FORÇA DE VONTADE                

     Amenhotep! - exclamou Rameri, agarrando a mão do mago. - Você é um sábio, um “iniciado”, diga-me o que significa todo esse caos de religiões pelo qual nós estamos passando! Osíris, no transcorrer de séculos um poderoso protetor da terra de Khemi, já não é mais o deus dos egípcios, seu templo se perdeu no meio de grandes edificações, erigidas em honra de  Júpiter,  Vênus,  Apolo,  Serápis e outras divindades  que  nada  me dizem. Depois! Os mesmos magníficos deuses são desprezados e rejeitados pelos cristãos, que veneram um pobre artesão crucificado, adorado como encarnação da divindade na Terra, Salvador do mundo, vindo a morrer por sua fé em sofrimentos horríveis com sorriso nos lábios!     

     Diga-me, será possível que Deus possa descer à Terra e tornar-se um simples mortal? Será que para a Sua glória é-Lhe necessária a terrificante morte de Seus fiéis? Suplico-lhe, explique-me onde está a verdade? Quem está certo? O deus de quem é verdadeiro?

     Amenhotep ouvia-o pensativamente com os cotovelos recostados sobre a mesa. Quando Rameri se calou, o mago fitou nele o olhar penetrante e sábio, aprumou-se e disse:

     - Todos estão certos! Todos veneram a um único Deus, só que com nomes diferentes, pois Deus está em tudo. Deus é o grandioso sopro primevo da vida, que lembra e anima a tudo.

     Na extremidade da mesa de trabalho havia uma grande tina de madeira em que crescia um arbusto coberto de flores azuis que exalavam um forte aroma agradável.

     Rameri já havia visto o mesmo tipo de planta no gabinete do mago em Mênfis e a considerava mágica.

     Amenhotep inclinou-se, quebrou um ramo com flores e estendendo-o ao escultor, disse:

     - Veja! Deus se revela em sua obra em todos os lugares. Esta flor, animada com o sopro divino, criada por calor divino, insere o grande princípio da perfeição decorada com a beleza imorredoura e o seu aroma agradável é o sopro da Divindade.

     Amenhotep aproximou de si a folha de papiro e sacudiu sobre ela o ramo. Sobre o papiro caiu um inseto, verde como uma esmeralda, envolto numa espécie de pólen.

     - Olhe agora para o segundo representante da infinita perfeição da arte do Grande Criador. Ele já é um degrau mais alto e você vai se convencer disso.

     Colocando o ramo na beira do papiro, Amenhotep prosseguiu:

     - Eu pego o ramo e paro o movimento do inseto. Veja, ele caiu e está imóvel como se estivesse morto; agora ele sobe, se arrasta pela haste e se dirige diretamente ao cálice de onde eu o sacudi. Você entende que esta pequena criatura já é dotada da grande e misteriosa energia da alma, cuja força de vontade a dirige justamente ao objetivo desejado. Isto é um protótipo de homem, que sucumbe diante das provações, levanta-se, veste-se em outro corpo e novamente arrasta-se pela haste de suas paixões. Vencendo os obstáculos, ele segue em direção da perfeição que é o seu objetivo - o cálice radiante onde habita o Criador do Universo. Deus lhe aparece em tudo! Ele se manifesta no azul do céu, no bramir das ondas, no canto dos pássaros, nos estrondos da tempestade, no brilho devastador do relâmpago e nos raios vivificantes do Sol. Em todos os lugares, repito, se revela o Criador do Universo. Os infinitos mundos que você contempla na escuridão da noite - são uma obra de sua força. Ele os obriga a girar em ordem tão perfeita, que jamais eles colidem, nunca é quebrada a harmonia de seus movimentos e com antecedência de séculos inteiros é possível calcular a sua trajetória. Você não sabe e não consegue entender que a Terra, que o carrega e que lhe parece tão transparente, gira num vazio incomensurável, mantida em seu caminho apenas pela força da vontade do Criador. E você sabe o que significa essa  força  que  se  espreita em  cada criatura divina? Cegos de paixão e da carne, os homens não se dão conta da terrível energia, do gigante adormecido que vegeta neles. A força de vontade, Rameri, é uma partícula da própria Divindade, livre de tudo que é material. Quando ela abre as suas poderosas asas, não há limite para o seu vôo e tudo se submete à sua vontade. A força de vontade é a chave de todos os segredos, que abre todas as portas ao “escolhido”, o qual “tem o querer”! Ela lhe abre os mistérios, faz submeter-lhe  os  princípios  cósmicos  e  lhe  ensina  a  governá-los  no  grandioso laboratório do Criador, o qual   não é cioso nem avaro e cede em seus infinitos domínios o lugar para seus discípulos autênticos. O imenso conhecimento não é nada, se ele não for governado e dirigido pela força de vontade! (Espírito de Rochester - W. Krijanowskaia - As Duas Esfinges).

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