O
FENÔMENO DE PREVORST

Nota do compilador: Dr. Kerner comenta
sobre como era a Vidente de Prevorst. Segundo a Doutrina Espírita, nos estudos
relativos à Mediunidade levados a efeito por Kardec e posteriormente por outros
estudiosos, a Vidente mantinhas-se prostrada o tempo todo justamente por não
ter o entendimento de como lidar com a sua Mediunidade. Hoje, seguramente, um
médium nas circunstâncias dela, pode levar a vida normalmente, desde que saiba
o porquê e de como atuar no seu cotidiano.
Muito tempo antes do começo do meu
tratamento, a Sra. Hauffe era de tal forma sonâmbula, que ficamos convencidos
de que o seu período de vigília era aparente. Não há dúvida de que ela
estava então mais bem acordada que os que a rodeavam, porque aquele estado,
ainda que o não considerem assim, era o da mais perfeita vigília. Nele
não possuía ela força orgânica e dependia completamente dos outros, dos
quais recebia a força pelos olhos e pela extremidade dos dedos. Dizia ela que
extraía a vida do ar e das emanações nervosas alheias, sem que os outros nada
perdessem. Não obstante, afirmam certas pessoas que se sentiam fracas quando
ficavam muito tempo perto dela; experimentavam contrações, tremores,
sensação de fraqueza nos olhos, na cavidade epigástrica, que ia até ao
delíquio. Ela declarava, aliás, que era nos olhos dos homens vigorosos que
hauria forças. Recebia mais por parte de parentes que de estranhos, e quando
estava inteiramente enfraquecida era
naqueles que encontrava alívio. A vizinhança dos fracos e doentes
debilitava-a como as flores que perdessem sua beleza e perecessem nas mesmas
circunstâncias. Sustentava-se à custa do ar e mesmo nos grandes frios não
podia viver sem uma janela aberta.
Era sensível a quaisquer emanações
fluídicas, do que não duvidamos, principalmente das provenientes de metais,
plantas, homens e animais. As substâncias imponderáveis, tanto quanto as
diferentes cores do prisma, produziam-lhe efeitos sensíveis. Sentia
influências elétricas de que não temos a menor consciência. E o que é quase
incrível, possuía a noção do sobrenatural ou o conhecimento por inspiração
do que um homem houvesse escrito.
Seus olhos brilhavam como um luar espiritual que impressionava
imediatamente os que a viam, e em tal estado, era mais um espírito que um
habitante deste mundo mortal.
Se quiséssemos compará-la a um ser
humano, diríamos que ela estaria nas condições dos que flutuando entre a vida
e a morte, mais pertencem ao mundo que vão visitar do que ao mundo que estão
por deixar.
Não se trata apenas de uma figura
poética, senão da expressão de um fato. Sabemos que no momento da morte os
homens têm muitas vezes reflexos do outro mundo e o provam. Vemos que um
Espírito deixa incompletamente o corpo antes de destacado definitivamente do
invólucro terrestre. Se pudéssemos manter durante anos uma pessoa em estado de
morte iminente, obteríamos a imagem fiel do estado da Sra. Hauffe. Não é
simples suposição, mas a verdade exata.
Ela achava-se muitas vezes nesse estado em
que se tem a faculdade de ver Espíritos, perceber o Espírito fora do corpo,
como se ele estivesse envolto em ligeira gaze. E via-se desdobrada. Dizia
então:
“- Parece que saio de meu corpo e plano
acima dele, e faço reflexões sobre ele. Não me traz isto agradáveis
pensamentos, pois reconheço que o corpo é meu.
Se minha alma estivesse mais estreitamente
ligada à força vital, esta ficaria em união mais íntima com os meus nervos;
mas os laços que retêm minha força vital afrouxam-se cada vez mais.”
Parecia de fato que a força vital estava
tão debilmente retida pelo sistema nervoso, que o menor movimento bastaria para
pô-la em liberdade. Via-se ela então fora do corpo e este perdia toda a
noção de peso.
A Sra. Hauffe não recebeu instrução nem
notas de habilitação. Não conhecia Línguas, História, Geografia, História
Natural, não possuía as noções comuns de seu sexo. Durante longos anos de
sofrimento, a Bíblia e o Livro dos Salmos eram o seu único estudo.
Incontestável a sua moralidade; piedosa sem hipocrisia; considerava seus longos
sofrimentos e estranhas condições como um desígnio de Deus, e exprimia em
poesia os seus sentimentos.
Como costumo escrever versos, logo disseram
que era eu que lhe comunicava essa faculdade por minha força magnética; ela
porém já falava em verso antes de eu conhecê-la e não é sem razão que
chamaram Apolo o deus dos médicos, dos poetas e dos profetas. O sonambulismo
dá faculdade de profetizar, de curar, de compor poesia. Os antigos fizeram uma
justa idéia do sonambulismo e nós o envolvemos em todos os mistérios. Galeno,
o grande médico, teve mais êxitos com os sonhos do que com toda a sua ciência
médica. Conheço uma camponesa que não sabe escrever, mas que em estado
sonambúlico se exprime em verso.
Os erros que o mundo espalhou à conta da
Sra. Hauffe são inconcebíveis: nunca vi mais sonora prova do pendor para a
calúnia que nesta circunstância. Ela gostava de dizer:
“- Eles têm poder sobre meu corpo, nunca
porém sobre meu Espírito.” Entretanto, o maior número de pessoas que, por
curiosidade, lhe rodeavam o leito, causavam-lhe grandes aborrecimentos. Recebia
a todos graciosamente, posto que a fadiga que provocavam lhe ocasionasse muitos
sofrimentos; e defendia os que mais a caluniavam. Recebia bem os bons e os maus.
Percebia as más intenções, porém não as julgava. Muitos pecadores
incrédulos que vinham vê-la emendavam-se e foram levados a crer na vida
futura.
Muitos anos antes de ter sido confiada a
meus cuidados, a terra, o ar, tudo o que aí respira, sem excetuar a espécie
humana, não existia para ela. Aspirava a muito mais do que lhe podiam dar os
mortais; queria outros céus, outros alimentos, outra atmosfera que o planeta
não lhe podia oferecer. Vivia quase em estado de Espírito e já pertencia ao
mundo dos Espíritos. Fazia parte do Além e já estava meio morta.
É extremamente provável que fosse
possível, nos primeiros anos de sua doença, por um tratamento hábil, pô-la
em um estado que lhe permitisse viver
nas condições ordinárias do mundo; mas já no último período era
impossível. Entretanto, graças aos nossos cuidados, conseguimos para ela tal
melhora que, a despeito dos esforços para envenenar-lhe a existência, ela
considerou os anos passados em Weinsberg como os menos penosos de sua vida
sonambúlica.
Como dissemos, seu corpo frágil envolvia
um Espírito como um véu de gazes. Era pequena; seus traços lembravam o
Oriente; tinha os olhos penetrantes e proféticos e a expressão avivada por
longos cílios pretos. Flor delicada, vivia dos raios do Sol.
Eschenmayer diz a seu respeito nos
Mistérios: “Suas disposições naturais eram doces, amáveis, sérias.
Sentia-se sempre conduzida para a contemplação e para a prece. Havia algo de
espiritual na expressão dos olhos, sempre claros e brilhantes, apesar do
sofrimento; de grande mobilidade durante a conversa, tornavam-se subitamente
fixos; e via-se por este sinal, que ela estava em presença de uma de suas
estranhas aparições. Em tais condições proferia palavras rápidas.
“Quando a vi pela primeira vez, sua vida
física não prometia longa duração, e ela abandonara a esperança de
alcançar um estado que a pudesse manter no mundo.
“Embora nenhuma função estivesse
alterada, sua vida era uma tocha que se extinguia, uma presa entre as garras da
morte e sua alma só se ligava ao corpo pelo poder magnético.
“Nela, alma e espírito pareciam em
constante oposição, de tal sorte que a primeira se conservava ligada ao corpo,
enquanto o segundo desprendia as asas e voava a outras regiões.” (Dr.
Justinus Kerner – Obra: A Vidente de Prevorst).