MAOMÉ E O ISLAMISMO II 

     A despeito da posição que tinha ocupado sua família,  Maomé passou sua infância e sua juventude num estado vizinho ao da miséria; sua mãe lhe havia deixado por toda herança um rebanho de carneiros, cinco camelos e uma fiel escrava negra, que o havia cuidado e pela qual ele conservou sempre um vivo apego. Depois da morte de seu avô, foi recolhido pelos tios, cujos rebanhos pastoreou até a idade de vinte anos; acompanhava-os também em suas expedições guerreiras contra outras tribos; mas sendo de humor suave e pacífico, nelas não tomava parte ativa, sem contudo fugir ou temer o perigo, limitando-se a ir apanhar as suas flechas. Quando chegou ao topo da glória, gostava de lembrar que Moisés e David, ambos profetas, tinham sido pastores, como ele.

     Tinha o espírito meditativo e sonhador; seu caráter, de uma solidez e de uma maturidade precoces, junto a uma extrema direitura, a um perfeito desinteresse e a costumes irrepreensíveis, lhe adquiriram uma tal confiança da parte de seus companheiros que o designavam pelo sobrenome de El-Amim, “o homem seguro, o homem fiel”. E, posto que jovem e pobre, convocavam-no às assembléias da tribo para os negócios mais importantes. Fazia parte de uma associação formada entre as principais famílias coraychitas, visando a prevenir as desordens da guerra, proteger os fracos e lhes fazer justiça. Considerava sempre uma glória ter concorrido para isto, e, nos últimos anos de sua vida, sempre se via ligado pelo juramento que, neste sentido, havia prestado na mocidade. Dizia sempre pronto a responder ao apelo que lhe fizesse o homem mais obscuro em nome desse juramento e que não queria, pelos mais belos camelos da Arábia, faltar à fé jurada. Por esse juramento os associados juravam ante uma divindade vingadora, que tomariam a defesa dos oprimidos e perseguiriam a punição dos culpados enquanto houvesse uma gota d’água no oceano.

     No físico Maomé era de estatura pouco acima da média, fortemente constituído; a cabeça muito grande; a fisionomia, marcada de uma suave gravidade, sem ser bela era agradável e respirava calma e tranqüilidade.

     Aos vinte e cinco anos casou-se com sua prima Khadidja, viúva rica, mais velha do que ele ao menos quinze anos, cuja confiança havia conquistado pela inteligente probidade que havia desenvolvido na conduta de uma de suas caravanas. Era uma mulher superior. Essa união, que durou vinte e quatro anos e só terminou pela morte de Khadidja, aos sessenta e quatro anos, foi constantemente feliz. Maomé tinha então quarenta e nove anos e essa perda lhe causou uma dor profunda.

     Depois da morte de Khadidja seus costumes mudaram. Desposou várias mulheres; teve doze ou treze em casamentos legítimos e ao morrer deixou nove viúvas. Incontestavelmente isto foi um erro capital, do qual veremos, mais tarde, as conseqüências prejudiciais.

     Até os quarenta anos sua vida pacífica nada oferece de saliente. Só um fato o tirou um instante da obscuridade. Tinha, então, trinta e cinco anos. Os Coraychitas resolveram reconstruir a Caaba, que ameaçava ruir. Só com muito trabalho se apaziguaram, pela repartição dos trabalhos, as diferenças suscitadas pela rivalidade das famílias que aí queriam participar. Essas diferenças se renovaram com extrema violência quando se tratou de recolocar a famosa pedra negra. Ninguém queria ceder seu direito. Os trabalhos tinham sido interrompidos e de todos os lados corriam às armas. Por proposta do decano concordaram em aceitar a decisão da primeira pessoa que entrasse na sala das deliberações: foi Maomé. Desde que o viram, cada um gritava: “El-amin! El-amin! O homem seguro e fiel”; e esperavam o seu julgamento. Por sua presença de espírito resolveu a dificuldade. Lançando seu manto no chão, nele pôs a pedra e pediu a quatro dos principais chefes facciosos que o tomassem, cada um por uma ponta e o levantassem, todos juntos, à altura que a pedra deveria ocupar, isto é, a quatro ou cinco pés acima do solo. Então a tomou e a colocou com suas próprias mãos. Os assistentes se declararam satisfeitos e a paz foi restabelecida.

     Maomé gostava de pescar sozinho nos arredores de Meca e todos os anos, durante os meses sagrados de trégua, retirava-se para o monte Hira, numa gruta estreita, onde se entregava à meditação. Tinha quarenta anos quando, num de seus retiros, teve uma visão durante o sono. O anjo Gabriel lhe apareceu, mostrando-lhe um livro que o aconselhou a ler. Três vezes resistiu a essa ordem e só para escapar ao constrangimento sobre ele exercido é que consentiu em o ler. Ao despertar disse ter sentido “que um livro tinha sido escrito em seu coração”. O sentido desta expressão é evidente. Significa que havia tido a inspiração de um livro. Mais tarde, porém, ela foi tomada ao pé da letra, como geralmente acontece com as coisas ditas em linguagem figurada.

     Um outro fato prova a que erros de interpretação podem conduzir a ignorância e o fanatismo. Diz Maomé algures no Alcorão: “Não abrimos teu coração e tiramos o fardo de teus ombros?” Estas palavras, aproximadas de um acidente ocorrido a Maomé, quando ainda garoto, deram lugar à fábula, acreditada entre os crentes e ensinada pelos sacerdotes, como um fato miraculoso, que dois anjos abriram o ventre do menino e tiraram de seu coração uma mancha negra, sinal do pecado original. Deve acusar-se Maomé por esses absurdos, ou os que não o compreenderam? Dá-se o mesmo com uma porção de histórias ridículas, sobre as quais o acusam de haver apoiado sua religião. Eis porque não hesitamos em dizer que um cristão esclarecido e imparcial está em melhores condições para dar uma interpretação sadia do Alcorão do que um muçulmano fanático.

     Seja como for, Maomé foi profundamente perturbado em sua visão, que se apressou a contar à mulher. Tendo voltado ao monte Hira, presa da mais viva agitação, julgou-se possuído por Espíritos malignos e, para escapar ao mal que temia, ia precipitar-se do alto de um rochedo, quando uma voz, partida do céu, se fez ouvir e lhe disse: “Ó Maomé! tu és o enviado de Deus; eu sou o anjo Gabriel!” Então, levantando os olhos, viu o anjo sob forma humana, que desaparecia pouco a pouco no horizonte. Esta nova visão apenas aumentou a sua perturbação. Comunicou-a a Khadidja, que se esforçou por acalmá-lo; mas, pouco segura de si mesma, foi procurar o seu primo Varaka, velho afamado por sua sabedoria e converso ao cristianismo, que lhe disse: “Se o que acabas de dizer é verdade, teu marido foi visitado pelo grande Namous, que outrora visitou Moisés; ele será profeta deste povo. Anuncia-lho e que ele se tranqüilize”. Algum tempo depois Varaka, tendo encontrado Maomé, fê-lo contar suas visões e lhe repetiu as palavras que havia dito à sua mulher, acrescentando: “Tratar-te-ão como impostor e te expulsarão; combater-te-ão violentamente. Que eu possa viver até essa hora para te assistir nessa luta!”

     O que resulta destes fatos e de muitos outros é que a missão de Maomé não foi um cálculo premeditado de sua parte; estava confirmada por outros, como ainda não o estava por ele. Custou muito a persuadir-se; mas desde que o ficou, tomou-a muito a sério. Para ele próprio se convencer, desejava uma nova aparição do anjo, que, segundo uns, demorou dois anos, segundo outros, seis meses. É a esse intervalo de incerteza e de hesitação que os muçulmanos chamam o fitreh. Durante todo esse tempo seu espírito foi presa de perplexidades e dos mais vivos temores. Parecia-lhe que ia perder a razão e era também a opinião de alguns que o rodeavam. Era sujeito a desfalecimentos e síncopes que os escritores modernos atribuíram, sem outras provas além de sua opinião pessoal, a ataques  de epilepsia e que poderiam antes ser o efeito de um estado extático, cataléptico ou sonambúlico espontâneo. Nesses momentos de lucidez extracorpórea, muitas vezes se produziam, como se sabe, fenômenos estranhos, dos quais o Espiritismo se dá conta perfeitamente. Aos olhos de certas pessoas ele deveria passar por louco; outros viam nesses fenômenos, para si singulares, algo de sobrenatural, que colocava o homem acima da humanidade. “Quando se admite a ação da Providência nos negócios humanos - diz o Sr. Barthélemy-Sainte-Hilaire - não se pode deixar de a achar, também, nessas inteligências dominadoras que surgem de longe em longe, para esclarecer e conduzir o resto dos homens”.

     O Alcorão não é uma obra escrita por Maomé, com a cabeça fria e de maneira continuada, mas o registro feito por seus amigos das palavras que pronunciava quando inspirado. Nesses momentos, dos quais não era senhor, ele caía num estado extraordinário e muito apavorante; o suor corria-lhe da fronte; os olhos tornavam-se vermelhos de sangue; soltava gemidos e a crise terminava, o mais das vezes por uma síncope que durava mais ou menos tempo, o que por vezes lhe acontecia em meio à multidão e mesmo quando montado em seu camelo, tanto quanto em casa. A inspiração era irregular e instantânea, e ele não podia prever o momento em que seria tomado.

     Segundo o que hoje conhecemos desse estado por uma porção de exemplos análogos, é provável que, sobretudo no princípio, não tivesse consciência do que dizia, e que se suas palavras não tivessem sido recolhidas, teriam ficado perdidas. Mas mais tarde, quando ele tomou a sério o seu papel de reformador, é evidente que falava mais com conhecimento de causa e misturasse às inspirações o produto de seus próprios pensamentos, conforme os lugares e as circunstâncias, as paixões ou os sentimentos que o agitavam, em vista do objetivo que queria atingir, acreditando, talvez de boa-fé, falar em nome de Deus.

     Esses fragmentos destacados, recolhidos em diversas épocas, em número de 114, formam no Alcorão outros tantos capítulos, chamados suratas; ficaram esparsos durante sua vida, e só após a sua morte foram reunidos num corpo oficial de doutrina, pelos cuidados de Abu-Becr e de Omar. Dessas inspirações súbitas, recolhidas à medida que ocorriam, resultou uma falta absoluta de ordem e de método: os mais disparatados assuntos aí são tratados de mistura, por vezes na mesma surata e apresentam  uma tal confusão e tão numerosas repetições que uma leitura seguida é penosa e fastidiosa para quem quer que não seja um fiel.

     Segundo a crença vulgar, tornada artigo de fé, as páginas do Alcorão foram escritas no céu e trazidas prontas a Maomé pelo anjo Gabriel, porque numa passagem se dia: “Teu Senhor é misericordioso e poderoso, e o Alcorão é uma revelação do senhor do universo. O Espírito fiel (o anjo Gabriel) o trouxe do alto e o depositou em teu coração, ó Maomé, para que fosses apóstolo”. Maomé se exprime da mesma maneira a respeito do livro de Moisés e do Evangelho; diz (surata III, versículo 2): Ele fez descer do alto o pentateuco e o Evangelho, para servir de direção aos homens”, querendo dizer por isso que esses dois livros tinham sido inspirados por Deus a Moisés e a Jesus, como lhe havia inspirado o Alcorão.

     Suas primeiras prédicas foram secretas durante dois anos. Nesses intervalos ele ligou-se a uns cinquenta adeptos, entre os membros de sua família e seus amigos. Os primeiros convertidos à nova fé foram Khadidja, sua mulher; Ali, seu filho adotivo, de dez anos; Zeïd, varaka e Abu-Becr, seu mais íntimo amigo, que devia ser o seu sucessor. Tinha quarenta e três anos quando começou a pregar publicamente e desde esse momento realizou-se a predição que lhe havia feito Varaka. Sua religião, fundada na unidade de Deus e na reforma de certos abusos, sendo a ruína da idolatria e dos que dela viviam, os Coraychitas, guardas da Caaba e do culto nacional, levantaram-se contra ele. A princípio o trataram de louco; depois o acusaram de sacrílego; amotinaram o povo; perseguiram-no e a perseguição tornou-se tão violenta que, por duas vezes, seus partidários tiveram que buscar refúgio na Abissínia. Entretanto, aos ultrajes ele sempre opunha a calma, o sangue frio e a moderação. Sua seita crescia e seus adversários, vendo que não a podiam reduzir pela força, resolveram desacreditá-la pela calúnia. A troça e o ridículo não lhe foram poupados. Como se viu, os poetas eram numerosos entre os árabes; manejavam a sátira habilmente e seus versos eram lidos com avidez. Era o meio empregado pela crítica malévola e não deixavam de a empregar contra ele. Como ele resistisse a tudo, seus inimigos, finalmente, recorreram aos conluios para o matar e ele só escapou pela fuga ao perigo que o ameaçava. Foi então que se refugiou em yathrib, depois chamada Medina (Medinet-en-nabi), cidade do Profeta), em 622, e é desta época que data a Hégira, ou era dos muçulmanos. Ele tinha mandado antecipadamente, a essa cidade, em pequenas tropas para não levantar suspeitas, todos os seus de Meca e foi o último a se retirar com Abu-becr e Ali, seus discípulos mais devotados, quando soube que os outros estavam em segurança.

     Dessa época data para Maomé uma nova fase em sua existência: de simples profeta, que era, foi constrangido a tornar-se guerreiro. (Allan Kardec - Revista Espírita de 1866).          ESTE ARTIGO TERMINA EM MAOMÉ III