ESPIRITISMO FILÓSOFICO

     Desnecessário dizer que o Espiritismo é monoteísta. Só aceita um Deus, eterno, imutável, onipotente, absolutamente justo e incomensuravelmente bom. Afirma a existência da alma e sua não extinção após o perecimento do corpo material - o que é concorde com o pensamento de Platão: Quando a morte se aproxima do homem, a sua parte mortal morre, mas a parte imortal segue segura e incorruptível.

     Até aí, princípios aceitos por todos os espiritualistas (espíritas, teosofistas, católicos, protestantes, judeus, maometanos etc.).

     Os espíritas, entretanto, derivando dessas premissas, vão além das concepções dos outros espiritualistas. Apoiando-se em fatos comprovados e tão-só no que de acessível à razão humana procede da Revelação Divina, de vez que, como ensina Brugger, não pertencem à filosofia, nem por conseguinte à sua história, os mistérios da revelação cristã e os seus mitos. Plena concordância com Schopenhauer: À filosofia cabe aniquilar a quimera, ordenando as idéias.

     Os cânones da Filosofia Espírita estão coligidos em O LIVRO DOS ESPÍRITOS, de Allan Kardec e constituem inestimável adjutório à conquista da Sabedoria, ainda que, segundo Lotz, o homem nunca possui plenamente a compreensão definitivamente válida de tudo o que se designa sabedoria, mas luta sempre ansiosamente por atingir esse alvo.

     Tudo emana de Deus e Sua criação é incessante e eterna. Na sua onisciência vê o futuro, porque não está adstrito às limitações do tempo e do espaço. Sendo a Perfeita Justiça, Deus não perdoa e não estabelece privilégios: age através de Suas leis, já por si sábias e justas.

     Todos os fatos têm uma causa natural, nem sempre aceita ou entendida pela precária inteligência humana. Milagre, para o espírita, é vocábulo banido dos dicionários, visto que a ocorrência de fatos preternaturais significaria a derrogação das leis divinas.

     A destinação de todas as coisas e de todas as criaturas é a Evolução - grande fatalidade da Lei Suprema.

     Deus criou os Espíritos, inocentes e ignorantes (não maus), de modo idêntico e com igual destino, proporcionando-lhes as mesmas oportunidades para alcançar a máxima perfeição e a felicidade. Concedeu-lhes o livre-arbítrio, de cujo uso depende o mérito do bem praticado e sua conseqüente recompensa; ou a responsabilidade pela prática do mal e sua obrigatória reparação, uma vez que não há predestinação para a maldade.

     O bem é tudo que se ajusta |às altas finalidades da legislação divina. Infringi-la é cometer o mal, que recai sobre quem o causa.

     O Espírito não tem sexo, que é uma contingência da vida material.

     Há o mundo visível ou corpóreo e o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos. O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, que se ostenta por toda parte, em redor de nós, como no espaço. O mundo corporal é secundário - assevera Kardec. Poderia deixar de existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a essência do mundo espírita.

     E acrescenta: - Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição lhes restitui a liberdade.

     A alma é um Espírito acobertado da indumentária carnal. Há, no ser humano, além da alma, uma substância que a prende ao corpo: é o perispírito (o corpo astral dos hermetistas) - algo como um envoltório semimaterial.

     Os Espíritos progridem por meio da encarnação, que geralmente constitui expiação, porém algumas vezes representa missão. Reencarnam os Espíritos tantas vezes quantas necessárias para o resgate de suas culpas, sempre na espécie humana, nunca no corpo de um animal, como admite a doutrina da Metempsicose. É que podem os Espíritos estacionar temporariamente, mas nunca regredir.

     A evolução continua no mundo invisível aos encarnados, habitat natural dos Espíritos que, entretanto, estão por toda parte, no espaço e ao nosso lado, exercendo ação maléfica sobre nós. Os mortos são uns invisíveis e não uns ausentes - já dizia Victor Hugo. E, sem o perceber, Augusto Comte enunciou uma sentença de caráter espírita: Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos.

     Desencarnados, os Espíritos podem comunicar-se conosco através dos médiuns ou espontaneamente, por meio de aparições, sonhos e intuições. Neste particular, S. Tomás de Aquino não diverge do Espiritismo: ... os fatos dos vivos podem ser conhecidos, não por meio deles mesmos, mas pelas almas dos que vão deste mundo para o outro, ou pelos anjos, ou pelos demônios, ainda pela revelação do Espírito de Deus, como diz Agostinho. (Cf. Suma Teológica - Q. 89, Art. VIII).

     O Livro dos Espíritos surgiu precisamente em virtude das comunicações dos Espíritos, que indicaram a Kardec o roteiro seguro da Codificação.

     Se não é tudo que integra a Filosofia Espírita, foi o máximo que pudemos condensar no espaço restrito de que nos servimos. (Aureliano Alves Netto - Revista Presença Espírita jul/ago/1997 - www.mansaodocaminho.com.br.)   

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