MAOMÉ E O ISLAMISMO I

     Há, por vezes sobre homens e coisas, opiniões que se acreditam e passam ao estado de coisas aceitas, por mais errôneas que sejam, porque se acha mais cômodo aceitá-las como acabadas. Assim é com Maomé e sua religião, da qual quase que só se conhece o lado legendário. O antagonismo das crenças, quer por espírito de partido, quer por ignorância, houve por bem fazer ressaltar os pontos mais acessíveis à crítica, muitas vezes  e de propósito deixando na sombra as partes favoráveis. Quanto ao público imparcial e desinteressado, é preciso dizer em seu favor que poderiam tê-lo esclarecido, escritas numa linguagem apenas conhecida de raros cientistas, lhe eram inacessíveis; e como, em definitiva, não havia para ele nenhum interesse direto, acreditou sob palavra naquilo que lhe diziam, sem perguntar mais. Disto resultou que sobre o fundador do islamismo se fizeram idéias muitas vezes falsas ou ridículas, baseadas em preconceitos, que não encontravam nenhum corretivo na discussão.

     Os trabalhos perseverantes e conscienciosos de alguns sábios orientalistas modernos, tais como Caussin de Perceval, na França, o Dr. W. Muir, na Inglaterra, G. Weil e Sprenger, na Alemanha, hoje permitem encarar a questão sob seu verdadeiro prisma. Graças a eles, Maomé nos aparece completamente diverso dos contos populares. O lugar considerável que sua religião ocupa na Humanidade e sua influência política hoje fazem deste estudo uma necessidade. A diversidade das religiões foi durante muito tempo uma das principais causas de antagonismo entre os povos. No momento em que elas têm uma tendência manifesta para uma aproximação, fazendo desaparecerem as barreiras que as separam, é útil conhecer o que, em suas crenças, pode favorecer ou retardar a aplicação do grande princípio da fraternidade universal. De todas as religiões, o islamismo é a que, à primeira vista, parece encerrar maiores obstáculos a essa aproximação. Desse ponto de vista, como se vê, o assunto não poderia ser indiferente aos Espíritas e é esta a razão pela qual julgamos dever tratá-lo aqui.

     Sempre se julga mal uma religião quando se toma por ponto de partida exclusivo suas crenças pessoais, porque então é difícil alhear-se de um sentimento de parcialidade, na apreciação dos princípios. Para lhe compreender o forte e o fraco, vê-la de ponto de vista mais elevado, abarcar o conjunto de suas causas e efeitos. Se nos reportarmos ao meio onde ela surgiu, aí encontraremos, quase sempre, senão uma justificativa completa, ao menos uma razão de ser. É necessário, sobretudo, penetrar-se do pensamento de absolver. Maomé de todos os seus erros, nem sua religião de todos os erros que ferem o mais vulgar bom senso. Mas em bem da verdade devemos dizer que também seria tão pouco lógico julgar essa religião conforme o que dela fez o fanatismo, quanto o seria julgar o cristianismo segundo a maneira por que alguns cristãos o praticam. É bem certo que, se os muçulmanos seguissem em espírito o Alcorão que o Profeta lhes deu por guia, seriam, sob muitos aspectos, muito diferentes do que são. Entretanto esse livro, tão sagrado para eles, que só o tocam com respeito, lêem-no e o relêem sem cessar; os fervorosos até o sabem de cor. Mas quantos os compreendem? Comentam-no, mas do ponto de vista das idéias preconcebidas, de cujo afastamento fariam um caso de consciência. Aí não vêem, pois, senão o que querem ver. Aliás a linguagem figurada permite aí encontrar tudo o que se quer, e os sacerdotes que, lá como alhures governam pela fé cega, não buscam aí descobrir o que lhes pudesse contrariar. Não é, pois, junto aos doutores da lei que se deve ir inquirir do espírito da lei de Maomé. Os cristãos também têm o Evangelho explícito diversamente do Alcorão, como código de moral, o que não impede que em nome desse mesmo Evangelho, que manda amar até os inimigos tenham torturado e queimado milhares de vítimas e que, de uma lei toda de caridade tenham feito uma arma de intolerância e de perseguição. Pode exigir-se que povos ainda meio bárbaros façam uma interpretação mais sã de suas Escrituras do que fazem os cristãos civilizados?

     Para apreciar a obra de Maomé é preciso remontar à fonte, conhecer o homem e o povo ao qual ele se havia traçado a missão de regenerar e só então se compreende que, para o meio onde ele vivia, seu código religioso era um progresso real. Lancemos, de saída, um golpe de vista sobre a religião.

     De data imemorial a Arábia era povoada por uma porção de tribos, quase todas nômades, e perpetuamente em guerra umas contra as outras, suplementando pela pilhagem a pouca riqueza que proporcionava um trabalho penoso, sob um clima causticante. Os rebanhos eram sua principal fonte; algumas se davam ao comércio que era feito por caravanas, partindo anualmente do Sul, para ir à Síria ou à Mesopotâmia. Sendo quase inacessível o centro da península, as caravanas pouco se afastavam das bordas do mar; as principais seguiam o Hidjaz, região que forma, nas margens do Mar Vermelho, uma faixa estreita, na extensão de quinhentas léguas, e separada do centro por uma cadeia de montanhas, prolongamento das da Palestina. A palavra árabe Hidjaz significa barreira e se dizia da cadeia de montanhas que borda essa região e a separa do resto da Arábia. O Hidjaz e o Yemen ao Sul, são as partes mais férteis; o centro quase que não passa de um vasto deserto.

     Essas tribos haviam estabelecido mercados para onde convergiam de todas as partes da Arábia. Ali se regulavam os negócios comuns; as tribos inimigas trocavam os seus prisioneiros de guerra, e muitas vezes resolviam as suas divergências por arbitragem. Coisa singular, essas populações, inteiramente bárbaras que eram, apaixonavam-se pela poesia. Nesses lugares de reunião e durante os intervalos de lazer, deixados pelo cuidado dos negócios, havia desafios entre os poetas mais hábeis de cada tribo. O concurso era julgado pelos assistentes e era para uma tribo uma grande honra conquistar a vitória. As poesias de mérito excepcional eram transcritas em letras de ouro e pregadas nos muros sagrados da Caaba, em Meca, de onde lhes veio o nome de Mudhahabat, ou poemas dourados.

     Como para ir a esses mercados anuais e voltar com segurança era preciso certo tempo, havia quatro meses do ano em que os combates eram interditos e nos quais não era permitido inquietar as caravanas e os viajantes. Combater durante esses meses reservados era olhado como um sacrilégio, que provocava as mais terríveis represálias.

     Os pontos de estação das caravanas, que paravam nos lugares onde encontravam água e árvores tornaram-se centros onde, pouco a pouco, formaram-se cidades, das quais as duas principais, no Hidjaz, são Meca e Yathrib, hoje Medina.

     A maior parte dessas tribos pretendia descender de Abraão. Assim esse patriarca era tido em grande honra entre eles. Sua língua, pelas relações com o hebraico, realmente atestava uma comunidade de origem entre o povo árabe e o povo judeu. Mas não parece menos certo que o sul da Arábia tenha tido seus habitantes indígenas.

     Entre essas populações havia uma crença, tida como certa, de que a famosa fonte de Zemzem, no vale do Meca, era a que tinha feito jorrar o anjo Gabriel, quando Agar, perdida no deserto, ia morrer de sede com o seu filho Ismael. A tradição referia igualmente que Abraão, tendo vindo ver seu filho exilado, tinha construído com suas próprias mãos, não longe dessa fonte, a Caaba, casa quadrada, de nove côvados de altura por trinta e dois de comprimento e vinte e dois de largura (O côvado eqüivale a cerca de 45 centímetros. Medida natural antiga, que tinha por base a distância entre o cotovelo e a ponta dos dedos). Essa casa, religiosamente conservada, tornou-se um lugar de grande devoção, sendo um dever visitá-la; foi transformada em templo. As caravanas aí paravam naturalmente e os peregrinos aproveitavam sua companhia para viajar com mais segurança. Foi assim que a peregrinação a Meca existia desde tempos imemoriais. Maomé apenas conservou e tornou obrigatório o uso estabelecido. Para tanto teve um objetivo político, que veremos adiante.

     Num dos ângulos externos do templo estava incrustada a famosa pedra negra, trazida dos céus, ao que se diz, pelo anjo Gabriel, para marcar o ponto onde deviam começar os giros que os peregrinos deviam fazer sete vezes em redor da Caaba. Pretendem que, na origem, essa pedra era de uma brancura deslumbrante, mas que o toque dos pecadores a enegreceu. Ao dizer dos viajantes que a viram, ela não tem mais de seis polegadas de altura por oito de comprimento. Pareceria um simples pedaço de basalto, ou talvez um aerolito, o que explicaria a sua origem celeste, segundo as crenças populares.

     Construída por Abraão, a Caaba não tinha porta que a fechasse e era ao nível do solo. Destruída por uma torrente que irrompeu pelo ano 150 da era cristã, foi reconstruída e elevada acima do solo, para a pôr ao abrigo de semelhantes acidentes. Cerca de cinqüenta anos mais tarde, um chefe de tribo do Yemen aí pôs uma cobertura de estofos preciosos e colocou uma porta com serralharia para pôr em segurança os presentes preciosos acumulados incessantemente pela piedade dos peregrinos.

     A veneração dos Árabes pela Caaba e o território que a circundava era tão grande que não tinham ousado aí construir habitações. Essa área tão respeitada, chamada o Haram, compreendia todo o vale da Meca, cuja circunferência é de cerca de quinze léguas. A honra de guardar esse templo venerado era muito cobiçada; as tribos a disputavam e o mais das vezes essa atribuição era direito de conquista. No século quinto, Cossayy, chefe da tribo dos Coraychitas, quinto antepassado de Maomé, tendo-se tornado senhor do haram e tendo sido investido do poder civil e religioso, fez construir seu palácio ao lado da Caaba e permitiu que os de sua tribo aí se estabelecessem. Assim foi fundada a cidade da Meca. Parece que ele foi o primeiro que colocou uma cobertura de madeira na Caaba. A Caaba é hoje rodeada por uma mesquita, e Meca uma cidade de cerca de quarenta mil habitantes, depois de ter tido, ao que se diz, cem mil.

     No princípio a religião dos árabes consistia na adoração de um Deus único, a cujas vontades o homem deve ser completamente submisso. Essa religião, que era a de Abraão, chamava-se Islão e os que a professavam diziam-se Muçulmanos, isto é, submetidos à vontade de Deus. Mas, pouco a pouco, o puro Islão degenerou em grosseira idolatria; cada tribo teve os seus deuses e os seus ídolos, que defendia extremamente pelas armas, para provar a superioridade de seu poder. Estas foram, muitas vezes entre outras, as causas ou pretextos de guerras longas e encarniçadas.

     A fé de Abraão havia, pois, desaparecido entre esses povos, malgrado o respeito que conservavam por sua memória, ou pelo menos tinha sido de tal modo desfigurada que na realidade não mais existia. A veneração pelos objetos considerados sagrados tinha descido ao mais absurdo feiticismo; o culto da matéria tinha substituído o do espírito. Atribuía-se um poder sobrenatural aos mais vulgares objetos consagrados pela superstição, a uma imagem, a uma estátua. Tendo o pensamento abandonado o princípio pelo seu símbolo, a piedade não passava de uma série de práticas exteriores minuciosas, das quais a menor infração era olhada como um sacrilégio.

     Contudo, ainda se encontravam em certas tribos adoradores do Deus único, homens piedosos, que praticavam a mais inteira submissão à sua vontade suprema e repeliam o culto dos ídolos. Eram chamados Hanyfas. Eram os verdadeiros muçulmanos, os que tinham conservado a fé pura do Islão. Mas eram pouco numerosos e sem influência sobre o espírito das massas. Desde muito tempo colônias judias se haviam estabelecido no Hydjaz e haviam conquistado um certo número de prosélitos ao judaísmo, principalmente entre os hanyfas. O Cristianismo também aí teve os seus representantes e propagadores nos primeiros séculos de nossa era, mas nem uma nem outra dessas crenças aí lançaram raízes profundas e duráveis. A idolatria tinha ficado religião dominante. Convinha melhor, por sua diversidade, à independência turbulenta e à divisão infinita das tribos, que a praticavam com o mais violento fanatismo. Para triunfar dessa anarquia religiosa e política, era preciso um homem de gênio, capaz de se impor por sua energia e firmeza bastante hábil para fazer a parte dos costumes e do caráter desses povos, e cuja missão fosse revelada aos seus olhos pelo prestígio de suas qualidades de profeta. Este homem foi Maomé.

     Maomé nasceu em Meca a 27 de agosto de 570 da era cristã, no ano dito do elefante. Não era como pensam vulgarmente, um homem de condição obscura. Ao contrário, pertencia a uma família poderosa e considerada, da tribo dos Coraychitas, uma das mais importantes da Arábia e a que então dominava em Meca. Fazem-no descender em linha reta de Ismael, filho de Abraão e de Agar. Seus últimos antepassados, Cossayy, Abd-Menab, Hachim e Abd-el-Mutalaib, seu avô, se haviam ilustrado por eminentes qualidades e altas funções que tinham desempenhado. Sua mãe, Amina, era de nobre família coraychita e descendia, também, de Cossayy. Seu pai Abd-Allah morreu dois meses antes de seu nascimento; assim, foi criado com muita ternura por sua mãe, que o deixou órfão com a idade de seis anos; depois por seu avô Abd-el-Mutalib, que o queria muito e se comprazia muitas vezes em lhe predizer altos destinos, mas que, ele próprio morreu dois anos depois. (Allan Kardec - Revista Espírita 1866)

(Este artigo segue no arquivo: Maomé e o Islamismo II)