A MAIOR BATALHA - TERCEIRA PARTE

     Quem ousa dizer que o Criador é o Rei dos exércitos, profere uma grave blasfêmia    

     Ele condena cabalmente o homicídio, singular ou coletivo, do Decálogo, de cuja procedência celeste não é lícito duvidar-se. O Onipotente deseja a concórdia e não as dissensões mortíferas; aspira a hastear em todos os orbes - como Arcas santas após o dilúvio das iniqüidades - o ramo de oliveira, no estandarte níveo da Paz, e não empunhar o archote rubro das pugnas assassinas; quer a solidariedade universal e não as seleções de raças, prejudiciais à unificação dos povos; quer irmanar todos os homens e não alimentar em seus corações mútuos sentimentos ultrizes.

     As hostilidades bélicas infringem suas Leis de amor, equidade e perdão. A espada é, para Deus, um punhal fratricida que os códigos sociais tornaram legal, e, portanto, sobre ela não pode incidir sua bênção luminosa. Quem quebrar o equilíbrio e a harmonia que devem existir entre as nações, nunca será para Ele um herói, mas um bárbaro, um corsário ou um precito!25

     Sobre ele recai todo o peso formidável das responsabilidades tremendas de uma luta mortífera. Poderá ser vencedor, cingido pelos lauréis corrosivos do mundo, - que lhe constringirão a fronte como as serpes à cabeça de Medusa26 - mas seu Espírito tornar-se-á denegrido, como que carbonizado; para se tornar novamente da cor lirial, são precisos milênios de ríspidas provas, oceanos de lágrimas... O agressor arca com todas as conseqüências funestas de uma liça inumana. Só a defesa dirime o delito da guerra, é justificável e permitida pelo Direito sideral, porque a criatura humana não possui, na Terra, maior tesouro que a própria vida, e deve conservá-lo intacto até que o Criador, que lho concedeu, o reclame, não para sonegá-lo, mas para o ampliar no Além, a verdadeira pátria do Espírito, onde ela se intensificará, desdobrar-se-á, como radiosa e imensa espiral, que começa nos planetas sombrios e termina nos páramos acogulados de sóis!27

     A tragédia horrífica, que ora se desenrola no cenário do Velho Continente - a qual, como polvo gigantesco, estenderá seus tentáculos através dos pegos, até os cravar nas plagas colombinas - não é o produto de um único ser, mas da imperfeição humana, e - com pesar o digo - é punição coletiva que servirá de corretivo a muitos infratores dos Códigos social e divino. É lição dolorosa que o homem aprende com os olhos embrumados de lágrimas, e não olvidará jamais...

     Há na Guerra - dragão de Lerna,28 voraz e fero, que só se ceva com sangue, cujas cabeças decepadas renascem incessantemente, há milênios - às vezes, uma utilidade pungente; unifica os povos e as nações, congrega filhos daquém e dalém mar, estanca estéreis dissensões políticas e religiosas, termina divergências partidárias de crenças e de castas, torna os indivíduos, nascidos sob céus diversos, irmãos nos campos de batalhas renhidas, todos absorvidos pelo mesmo objetivo, pelo mesmo desejo, enobrecidos pela bravura, pelo estoicismo, expondo dignamente a vida em socorro da família, da Pátria, dos seus dirigentes, ameaçados por cruéis adversários.

     Só a defesa de uma causa justa e nobre dignifica o crime dos que se digladiam ceifando existências úteis; é um inconcusso direito humano, ao passo que a hostilidade e a agressão, fundadas na cobiça ou no ódio, embrutecem os beligerantes, tornando-os chacais ou panteras. Quem desafia e provoca é delinqüente ou bandido; quem se defende, vítima ou herói.

     Essa carnificina que, qual incêndio sem chamas, devasta os países, é conseqüência desastrosa da corrupção da Humanidade; é como borrasca, tanto mais violenta quanto mais condensadas estão as nuvens de vapores, impurezas e eletricidade... As criaturas humanas descambaram para o ateísmo, para a dissolução da família, para a frivolidade, para o cepticismo, deixando correr a existência entre prazeres materiais nos alcouces,29 nos cassinos, nos clubes suspeitos e, sem ideal, sem Deus, sem sentimentos nobilitantes, marchando para a voragem da decadência moral, para o cataclismo das iniqüidades permitidas pela civilização hodierna... A grande luta surpreendeu-as nas proximidades do abismo, fê-las recuar espavoridas, ouvindo o ribombar da procela iminente, e, unânimes, congraçaram-se, vincularam-se às que nasceram além de suas fronteiras, para, de mãos dadas, culminar o almejado desiderato - a vitória da justiça, do direito dos povos, a defesa dos territórios assaltados. Ei-las, por algum tempo, confraternizadas para a consecução de uma causa grandiosa e comum. Foram a Dor e o perigo que conseguiram esse prodígio que, no futuro, será operado unicamente pelo Amor, quando todos compreenderem que, nascer aquém ou além de um mar, de uma serrania, de um lago ou de um rio, não é deixar de ser filho do mesmo magnânimo Progenitor, que criou o ente humano para elevados fins, com atributos psíquicos maravilhosos, e fê-lo herdeiro de suas inúmeras moradas luminosas, seus reinos radiosos, seus domínios siderais...

     Duas borboletas, por serem uma jalde e outra rubra, deixam de ser gracioso inseto? Duas rosas, por serem de rubim uma e outra áurea, deixam de ter pétalas, fragrâncias? de ser a soberana das flores? Não. Pois assim, o homem. A raça a que pertence pode apresentar características distintas, epiderme diversamente coloridas; um nascer na Sibéria, outro no Congo, mas há um liame a prendê-los mutuamente - a alma, a cintila divina, como asa e aroma que identificam as falenas e as rosas. Hoje estão os homens selecionados pelas convenções sociais, pela distância geográfica; mais tarde serão eternos consócios, irmãos estremecidos, tendo o mesmo destino grandioso, o mesmo Jardim celeste - o Universo!

     Quando compreenderem essa verdade sublime, deixarão de pugnar pela aquisição de terras, do lodo onde se corrompem os seus despojos materiais - estes lastros putrescíveis que a alma, liberta dos flagícios30 planetários, alija ao fundo dos sepulcros para se librar aos páramos estrelados...

     Que vale à estulta vaidade de um monarca possuir infindos latifúndios, se a Morte apenas lhe concede, transitoriamente, sete palmos de terra para a decomposição dos tecidos?

     Um conquistador pode usurpar territórios vastíssimos, encarcerar corpos carnais, fraturar ossos, trucida, decretar leis despóticas, abarrotar de ouro saqueado às vítimas os seus erários fabulosos, mas não pode confiscar sentimentos nobres, rapinar consciências, imperar nos espíritos livres e dignos - os aeróstatos apenas cativos por algum tempo, mas que tendem a alçar-se, não na atmosfera, mas no éter, ao próprio Infinito!

     Que vem a ser um país que os cobiçosos tanto desejam governar? Um retalho da Terra, um agregado de habitantes instáveis. Aumentando suas raias, deixará de ser a fração de um mundo, pequeno e cheio de trevas relativamente aos outros que povoam o Espaço? Não. Haverá alguém que possa conquistar um Continente ou todo o orbe para nele dominar? Jamais! Insano quem conceber esses planos hiperbólicos!

     O homem - verme anônimo enquanto rasteja nos marnéis,31 conspurca-se na vasa terrena, acorrenta-se à ambição e ao ódio; condor altaneiro quando sonha com a amplidão sidérea, quando fita os sóis - será mísero enquanto anelar destruir e hostilizar nações, escravizar irmãos, implantar o terror e a luta em seus domínios, possuir terras e ouro, e só se engrandecerá realmente quando entesourar virtudes no seu âmago, cinzelar a própria alma, atingir a Perfeição psíquica, que o torna herdeiro do Altíssimo, conquistador do Universo! Orgulhoso e estulto o que deseja arrogar-se o poderio do Criador - reinar em todo o orbe terráqueo! Ele, unicamente, foi e será o Soberano deste e de todos os mundos, aqui há de reinar em todos os corações quando soar a hora bendita da Fraternidade, porque esta romperá todos os marcos limitativos, fundirá todas as fronteiras, consumará todas as desarmonias, unirá todas as mãos, fará de todos os lares um só, de todos os países uma só nação ilimitada! Quando todos  os povos, coesos pelo pensar e por excelsos sentimentos, confederados pelas mesmas leis e pelos mesmos elevados ideais, pela mesma admiração pelo Altíssimo, emancipados dos preconceitos de raças e de hierarquias sociais fundarem a República Unitária mundial - tendo por Supremo dirigente o Sempiterno e por seus representantes os mais conspícuos e esclarecidos cidadãos - hão de laborar em comum para o embelezamento dos núcleos humanos e conforto de todas as classes; abolir os pleitos bélicos; adotar um só idioma e um único padrão monetário com o mesmo valor intercambial em todos os países; cultuar as Artes liberais, as Ciências exatas, a Metafísica e o Psiquismo, - para se relacionarem com o Invisível; fundar Areópagos32 para arbitragem e decisão de todas as questões internacionais por meios diplomáticos e legais, reger-se pelo mesmo pacto fundamental, por uma só Constituição mundial; extinguir os exércitos e as armadas, aplicando as cotas fantásticas despendidas com ambos na manutenção de abrigos higiênicos, estabelecimentos pios, orfanatos, manicômios modelares, patronatos, penitenciárias regeneradoras; desenvolver a aviação, a radiografia e o aerófono para facilitar e ampliar as conexões intercontinentais, e, então, nenhum braço se erguerá, jamais, para empunhar armas homicidas, que, por prescindíveis, apenas hão de figurar nos mostruários dos Museus...

     Houve um interregno na alocução de Antélio, tomado de pungente tristeza. Depois, seguido pelos três amados companheiros, aproximou-se do reduto em que se travara uma das mais encarniçadas batalhas deste planeta. O fragor das pesadas peças de artilharia de campanha, arrastadas com precipitação, faziam tremer o solo; as detonações ininterruptas das metralhadoras e os toques de clarins haviam cessado repentinamente, à invasão da caligem noturna, como enviada por Deus para dar tréguas às renhidas pugnas travadas desde o alvorecer. Elevava-se do solo - empilhado de cadáveres, de agonizantes, de alucinados e de feridos - um confuso rumor de gemidos, exteriores, queixumes, gritos, que parecia exalado de macabro oceano ou de corações fendidos...

     Espirais de fumo espesso e denegrido envolviam as falanges aguerridas, que se evolavam penosamente num pélago de sombras, e, o que os órgãos visuais dos combatentes não divisaram mais, a vista penetrante e apurada dos desmaterializados enxergava, com a precisão do rádio devassando até os tecidos orgânicos; miríades33 de corpos intangíveis34 pairavam a pouca distância da terra, flutuando como plumas ao vento, elevando-se do estendal35 de cadáveres, hirtos ou mutilados, acumulados uns sobre os outros, tantos eram eles, parecendo estátuas etéreas desgarradas dos pedestais e arrojadas aos ares por vendaval impetuoso - o mesmo que derrubara ao chão centenas de beligerantes...

     Perto deles, seus protetores espirituais movimentavam-se, em atitudes dolorosas ou de preces; entidades fúlgidas como meteoros permanentes, sulcavam as ondas de vapores e gases que se evolavam do local, onde se digladiaram as hostes adversas, algumas expedindo ordens, outras orando para consolar os recém-desencarnados de outras batalhas, os quais, soluçantes e angustiados, foram atraídos ao local por vínculos de simpatia e parentescos com os combatentes. Eram tão numerosos os intangíveis, sobrepondo-se ao outro, vestido de fardas - que, então, eram tenebrosos - constituído de seres exaustos, com as armas pendentes das mãos ensangüentadas... Soldados já no plano espiritual, esquecidos da realidade, tomadas de furor, julgando-se ainda num campo bélico, lutavam uns contra os outros, corpo a corpo, soerguendo armas que relampeavam um momento para logo se esvaírem como névoas... Seus guias espirituais afastavam-nos, então, daquele local sinistro, para os chamar à realidade e dirigir-lhes salutares advertências. 

     A atmosfera estava irrespirável, quase compacta, tendo em promiscuidade o odor de gases sulfurosos, de sangue e de corpos putrefatos que, pela desagregação dos tecidos, a empestavam, saturavam de bactérias letais. Empilhados, aqueles rígidos despojos humanos formavam pira descomunal, trágica e macabra, pois alguns conservavam os olhos semi-abertos, esgazeados, refletindo sofrimento e terror indômito; outros deixavam pender os braços hirtos, as mãos contraídas, como a quererem ainda brandir o gládio ou a carabina; outros tinham os lábios contorcidos, num ríctus perene, eternizando um riso de suprema loucura...                                           PRÓXIMA

25 - PRECITO - condenado; maldito. 26 - MEDUSA - Uma das três Górgonas (monstros cujas cabeças eram ornadas de serpentes), e a única mortal. Perseu cortou-lhe a cabeça, que foi oferecida à deusa Atena (mit. grega). 27 - PÁRAMOS ACOGULADOS - locais celestes cheios de sóis. 28 - LERNA - serpente de 7 cabeças, do pântano de Lerna na Argólida (região montanhosa da antiga Grécia). Suas cabeças renasciam se não fossem cortadas de uma só vez. Matá-la foi um dos 12 trabalhos de Hércules (mit. grega). 29 - ALCOUCES - prostíbulos; bordéis. 30 - FLAGÍCIOS - crimes; tormentos; torturas. 31 - MARNÉIS - terrenos alagadiços. 32 - AREÓPAGOS - antigo tribunal de Atenas; reuniões de sábios, de letrados. 33 - MIRÍADES - número de dez mil; grande número indeterminado. 34 - CORPOS INTANGÍVEIS - corpos espirituais. 35 - ESTENDAL - exposição; conjunto