OBSESSÃO II
Credes que os maus Espíritos, que pululam no meio humano, esperaram ser
chamados, a fim de exercerem sua influência perniciosa? Desde que os Espíritos
existiram em todos os tempos, em todos os tempos representaram o mesmo papel,
pois isto está em sua natureza. E a prova é o grande número de pessoas
obsedadas, ou possessas, se quiserdes, antes que se cogitasse de Espiritismo e
de médiuns. A ação dos Espíritos, bons ou maus, é, pois, espontânea. A dos
maus produz uma porção de perturbações na economia moral e mesmo física e
que, por ignorância da verdadeira causa, são atribuídas a causas erradas. Os
maus Espíritos são inimigos invisíveis, tanto mais perigosos quanto não se
suspeitava de sua ação. Pondo-os a descoberto, o Espiritismo vem revelar uma
nova causa de certos males da humanidade. Conhecida a causa, não se buscará
mais combater o mal por meios que, sabemos agora, são inúteis: procurar-se-ão
outros mais eficazes. Ora, quem levou à descoberta desta causa? A mediunidade.
Foi pela mediunidade que os inimigos ocultos traíram sua presença. Ela fez
para eles o que o microscópio para os infinitamente pequenos: revelou todo um
mundo. O Espiritismo não atraiu os maus Espíritos: descobriu-os e forneceu os
meios de lhes paralisar a ação e, conseqüentemente, os afastar. Ele não
trouxe o mal, pois este sempre existiu. Ao contrário, trouxe o remédio ao mal,
mostrando-lhe as causas. Uma vez reconhecida a ação do mundo invisível,
ter-se-á a chave de uma porção de fenômenos incompreendidos e a ciência,
enriquecida com esta nova lei, verá novos horizontes abertos à sua frente.
Quando lá chegará? Quando não mais professar o materialismo, pois este lhe
detém o avanço, com barreiras intransponíveis.
Antes de falar do remédio, expliquemos um fato,
que embaraça muitos Espíritas, sobretudo nos casos de obsessão simples, isto
é, naqueles muito freqüentes, em que o médium não se pode desvencilhar de um
mau Espírito, que por ele se manifesta obstinadamente, pela escrita ou pela
audição. O não menos freqüente, em que, por meio de uma boa comunicação,
vem um Espírito imiscuir-se para dizer coisas más. Pergunta-se, então, se os
maus Espíritos são mais poderosos que os bons.
Reportemo-nos ao que dissemos, de começo, da
maneira por que age o Espírito e figuremos um médium envolvido e penetrado de
fluido perispirital de um mau Espírito. Para que o do bom possa agir sobre o
médium, é necessário que penetre esse envoltório e sabe-se que dificilmente
a luz penetra um nevoeiro espesso. Conforme o grau da obsessão, o nevoeiro
será permanente, tenaz ou intermitente e, conseqüentemente, mais ou menos
fácil de dissipar.
Nosso correspondente em Parma, Sr. Superchi,
enviou-nos dois desenhos feitos por um vidente, representando perfeitamente esta
situação. Num vê-se a mão do médium envolta numa nuvem escura, imagem do
fluído perispirital dos maus Espíritos, atravessada por um raio luminoso que
vai clarear a mão. É o bom fluido que a dirige e se opõe à ação do mau. No
outro, a mão está na sombra: a luz está em volta do nevoeiro, que não pode
penetrar. Aquilo de que o desenho circunda a mão deve entender-se de todas as
pessoas.
Resta sempre a questão de saber se o bom Espírito
é menos poderoso que o mau. Não é o bom Espírito que é mais fraco: é o
médium que não é bastante forte para livrar-se do manto que sobre si foi
lançado, para se desembaraçar dos braços que o apertam, com o que - é bom
dizer - por vezes se compraz. Compreende-se que, neste caso, o bom Espírito
não possa dominar, pois o outro é preferido. Admitamos, agora, o desejo de se
desembaraçar desse envoltório fluídico, de que o seu se acha penetrado, como
uma vestimenta penetrada de umidade: não bastará o desejo e nem sempre a
vontade é suficiente.
Talvez perguntem por que os Espíritos protetores
não lhes forçam a retirada. Sem dúvida o podem e, por vezes, o fazem. Mas,
permitindo a luta, também deixam o mérito da vitória. Se deixam se debatendo
pessoas de mérito a certos respeitos, é para provar sua perseverança e fazer
que adquiram mais força no bem. É
para elas uma espécie de ginástica
moral.
Eis a resposta que demos ao Sr. P., coronel do
estado-maior do exército austríaco, que nos consultava sobre uma afecção
atribuída a maus Espíritos, desculpando-se por nos chamar de amigo, posto só
nos conhecesse de nome:
“O Espiritismo é o laço fraterno por
excelência e tendes razão de pensar que os que partilham essa crença, mesmo
sem se conhecerem, devam tratar-se como amigos. Agradeço-vos por terdes tido de
mim uma boa opinião e me dardes esse título.
“Sinto-me contente por encontrar em vós um
adepto sincero e devotado a essa consoladora doutrina. Mas, por isso mesmo que
é consoladora, deve dar força moral e resignação para suportar as provas da
vida que, no mais das vezes, são expiação. Disto a Revista
Espírita vos fornece numerosos exemplos.
Sem dúvida certas pessoas prefeririam outra
receita mais fácil para expulsar os Espíritos: algumas palavras a pronunciar,
ou sinais a fazer, por exemplo, o que seria mais cômodo do que corrigir os
próprios defeitos. Lamentamos, mas não conhecemos processo mais eficaz para vencer
um inimigo do que ser mais forte que ele. Quando estamos doentes, temos que
nos resignar a tomar remédios, por mais amargos que sejam. Mas, também, quando
se teve a coragem de os tomar, como a gente se sente bem e como se fica forte!
Temos que nos persuadir de que, para alcançar tal objetivo, não há palavras
sacramentais, nem fórmulas, nem talismãs, nem sinais materiais quaisquer. Os
maus Espíritos se riem e, às vezes, gostam de indicar alguns, que dizem
infalíveis, para melhor captar a confiança daqueles de quem abusam, porque,
então, estes, confiantes na virtude do processo, entregam-se sem medo.
Antes de esperar dominar o mau Espírito, é preciso dominar-se a si mesmo. De
todos os meios para adquirir a força de o conseguir, o mais eficaz é a
vontade, secundada pela prece, entendida a prece de coração e não aquelas nas
quais a boca participa mais que o pensamento. É necessário pedir a seu anjo de
guarda e aos bons Espíritos que nos assistam na luta. Mas não basta lhes pedir
que expulsem o mau Espírito: é necessário lembrar-se da máxima: “Ajuda-te,
e o céu te ajudará”; e lhes pedir, sobretudo, a força que nos falta
para vencer nossas más inclinações, que para nós são piores que os maus
Espíritos, pois são essas inclinações que os atraem, como a podridão atrai
as aves de rapina. Orando também pelo Espírito obsessor, pagamos com o bem
pelo mal, mostramo-nos melhor que ele, o que já é uma superioridade. Com a
perseverança a gente acaba, na maioria dos casos, por conduzi-lo a melhores
sentimentos, transformando o obsessor em reconhecido.
Em resumo, a prece fervorosa e os esforços sérios
por se melhorar são os únicos meios de afastar os maus Espíritos, que
reconhecem como senhores aqueles que praticam o bem, ao passo que as fórmulas
lhes provoca o riso. A cólera e a impaciência os excitam. É preciso
cansá-los, mostrando-se mais pacientes.
Releva dizer ainda que a gente muitas vezes
responsabiliza os Espíritos estranhos por maldades de que não são
responsáveis. Certos estados mórbidos e certas aberrações, que são
atribuídas a uma causa oculta, são, por vezes, devidas exclusivamente ao
Espírito do indivíduo. As contrariedades freqüentemente concentradas em si
próprio, os sofrimentos amorosos, principalmente, têm levado ao cometimento de
muitos atos excêntricos, que erradamente são levados à conta de obsessão.
Muitas vezes a criatura é seu próprio obsessor.
Acrescentemos, finalmente, que certas obsessões tenazes, sobretudo de pessoas
de mérito, por vezes fazem parte das provas a que se acham submetidas. “Por
vezes, mesmo, acontece que a obsessão, quando simples, seja uma tarefa imposta
ao obsedado, que deve trabalhar para melhorar o obsessor, como um pai a um filho
vicioso”.
Enviamos o leitor, para mais detalhes, ao Livro
dos Médiuns.
Resta-nos falar da obsessão coletiva ou epidêmica
e, em particular da de Morzine. Isto, porém, exige considerações de certa
amplitude, para mostrar pelos fatos sua similitude com as obsessões
individuais. E a prova disso é encontrada nas próprias observações e nas que
são descritas nos relatórios dos médicos. Além disso, resta-nos examinar o
efeito dos meios empregados, pois a ação do exorcismo e as condições nas
quais este pode ser eficaz ou nulo. A extensão desta segunda parte obriga-nos a
constituí-la assunto de um artigo especial, no próximo número.