INTELECTO
HUMANO
Não sei que possa dizer para o teu livro. Teu, não, nosso, devo antes dizer com mais propriedade. É tão vasto o campo em que nos encontramos, há tanto para dizermos à Terra, que me sinto embaraçado na escolha.
Há ainda uma restrição a que tenho que atender; a de que aquilo que nós possamos dizer não agrada à maioria dos habitantes do globo terráqueo, e aquilo que a essa maioria agradará, não sabemos ou não podemos dizer.
Ao homem só há duas ordens de assuntos que o podem interessar: - o que satisfaz à sua curiosidade de saber e de perscrutar o desconhecido, ou o que possa lisonjear a sua vaidade ou as suas inclinações viciosas, ou materiais.
Tudo quanto saia destes dois campos é para ele metafísico ou desagradável.
Ora, o muito que há a dizer, não satisfaz a nenhum destes dois casos.
Eu não posso fazer um arremedo de história de além-terra, como fiz do que presumi haver-se passado aí, e a que pomposamente dei o título de Universal.
Veda-mo, em primeiro lugar, a vontade de Deus, e, quando ela mo não vedasse, vedava-mo a grandeza infinita do assunto, comparada à minha imaginação finita e limitada.
Depois, os fatos e os acontecimentos aqui, obedecendo a uma lei geral imutável e eterna, não podem ser compreendidos aí na Terra, facilmente.
O intelecto humano é tão infinitamente mesquinho, e é tão paupérrimo de conhecimentos, pontos de comparação, meios de análise e formas de apreciação, que não chegaria a compreender as coisas mais rudimentares e simples, que se lhe pudessem dizer.
Tão mesquinho é ele que desde todos os tempos, e em todas as línguas e dialetos, se lhe vem dizendo que a morte não é a extinção da criatura, que é simplesmente a passagem para outra região, ou para outro estado, e o homem persiste em não compreender.Creio que o homem não tem culpa deste fato. É ele um daqueles que estão regulados no Universo, independentemente do saber e do querer humano.
Não há, creio que dificilmente terá havido, na Terra, quem tenha tido a certeza consciente, absoluta, sem uma dúvida e sem um desfalecimento, de que a vida se prolongue além do pobre e pequeno globo onde existe; e, entretanto, desde que a Terra é povoada, que as gerações se sucedem às gerações, na transformação permanente pelas reencarnações. Se, pois, o homem não conserva recordação viva das suas vidas anteriores e dos seus estádios nos mundos mais atrasados do que a Terra, é porque está superiormente determinado que haja amnésia completa sobre a situação pregressa, para poder dar o vago, o insondável, para a situação futuro.
O mais que Deus permite às suas criaturas que estejam mais avançadas e mais próximas à emigração definitiva desse mundo, é o terem, por vezes, vagas e longínquas recordações de fatos, situações, pessoas e localidades, que surgem nos cérebros demasiadamente sensíveis, como coisa real e certa, sem ser possível, de modo algum, definir e precisar essa certeza, nem onde e como aqueles acidentes se deram.
Concomitante e correlativamente permite ainda que as mesmas criaturas possam perscrutar, com segurança, o mistério que envolve a sua razão de ser terrena, e a possível evolução futura do seu ser eterno e perfectível.
Sentem sempre, essas pessoas, que se encontram entre duas situações que não sabem definir. Que no seu passado há qualquer coisa que a sua recordação não aclara, é para eles indubitável; que no seu futuro há também coisa que a sua inteligência não prevê com segurança, é também razão assente; agora o que constitui os pólos de que ele é o centro de gravidade, é que lhe não é dado conhecer.
E os que chegam a esta altura de presciência são já aqueles que se encontram nas derradeiras evoluções terrenas; porque os outros, em que a animalidade predomina sobre a espiritualidade, não atingiram ainda a sensibilidade cerebral, que contenha gravadas memórias anteriores, nem onde se possam refletir projeções futuras.
Para estes só seria agradável que se lhes dissessem coisas que os libertassem do receio, que a dúvida contagiosa lhes possa lançar no espírito, turbando-lhes a passividade animal do seu ser, ou fazendo-os possivelmente recuar nos seus gozos de feras domesticadas pelas convenções e pelo medo.
Aceitariam de bom grado as nossas comunicações, senão como nossas, pelo menos como doutrinas boas de quem terreamente lhas apresentasse, se fossem incitamento à gula, à luxúria, ou à dominação.
Tudo que tendesse ou tenda a dar-lhes argumentos para que o seu egoísmo possa supor provar a grandeza e infalibilidade do ser humano, tudo será aproveitável.
Inventem as mais diversas teorias, que, por mais estranhas e inconcebíveis que sejam, desde que tenham a dar foros de grandeza à sua personalidade presente, serão facilmente aceites e acreditáveis.
Digam-se as coisas mais lógicas, por mais indiscutíveis, por mais antigas e boas que pareçam, que serão recusadas sem discussão e sem remorso, se tenderem a convencê-lo de que a vida presente é, numa simples passagem entre dois estados espirituais desconhecidos, uma paragem momentânea para aperfeiçoamento na eterna vida da alma.
Podem citar-se fatos; pode argumentar-se com os livros sagrados, com a tradição histórica, com a tradição poética, com a tradição popular; pode demonstrar-se com o estudo e a análise científica mais rigorosa, com os casos mais estupendos e incontestáveis, que o ser humano não se limita nem circunscreve ao corpo putrescível e à vida efêmera de cada geração, que tudo isso não convence esse mesmo ser da sua grandeza e imortalidade.
É por modéstia, porque se sinta pequeno, indigno de tão grande felicidade e poder? Não. É por egoísmo.
Para reconhecer para si aquela situação privilegiada no meio da criação, tinha que aceitar a correção necessária. Era indispensável que perscrutasse claramente o seu destino e a razão da sua estada na Terra. Tarde ou cedo havia de chegar a conhecer a determinante da sua vida; e havia de ver que se tudo no Universo está sabiamente regulado, e se tudo tem leis e fins a que obedecer, ele, o ser humano, a coisa perfectível e evolucionista por excelência, havia de estar, necessariamente, ligado também a essas leis e de obedecer a causas fatais e determinativas.
Desde que o homem conhecesse esse fato, estava à beira de reconhecer e regular essas leis.
É isto, precisamente, o que lhe não convém. Estabeleceriam elas rigores incompatíveis com a vida livre, selvagem, tanto do agrado humano. Viriam demonstrar que os sentimentos que imperam no cérebro do homem, e que constituem a base das civilizações, são o egoísmo, o orgulho e engrandecimento individual; a luta ferina pelas comodidades e satisfações materiais; enfim, tudo que represente o desenvolvimento do bem-estar terreno, da animalidade do ser humano.
Ora, esse bem-estar é, senão inteiramente, pelo menos muito incompatível com o engrandecimento e aperfeiçoamento espiritual. (Espírito de Cezar Cantu (3/12/1906) - Obra: Do País da Luz - Fernando Lacerda)