OBSESSÃO: CAUSAS E COMBATE
As observações que fizemos sobre a epidemia que abateu, e abate ainda,
a comuna de Morzine, na Alta Sabóia, não nos deixam dúvidas quanto à causa.
Mas, para apoiar nossa opinião, devemos entrar em explicações preliminares,
que melhor destacarão a analogia desse mal com os casos idênticos, cuja origem
não poderia oferecer dúvidas a quem esteja familiarizado com os fenômenos
espíritas e reconheça a ação do mundo invisível sobre a humanidade. Para
tanto faz-se mister remontar à fonte do mesmo fenômeno e seguir-lhe a
gradação, desde os casos mais simples e, ao mesmo tempo, explicar como ele se
processa. Daí deduziremos muito melhor o meio de combater o mal. Posto que já
tenhamos tratado do assunto no Livro dos
Médiuns, no capítulo da obsessão, e em diversos artigos na Revista, aduziremos algumas considerações novas, que tornarão a
coisa mais fácil de entender.
O primeiro ponto que importa bem se compenetrar, é da natureza dos
Espíritos, do ponto de vista moral. Não sendo os Espíritos senão as almas
dos homens, e não sendo bons todos os homens, não é racional admitir-se que o
Espírito de um perverso de súbito se transforme. Do contrário seria
desnecessário o castigo na vida futura. A experiência confirma esta teoria ou,
melhor dito, a teoria é fruto da experiência. Com efeito, mostram-nos as
relações com o mundo invisível, ao lado de Espíritos sublimes de sabedoria e
de conhecimento, outros ignóbeis, ainda com todos os vícios e paixões da
humanidade. Após a morte, a alma de um homem de bem será um bom Espírito; do
mesmo, encarnando-se, um bom Espírito será um homem de bem. Pela mesma razão,
ao morrer, um homem perverso dará um Espírito perverso ao mundo invisível. E,
assim, enquanto o Espírito não se houver depurado ou experimentado o desejo de
se melhorar. Porque, uma vez entrado na via do progresso, pouco a pouco se
despoja de seus maus instintos: eleva-se gradativamente na hierarquia dos
Espíritos, até atingir a perfeição, acessível a todos, pois Deus não pode
ter criado seres eternamente votados ao mal e à infelicidade. Assim, os mundos
visível e invisível se penetram e alternam incessantemente; se assim podemos
dizer, alimentam-se mutuamente; ou, melhor dito, esses dois mundos na realidade
constituem um só, em dois estados diferentes. Esta consideração é muito
importante para melhor compreender-se a solidariedade entre ambos existente.
Sendo a Terra um mundo inferior, isto é, pouco adiantado, resulta que a
imensa maioria dos Espíritos que a povoam, tanto no estado errante, quanto
encarnados, deve compor-se de Espíritos imperfeitos, que fazem mais mal que
bem. Daí a predominância do mal na Terra. Ora, sendo a Terra, ao mesmo tempo,
um mundo de expiação, é o contato do mal que torna os homens infelizes, pois
se todos os homens fossem bons, todos seriam felizes. É um estado ainda não
alcançado por nosso globo; e é para tal estado que Deus quer conduzi-lo. Todas
as tribulações aqui experimentadas pelos homens de bem, quer da parte dos
homens, quer da dos Espíritos, são conseqüências deste estado de
inferioridade. Poder-se-ia dizer que a Terra é a Botany-Bay dos mundos: aí se
encontram a selvageria primitiva e a civilização, a criminalidade e a
expiação.
É, pois, necessário imaginar-se o mundo invisível como formando uma
população inumerável, compacta, por assim dizer, envolvendo a Terra e se
agitando no espaço. É uma espécie de atmosfera moral, da qual os Espíritos
encarnados ocupam a parte inferior, onde se agitam como num vaso. Ora, assim
como o ar das partes baixas é pesado e malsão, esse ar moral é também
malsão, porque corrompido pelas emanações dos Espíritos impuros. Para
resistir a isso são necessários temperamentos morais dotados de grande vigor.
Digamos, entre parênteses, que tal estado de coisas é inerente aos
mundos inferiores. Mas estes seguem a lei do progresso e, atingindo a idade
precisa, Deus os saneia, deles expulsando os Espíritos imperfeitos, que não
mais se reencarnam e são substituídos por outros mais adiantados, que farão
reinar a felicidade, a justiça e a paz. É uma revolução deste gênero que no
momento se prepara.
Examinemos, agora, o modo de ação recíproca dos encarnados e
desencarnados.
Sabemos que os Espíritos são revestidos de um envoltório vaporoso, que
lhes forma um verdadeiro corpo fluídico, ao qual damos o nome de perispírito,
e cujos elementos são tirados do fluído universal ou cósmico, princípio de
todas as coisas. Quando o Espírito se une a um corpo, aí vive com seu
perispírito, que serve de ligação entre o Espírito, propriamente dito, e a
matéria corpórea: é o intermediário das sensações percebidas pelo
Espírito. Mas esse perispírito não é confinado no corpo, como numa caixa.
Por sua natureza fluídica, ele irradia exteriormente e forma em torno do corpo
uma espécie de atmosfera, como o vapor que dele se desprende. Mas o vapor que
se desprende de um corpo malsão é igualmente malsão, acre e nauseabundo, o
que infecta o ar dos lugares onde se reúnem muitas pessoas malsãs. Assim como
esse vapor é impregnado das qualidades do corpo, o perispírito é impregnado
das qualidades, ou seja do pensamento do Espírito e irradia tais qualidades em
torno do corpo.
Agora outro parêntese para responder a uma objeção oposta por alguns
à teoria dada pelo Espiritismo do estado da alma. Acusam-no de materializar a
alma, ao passo que, conforme à religião, a alma é puramente imaterial. Como a
maior parte das outras, esta objeção provém de um estudo incompleto e
superficial. Jamais o Espiritismo definiu a natureza da alma, que escapa ás
nossas investigações. Não fiz que o perispírito constitua a alma: o
vocábulo perispírito diz
positivamente o contrário, pois especifica um envoltório em torno do
Espírito. Que diz a respeito o Livro dos
Espíritos? “Há no homem três coisas: a alma,
ou Espírito, princípio inteligente; o corpo,
envoltório material; o perispírito,
envoltório fluídico semimaterial, servindo de laço entre o Espírito e o
Corpo”. E porque, com a morte do corpo, a alma conserva o envoltório
fluídico, não está dito que tal envoltório e a alma sejam uma só e mesma
coisa, pois que o corpo não é único com a roupa ou alma não é una com o
corpo. A doutrina Espírita nada tira à imaterialidade da alma: apenas lhe dá
dois invólucros, em vez de um, durante a vida corpórea e só um após a morte
do corpo, o que é, não uma hipótese, mas um resultado da observação. E é
com o auxílio desse envoltório que melhor se compreende a sua individualidade
e melhor se explica a sua ação sobre a matéria.
Voltemos ao assunto.
Por sua natureza fluídica, essencialmente móvel e elástica, se assim
se pode dizer, como agente direto do Espírito, o perispírito é posto em
ação e projeta raios pela vontade do Espírito. Por esses raios ele serve à
transmissão do pensamento, porque, de certa forma, está animado pelo
pensamento do Espírito. Sendo o perispírito o laço que une o Espírito ao
corpo, é por seu intermédio que o Espírito transmite aos órgãos, não a
vida vegetativa, mas os movimentos que exprimem a sua vontade; é, também, por
seu intermédio que as sensações do corpo são transmitidas ao Espírito.
Destruído o corpo sólido pela morte, o Espírito não age mais e não percebe
mais senão por seu corpo fluídico, ou perispírito. Por isso age mais
facilmente e percebe melhor, desde que o corpo é um entrave. Tudo isto é ainda
resultado da observação. Suponhamos agora duas pessoas próximas, cada qual
envolvida por sua atmosfera perispirital. Deixem passar o neologismo. Esses dois fluidos
põem-se em contato e se penetram. Se forem de natureza simpática,
interpenetram-se; se de natureza antipática, repelem-se e os indivíduos
sentirão uma espécie de mal-estar, sem se darem conta; se, ao contrário,
forem movidos por sentimentos de benevolência, terão um pensamento
benevolente, que atrai. É por isso que duas pessoas se compreendem e se
adivinham sem falar. Um certo quê por vezes diz que a pessoa que defrontamos é
animada por tal ou qual sentimento. Ora, esse certo quê é a expansão do
fluido perispirital da pessoa em contato conosco, espécie de fio elétrico
condutor do pensamento. Desde logo compreende-se que os Espíritos, cujo
envoltório fluídico é como mais livre do que no estado de encarnação, não
necessitam de sons articulados para se entenderem.
O fluido perispirital é, pois, acionado pelo Espírito. Se, por sua
vontade, o Espírito, por assim dizer, dardeja raios sobre outro indivíduo, os
raios o penetram. Daí a ação magnética mais ou menos poderosa, conforme a
vontade, mais ou menos benfazeja, conforme sejam os raios de natureza melhorou
pior, mais ou menos vivificante. Porque podem, por sua ação, penetrar os
órgãos e, em certos casos, restabelecer o estado normal. Sabe-se da
importância da influência das qualidades morais do magnetizador.
Aquilo que pode fazer um Espírito encarnado, dardejando seu próprio
fluido sobre uma pessoa, pode, igualmente, fazê-lo um desencarnado, desde que
tenha o mesmo fluido. Assim, pode magnetizar e, sendo bom ou mau, sua ação
será benéfica ou malfazeja.
Assim, facilmente nos damos conta da natureza das impressões que
recebemos, conforme o meio onde nos encontramos. Se uma reunião for composta de
pessoas de maus sentimentos, estas enchem o ar ambiente do fluido impregnado de
seus pensamentos. Daí, para as almas boas, um mal-estar moral análogo ao
mal-estar físico causado pelas exalações mefíticas: a
alma fica asfixiada. Se, ao contrário, as pessoas tiverem intenções
puras, encontramo-nos em sua atmosfera como se num ar vivificante e salubre.
Naturalmente o efeito será o mesmo num ambiente cheio de Espíritos, conforme
sejam bons ou maus.
Isto bem compreendido, chegamos sem dificuldade à ação material dos
Espíritos errantes sobre os encarnados. E, daí, à explicação da
mediunidade.
Se um Espírito quiser agir sobre uma pessoa, dela se aproxima, envolve-a
com o seu perispírito, como num manto; os fluidos se penetram, os dois
pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode
servir-se daquele corpo como se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua
vontade, falar escrever, desenhar, etc. Assim são os médiuns. Se o Espírito
for bom, sua ação será suave e benéfica e só fará boas coisas; se for
maus, fará maldades; se for perverso e mau, ele o constrange, até paralisar a
vontade e a razão, que abafa com seus fluidos, como se apaga o fogo sob um
lençol d’água. Fá-lo pensar, falar e agir por ele, leva-o contra a vontade
a atos extravagantes ou ridículos; numa palavra o magnetiza e o cataleptiza
moralmente e o indivíduo se torna um instrumento cego de sua vontade. Tal é a
causa da obsessão, da fascinação e da subjugação, que se mostram em
diversos graus de intensidade. O paroxismo da subjugação é geralmente chamado
possessão. Deve notar-se que, neste estado, muitas vezes o
indivíduo tem consciência do ridículo daquilo que faz, mas é constrangido a
fazê-lo, como se um homem mais vigoroso que ele fizesse, contra a vontade,
mover os braços, as pernas, a língua. Eis um curioso exemplo.
Numa pequena reunião em Bordeaux, em meio a uma evocação, o médium,
um jovem de caráter suave e perfeita urbanidade, de repente começa a bater na
mesa, levanta-se com olhar ameaçador, mostrando os punhos aos assistentes,
proferindo pesadas injúrias e querendo atirar-lhes um tinteiro. A cena, tanto
mais chocante quanto inesperada, durou uns dez minutos, depois do que o moço
retomou a calma habitual, desculpou-se do que se havia passado, dizendo que
sabia muito bem o que havia dito e feito, mas que não pudera impedir. Sabedor
do fato, pedimos explicação numa sessão especial da Sociedade de Paris.
Foi-nos respondido que o Espírito que o havia provocado era mais farsista do
que mau e que simplesmente tinha querido divertir-se apavorando os assistentes.
Isto prova a veracidade da explicação; o fato não se repetiu e o médium
continuou a receber excelentes comunicações, como antes. É bom dizer o que
provavelmente tinha excitado a verve daquele Espírito brincalhão.
Um antigo chefe de orquestra do teatro de Bordeaux, o Sr. Beck tinha
experimentado, durante vários anos antes de morrer, um fenômeno singular.
Todas as noites, ao sair do teatro, parecia-lhe que um homem lhe saltava às
costas, cavalgando as suas espáduas, até chegar à porta da casa. Aí o
suposto indivíduo descia e o Sr. Beck se achava livre. Nesta reunião quiseram
evocar o Sr. Beck e pedir-lhe uma explicação. Foi então que o Espírito
farsista achou bom substituí-lo e fazer o médium representar uma cena
diabólica, pois nele encontrou, sem dúvida, as necessárias disposições
fluídicas para obedecer.
Aquilo que não passou de acidental, por vezes toma um caráter de
permanência, quando o Espírito é mau, porque para ele o indivíduo se torna
verdadeira vítima, à qual ele pode dar a aparência de verdadeira loucura.
Dizemos aparência, porque a loucura propriamente dita sempre resulta de uma
alteração dos órgãos cerebrais, ao passo que, neste caso, os órgãos estão
tão intatos quanto os do jovem de quem acabamos de falar. Não há, pois,
loucura real, mas aparente, contra a qual os remédios da terapêutica são
inoperantes, como o prova a experiência. Ainda mais: eles podem produzir o que
não existe. As casas de alienados contam muitos doentes de tal gênero, aos
quais o contato com outros alienados só poderá ser muito prejudicial, porque
este estado denota sempre uma certa fraqueza moral. Ao lado de todas as
variedades de loucura patológica, convém, pois, acrescentar a loucura
obsessional, que requer meios especiais. Mas como poderá um médico
materialista estabelecer essa diferença ou, mesmo, admiti-la?
“Bravo”, irão exclamar os nossos adversários. Não se pode
demonstrar melhor os perigos do Espiritismo e nós temos muita razão de o
proibir.
Um instante: o que dissemos prova precisamente a sua utilidade.
(Este artigo encerra-se no arquivo: obsessão II)