O
FORTE, NÃO SE QUEIXA
Diz-se: - não se pode fugir ao que tem de ser.
E assim é; não realmente porque as coisas tenham de obedecer a um fatalismo arbitrário e cego; mas porque um concatenamento de fatos, guiados por forças invisíveis mas inteligentes, os conduzem a fins determinados e prefixamente estabelecidos.
Queixas-te de que de todos os lados te chegam motivos para não amares a vida.
Cego! Queres, acaso, ter a presunção de compreenderes a razão das coisas que te sucedem?
Sabes se elas te vêm por bem ou por mal?
Quem te assevera que as agruras que sofres não são passagens indispensáveis a percorrer, no estádio moral em que te encontras?
Parecem-te amargas. E sê-lo-ão?
Nada se opera no mundo que não obedeça a um princípio sábio e justo. Se ele não aparece sempre à nossa vista, não devemos concluir pela sua não existência, mas porque o não sabemos achar.
E sendo assim, como é, não pode a tua vida ser uma exceção.
À tua vista míope parece que, não fazendo tu mal, te não devia vir mal também; que, procurando tu seres justo para com os outros, deviam esses outros serem justos para contigo; e afigura-se-te coisa de contestável direito, que quem não faça o que tu não fazes, sofra o que tu sofres.
Ora isto, meu amigo, é a vulgaríssima noção da justiça, que se apercebe sem esforço, e que abrange um período insignificante da nossa vida.
Lança o teu pensamento mais longe, e conjectura se o desejo que tens de ser bom e justo, não será a conseqüência de um propósito necessário, a ti imposto em apartada época, para te reabilitares de velhas faltas; e os desgostos e contrariedades por que estás passando, não constituirão a punição justa, a conseqüência lógica, dessas velhas faltas, de que precisas libertares-te.
Não é só nesta vida que se colhe o resultado da vida daí.
As fases da nossa vida, passadas aqui e aí, são conseqüências umas das outras, que não podem desligar-se; e em todos os momentos em que nos encontramos estamos gozando ou sofrendo pelo que temos praticado.
Não podia crer-se que Deus tivesse, para com qualquer dos seus filhos, atos que não coubessem dentro da sua justiça - que é a justiça suprema.
Tu, que deves saber isto, não tens direito de estranhar.
Quando um espinho novo te venha lacerar a alma, pensa logo que ele traz em si o bálsamo purificador. Vem esvurmar1 uma empola má do teu organismo espiritual, criada e medrada por maus sentimentos que te animaram durante o teu longo peregrinar na vida.
Não cogites outra explicação. Esta deve bastar para, ante a tua razão de justiceiro, alumiar o que te parece escuro, e aclarar o que se te afigura misterioso.
Vidas felizes e folgadas levaste, certamente, em outros organismos, em que exististe na Terra, menos ponderados e refletidos, e menos acessíveis à piedade e à dor, que o atual; e dessas vidas, assim gozadas, te deve ter ficado no espírito impresso o escuro de atos, com a perfeição incompatibilizados, como restam sempre, depois de lautos festins, impurezas e odores incompatíveis com o asseio e com o gosto apurado.
Em um e outro caso, só o trabalho limpa e purifica.
No espírito humano o trabalho é feito pela dor; e a tantas facetas desse espírito ele é levado quantas são as que se conservam por lavrar, ou quando lavradas, se sujarem por maus atos ou por maus sentimentos que com elas estiveram em contato.
Felizes daqueles em quem simultaneamente são tocadas todas as facetas não polidas.
Sinal é esse de que o grande obreiro, o grande lapidário, não necessita já consumir muito tempo em cada uma.
Se se reparar bem há de notar-se que cada dor moral corresponde sempre a um defeito a corrigir, como cada dor física corresponde a um estado mórbido a curar. Curado, desaparece a dor; corrigido o defeito, desaparece a sensibilidade que o sujeita à correção.
Não há, pois, maldizer as dores que fazem sofrer o espírito ao mísero mortal.
Elas têm missão providencial a desempenhar.
Enquanto o não fizerem, não cessarão de percutir.
A dor no organismo material é a denunciadora amiga de uma causa mórbida, que é preciso remover; a dor no organismo espiritual é, igualmente, a amiga advertência de que existe um mal que é necessário desaparecer.
Enferma-se de avareza? É na avareza que ela emprega o seu trabalho, e, não cessa nele, enquanto sentir que o paciente sofre do achaque que imortalizou Harpagão2.
É de Ciúme? É de Inveja? É de Vaidade? É de Orgulho? É de Soberba?
Em cada um desses sentimentos irá ferir, para os destruir, como o cinzel do estatuário vai ferir as protuberâncias da pedra tosca, até fazer a obra-prima que imortalize no mármore o gênio humano.
Não é esse trabalho labuta de uma só vida. Que é o mesquinho espaço de uma vida terrena na imensidade dos tempos? É um átomo de pó balouçando no infinito.
Louvores a Deus devem dar aqueles que se sintam feridos em muitos pontos vulneráveis do seu organismo moral ao mesmo tempo.
É indício seguro de que o obreiro está dando os últimos toques, desbastando as derradeiras saliências, aperfeiçoando, finalmente, a sua obra.
Cessou a necessidade de bater durante muito tempo no mesmo sítio, porque as grandes massas estão desbastadas, e caídas, em fragmentos, no solo. Agora, o seu cinzel ou o seu buril, saltita, leve, de um para outro lado, retocando, afagando, cortando, alindando a sua obra, para que, à sua vista experiente e mestra, fique criação perfeita.
Está findar, desvanecidamente, a sua labuta; e ao objeto do seu cuidado está a findar o martírio.
Não personalizo. Tens obrigação de conhecer esta teoria, que representa uma das verdades da doutrina que apostolizas.
Tira dela o que possa caber-te, se alguma coisa te couber; - e não deixes de fazer justiça a ti próprio, para teres direito de exigir que os outros ta façam.
Há poucos dias te disse eu: - Quem não pode com o mal, não é digno do bem. É o que te repito novamente.
Ninguém se deve deixar acabrunhar.
Deixa-me que te lembre o conselho que então te dei:
“Há duas formas de encarar o futuro, sempre prenhe de acontecimentos imprevistos. Uma é prever tudo e aprestar-se para a luta; outra é não prever nada, e dar-se ao abandono.
O que se prepara para a luta, luta e vence quase sempre; o que se deixa cair em abandono, anula-se, e de si próprio, que não dos acontecimentos, é vencido.
Quando, às vezes, as coisas se afiguram más, constituem um aspecto escuro, que serve para realçar, em breve, a claridade de uma situação melhor. Não desanimar nunca.
Fugir à luta é cair; e a queda não aproveita a ninguém”.
Isto
disse, isto redigo, como um eco da tua própria consciência.
De
que serve blasfemar contra a sorte, desferir queixumes sobre a adversidade, se a
sorte se não muda com blasfêmias, nem a adversidade se vence com lástimas?
A queixa é o desafogo dos fracos e dos pusilânimes.
O forte, não se queixa: - cala-se e reage.
Luta. Vence ou é vencido, mas luta.
Se vence não exagera o triunfo; se é vencido não se entrega a lamentos para exagerar a derrota.
A adversidade nobremente aceite pode provocar o respeito dos outros; mas combatida, corajosamente, concita-lhes a admiração.
Na luta, o vencido de hoje é o vencedor de amanhã.
Compenetra-te desta verdade.
Não é vencido o que consideram vencido; é o que assim se considera; de modo que o segredo da vitória, não é apanágio do que supõe triunfador: é do que se não dá por aniquilado. (Espírito de Alexandre Herculano - Do País da Luz 3 - Fernando de Lacerda).
Notas do compilador: 1 - esvurmar = limpar do vurmo ou pus (a ferida, espremendo-a); pôr a descoberto e criticar; 2 - Harpagão = principal personagem de “O avarento” de Molière; a avareza destruiu seu sentimento paterno, e ele se mostra odioso e ridículo ao tornar-se rival do filho junto à jovem Mariana.