LONGEVIDADE DOS PATRIARCAS

     Que vos importa a idade dos patriarcas em geral, e a de Matusalém em particular? Assim, sabei-o bem, a natureza jamais tem tido contra-senso e irregularidades; e se a máquina humana alguma vez variou, jamais repeliu por tanto tempo a destruição material: a morte. Como já vos disse, a Bíblia é um magnífico poema oriental, onde as paixões humanas são divinizadas, como as paixões que os gregos idealizavam, como as grandes colônias da Ásia Menor. Não há razão para casar a concisão com a ênfase, a clareza com a difusão, a frieza do raciocínio e da lógica moderna com a exaltação oriental. Os querubins da Bíblia tinham seis asas, como sabeis: quase monstros! O Deus dos judeus banhava-se em sangue; sabeis e quereis que vossos anjos sejam os mesmos anjos e que o vosso Deus, soberanamente bom e soberanamente justo, seja o mesmo Deus? Não alieis, pois, vossa análise poética moderna com a poesia mentirosa dos antigos judeus ou pagãos. A idade dos patriarcas é uma figura moral e não uma realidade; a autoridade, a lembrança desses grandes nomes, desses verdadeiros pastores de povos, enriquecidas de mistérios e de lendas, que fizeram irradiar em torno deles, existiam entre esses nômades supersticiosos e idólatras das lembranças. É provável que Matusalém tenha vivido muito tempo no coração de seus descendentes. Notai que na poesia oriental toda idéia moral é incorporada, encarnada, revestida de uma forma brilhante, radiante, esplêndida, contrariamente à poesia moderna, que desencarna, que quebra o envoltório, para deixar escapar a idéia até o céu. A poesia moderna não só é expressa pelo brilho e a cor da imagem, mas também pelo desenho firme e correto da lógica, numa palavra, pela idéia. Como quereis aliar esses dois grandes princípios tão contrários? Quando ledes a Bíblia aos raios do Oriente, em meio às imagens douradas, aos horizontes intermináveis e difusos dos desertos, das estepes, fazei correr a eternidade, que atravessa todos os abismos, todas as trevas; isto é, servi-vos da razão e julgai sempre a diferença do tempo, das formas e das compreensões.  (Espírito de Lamennais - R. E. 1863).

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