ser comediantes, intriguistas, com seus traços de cínicos e de perversos; aqui, pai do céu! representam  o dramalhão pesado, de berros e de lágrimas, de rangedela de dentes e de maldições, como se toda a vida tivessem sido discípulos de Noveli. Eu, por mim, pateio-os agora furiosamente. Lá ainda me serviam para modelo. Eram sempre mina inesgotável para comédias, para farsas, para contos, para crônicas. Faziam rir e eu fazia rir com eles; mas, aqui, almas de chicharro, não me servem para nada.

     - Mas...

     - Espere um pouco, tenha paciência.

     E sabe você quem são hoje esses trágicos da minha particularíssima embirração! Não sei se de pejo como o conte! São... Ora, eu sempre digo. São, em grande parte, dos meus leitores amenos, são dos espectadores que mais se deliciaram com as pilhérias vatapaianas das minhas peças.

     - Mas isso é uma ingratidão!... - objetaria você.

     Tem razão, tem. Eu antes quisera aplaudi-los. Mas é que as circunstâncias não são semelhantes. Eu lá fazia-os rir; eles, aqui, me fazem chorar. Dão-me marmelo cru a comer. Empanzinam-me, como se um preto da Saúde me desse uma marrada clássica no apêndice xifóideo.

     - E porque é que, tendo eles passado a vida aqui, na Terra, a rir e a representar farsa, vão para aí chorar e representar tragédias?

     - Ora, o cavalheiro não é lido em boa literatura... Pela mesma razão que a cigarra levou o verão a cantar...

     - E tinha que dançar com fome, no inverno, segundo La Fontaine, não é verdade?

     - Ah! mil perdões. Vejo que também sabe... Pois os sobreditos cavalheiros passaram aí a gozar os melhores bocados, as melhores mulheres, as melhores situações, sem se preocuparem em coisa alguma com isto daqui. Riam constantemente e, se viam alguém chorar, ou protestar com fome ou com dores, afastavam-no com o bico da bota lustrada, para não os enojar, se é que, para não sujarem o verniz que cobria o seu feliz pé, não mandavam um capanga afastá-lo menos delicadamente. Lá, no seu mundo, pensavam só em triunfar. Não escrupulizavam meios. Viam mulher boa? Seguia-se na caça até cair. Depois, à margem, e passagem a outra, mês dames. E se era esposa de amigo? Era uma delícia! Havia dinheiro nas mãos alheias, faziam-lhe cerco, até a terem no papo. Tlim, papo, como disse a seu patrício e agora meu sisudo companheiro João de Deus. Os meios não importavam. Havia prebenda, negócio, coisa boa? Cantavam sempre em ladainha: - Venha a nós! Não queriam saber se feriam direitos ou feriam corações; se esmagavam almas ou esmagavam reputações. O que queriam era chegar ao seu fim. Não importava que corressem por cima de vidas alheias, por sobre as consciências próprias, por sobre a honra de mulheres ou dos amigos, por sobre o pão dos órfãos, por cima das misérias dos pobres... Não deixava de ser até interessante, e por vezes estimulador, subir e gozar, através de maldições e de choros; provocar dores sem lenitivos, desprezar sentimentos bons, troçar das piedades e das ingenuidades alheias... A audácia ajudava os atrevidos e os atrevidos eram os falhos de honestidade, os falidos de caráter, os destituídos de bondade. Não se importavam de Deus, cuidando sempre suborná-lo no fim, como aí subornavam consciências venais, ou comprovam mulheres ambiciosas e amigas do luxo. Era coisa de mais reza menos reza, de mais missa menos missa, de mais padre menos padre. Isso, quando Deus se ia meter abelhudamente a dar-lhes rebates nas consciências relaxadas; porque para outros, Deus era espantalho só para meter medo aos tolos. Era comparsa com que não havia contar.

     - Estou a desconhecê-lo... - diria você um pouco atônito...

     - Espere, espere... É que estou agora a explicar a mim próprio o maquinismo que movia aqueles pelintras que eu via subir e engrossar, como balões de gás, lá na Terra, enquanto outros, cheios de trabalho, mourejando honesta e aflitivamente, não passavam de cepa torta, comendo a bela carne seca e o belo pirão, que para mais não dava o produto da sua honradez. E graças, quando havia. É que estou a ver como eles riam; estou a ouvir o retinir metálico das suas gargalhadas, que feriam os nossos tímpanos e os nossos sentimentos tristes, como uivos de jaguar. Estou a ver como eles tripudiavam, como sufragavam no templo do Diabo, como dançavam nos festins de Baco, como cuspiam nas chagas dos desgraçados, como cultivavam e praticavam o Mal, como só conheciam do Amor a lubricidade do bode, como só aproveitavam da Amizade o suco da exploração beneficente, como desdenhavam a Caridade, a Piedade, a Consolação.

     Tenho que rever tudo isso, Sr. jornalista; tenho que sentir tudo isso, para mais admirar a grandeza da justiça de Deus, para compreender as trágicas cenas de dor em que são hoje atores e comparsas essas multidões de cínicos, de felizes, que lá na Terra nos ofendiam com o seu impudor, nos insultavam com o seu merecimento negativo, nos atropelavam nas suas correrias doidas através da vida, na conquista, quase sempre realizada, do pomo de suas ambições, quer fosse a mulher que nós amássemos com ardor, quer o dinheiro de que carecêssemos para o nosso pão.

     - Posso dizer essas coisas lá na minha gazeta? - diria você.

     - É boa! Pois, para que as diga, é que eu lhas digo.

     - Diga-as, diga-as lá, para que esses miseráveis, que se arrastam pelas ruas com a barriga sem conforto, mas com a consciência limpa, não corram o risco de se tentar com o deslumbramento dos que trazem os seus autos a salpicá-los de lama.

     Diga, diga lá que, em regra, os que passam lá a vida numa dor permanente a verter lágrimas de sangue, mas sempre bons, é que vêm rir para aqui, onde já não é preciso pão negro que tanto custa a conseguir lá, onde o dinheiro não tem curso nem valia, onde os melhores brilhantes são aqueles em que aí cristalizam as lágrimas que se enxugaram à dor, as que se desfizeram com a caridade, as que se choraram em sacrifícios abnegados, em manifestações de consolação aos infelizes.

     Diga lá... Olhe, se lhe parecer, não diga nada. Deixe gozar quem agora goza, não vá ser o diabo que faça com que se não representem mais comédias minhas, nem se leiam mais os meus livros, com receio de que o riso seja trem mais rápido para o Inferno, que o da Central é para a morte. O riso é coisa boa para vocês. O riso, a mulher, o vinho... E estão aqui a dizer: as flores. Ora!... as flores! Das flores, as mais lindas são as rosas acetinadas das faces de uma carioca... Mas isso, meu amigo, é prazer que eu, ao presente, desdenho lá para vocês. Cá para nós! Puf! Vale como as Madonas de tela: - são para admirar. Das coisas boas que enunciei, a que é comum é o riso, o riso bom, o riso são. E esse era o que eu arrancava aos ridículos, às pretensões, à balofice dos que aí, nesse mundo davam pasto à minha troça, como agora dariam motivo às minhas lágrimas, se eu, cautelosamente, discretamente, não me afastasse de onde eles colhem, não à chucha calada, mas à chucha gritada, o fruto da larga sementeira de maldades que por aí fizeram

     Você compreenderia que a entrevista estava finda, viria para o seu jornal dizer as amabilidades da minha atenção cativante, como é do estilo, fazer elogio ao gosto artístico do gabinete em que me entrevistasse e estava acabada a história.

     Mas assim... Recebendo-me, pondo diante de mim papel, pena, e esperar que eu faça tudo, que eu dê palavras, idéias, opiniões... Nada. Pode vir uma invasão de jornalistas de todo o mundo às regiões do Mistério, que eu já me não deixo entrevistar por mais nenhum.

     Uma vez só, por não saber.  (Espírito de Arthur Azevedo* - Do País da Luz 4 - Fernando de Lacerda) 

Nota do compilador: Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855-1908), grande teatrólogo e contista brasileiro. Foi um dos iniciadores da música no teatro. Escreveu revistas, operetas, comédias e dramas.

                                                                                                        Próximo

m"> Próximo