OLHAR  RETROSPECTIVO                       

     Quando uma coisa está certa e é chegado o momento de sua eclosão, ela marcha a despeito de tudo. A força de ação do Espiritismo é atestada por sua persistente expansão, malgrado os poucos esforços que faz para se expandir. Há um fato constante: é que os adversários do Espiritismo consumiram mil vezes mais força para o abater, sem o conseguir, do que seus partidários para o propagar. Ele avança, por assim dizer, só, semelhante a um curso d’água que se infiltra através das terras, abre uma passagem à direita, se o barram à esquerda, e pouco a pouco mina as pedras mais duras e acaba por fazer desabarem montanhas. 

     Um fato notório é que, em seu conjunto, a marcha do Espiritismo não sofreu nenhuma parada; ela pode ter sido entravada, comprimida, diminuída nalgumas localidades por influências contrárias; mas, como dissemos, a corrente, barrada num ponto, se divide numa porção de filetes. Entretanto, à primeira vista, dir-se-ia que sua marcha é menos rápida do que o foi nos primeiros anos. Há que inferir-se que o abandonam? que encontra menos simpatias? Não: simplesmente que o trabalho que ele realiza neste momento é diferente e, por sua natureza, menos ostensivo.

     Desde o começo, já temos dito, o Espiritismo ligou a si todos os homens nos quais estas idéias estavam, de certo modo, no estado de intuição. Bastou-lhe apresentar-se para ser compreendido e aceito. Imediatamente recolheu por toda a parte onde encontrou terreno preparado. Essa primeira colheita, uma vez feita, restavam os terrenos sem cultura, que exigiram mais trabalho. É agora através das opiniões refratárias que se deve fazer a luz, e é o período em que nos encontramos. Semelhante ao mineiro que retira sem esforço as primeiras camadas de terra móvel, chegou à rocha que é preciso talhar e no seio da qual só pouco a pouco pode penetrar. Mas não há rocha, por mais dura que seja, que resista indefinidamente a uma ação dissolvente contínua. Sua marcha é, pois, ostensivamente menos rápida, mas se, num dado tempo, não reúne um tão grande número de adeptos francamente confessos, não abala menos as convicções contrárias, que caem, não de um golpe, mas pouco a pouco, até que a brecha esteja feita. É o trabalho a que assistimos, e que marca a fase atual do progresso da doutrina.

     Esta fase é caracterizada por sinais inequívocos. Examinando a situação, torna-se evidente que a idéia ganha terreno dia a dia, aclimata-se; encontra menos oposição; riem menos e os mesmos que ainda não a aceitam, começam a lhe conceder foros de cidade entre as opiniões. Os Espíritas já não são mostrados a dedo, como outrora, e considerados como animais curiosos. É o que constatam sobretudo os que viajam. Por toda a parte encontram mais simpatia ou menos antipatia pela coisa. Não se pode negar que não haja nisto um progresso real.

     Para compreender as facilidades e as dificuldades que o Espiritismo encontra em seu caminho, há que se representar a diversidade das opiniões, através das quais deve abrir passagem. Jamais se impondo pela força ou pelo constrangimento, mas só pela convicção, ele encontrou uma resistência mais ou menos grande, conforme a natureza das convicções existentes, com as quais podia assimilar-se mais ou menos facilmente, das quais umas o receberam de braços abertos, enquanto outras o repelem com obstinação.

     Duas grandes correntes de idéias dividem a sociedade atual: o espiritismo e o materialismo. Posto este último forme uma incontestável minoria, não se pode dissimular que tomou uma grande extensão desde alguns anos. Um e outro se fracionam numa porção de nuanças, que se podem resumir nas principais categorias seguintes:

     1 - os fanáticos de todos os cultos;

     2 - os crentes satisfeitos, com convicções absolutas, fortemente estacados e sem restrições, posto que sem o fanatismo, sobre todos os pontos do culto que professam e com o qual estão satisfeitos. Esta categoria compreende, também, as seitas que, por isso mesmo que abriram cisão e operaram reformas, se julgam de posse de toda a verdade, e, por vezes, são mais absolutas do que as religiões mães;

     3 - os crentes ambiciosos, inimigos das idéias emancipadoras, que lhes poderiam fazer perder o ascendente que exercem sobre a ignorância;

     4 - os crentes pela forma que, por interesse, simulam uma fé que não têm, e quase sempre se mostram mais rígidos e mais intolerantes do que os religiosos sinceros;

     5 - os materialistas por sistema, que se apóiam numa teoria raciocinada e na qual muitos estariam contra a evidência, por orgulho, para não confessar que puderam enganar-se; em maioria, são tão absolutos e intolerantes em sua incredulidade quanto os fanáticos religiosos em sua crença;

     6 - os sensualistas, que repelem as doutrinas espiritualistas e espíritas por medo que elas as venham perturbar em seus prazeres materiais. Fecham os olhos

para não ver;

     7 - os despreocupados, que vivem ao dia a dia, sem se preocupar com o futuro. Em maioria não saberiam dizer se são espiritualistas ou materialistas; para eles o presente é a única coisa séria;

     8 - os panteístas, que não admitem uma divindade pessoal, mas um princípio espiritual universal, no qual se confundem as almas, como as gotas d’água no oceano, sem conservar sua individualidade. Esta opinião é um primeiro passo para a espiritualidade e, por conseqüência, um progresso sobre o materialismo. Posto que um pouco menos refratários às idéias espíritas, os que a professam são, em geral, muito absolutos, porque neles é um sistema preconcebido e raciocinado e muitos não se dizem panteístas senão para não se confessarem materialistas. É uma concessão que fazem às idéias espíritas para salvar as aparências;

     9 - os deístas, que admitem a personalidade de um Deus único, criador e soberano senhor de todas as coisas, eterno e infinito em todas as suas perfeições, mas rejeitam todo culto exterior;

     10 - os espiritualistas sem sistema, que não pertencem, por convicção, à nenhum culto, sem repelir nenhum, mas que não têm qualquer idéia assentada sobre o futuro;

     11 - os crentes progressistas, ligados a um culto determinado, mas que admitem o progresso na religião e o acordo das crenças com o progresso das ciências;

     12 - os crentes não satisfeitos, nos quais a fé é indecisa ou nula, sob os pontos de dogma, que não satisfazem completamente a sua razão, atormentada pela dúvida;

     13 - os incrédulos por falta de melhor, dos quais a maior parte passou da fé à incredulidade e à negação de tudo, por não terem encontrado nas crenças com que foram embalados uma sanção satisfatória para a sua razão, mas nos quais a incredulidade deixa um vazio penoso, que se sentiriam felizes de poder enchê-lo;

     14 - os livres pensadores, nova denominação pela qual se designam os que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se julgam ligados pelo culto em que o nascimento os colocou sem seu consentimento, nem obrigados à observação de práticas religiosas quaisquer. Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; pode aplicar-se a todas as nuanças do espiritualismo racional, tanto quanto à mais absoluta incredulidade. Toda crença eclética pertence ao livre pensamento; todo homem que não se guia pela fé cega e, por isto mesmo, livre pensador. A este título os Espíritas também são livres pensadores.

     Mas para os que podem ser chamados os radicais do livre pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, por assim dizer, exclusiva; para estes, ser livre pensador é não crer apenas no que vê: é não crer em nada; é libertar-se de todo freio, mesmo do medo de Deus e do futuro; a espiritualidade é um aborrecimento e não a querem. Sob este símbolo da emancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de materialista e de ateu tem de repulsivo para a opinião das massas; e, coisa singular, é quanto ao nome deste símbolo, que parece ser o da tolerância por todas as opiniões, lançam a pedra a quem quer que não pense como eles. Há, pois, uma distinção essencial a fazer entre os que se dizem livres pensadores, como entre os que se dizem filósofos. Eles se dividem naturalmente, em: Livres pensadores incrédulos, que entram na 5ª categoria; livres pensadores crentes, que pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional;

     15 - os Espíritas por intuição, aqueles em quem as idéias espíritas são inatas e que as aceitam como uma coisa que lhes não é estranha.

     Tais são as camadas de terreno que o Espiritismo deve atravessar. Lançando um olhar sobre as diversas categorias acima, é fácil ver aquelas junto às quais há um acesso mais ou menos fácil e aquelas contra as quais ele se choca como a picareta contra o granito. Não triunfará destes senão com a ajuda dos novos elementos, que a renovação trará à Humanidade: esta é a obra daquele que dirige tudo e que faz surgirem os acontecimentos, de onde deve sair o progresso.

     Dentre essas categorias, vê-se que a parte refratária, por sua natureza, abarca mais ou menos a metade da população. Como ela possui a audácia e a força material, não se limita a uma resistência passiva: é essencialmente agressiva; daí uma luta inevitável e necessária. Mas esse estado de coisas só um tempo pode ter, porque o passado se vai e vem o futuro. Ora, o Espiritismo marcha com o futuro.

     É, pois, na outra metade que o Espiritismo se deve recrutar, e o campo a explorar é bastante vasto; é aí que deve concentrar seus esforços e que verá seus limites se ampliarem. Entretanto esta metade ainda está longe de ser inteiramente simpática; ele aí encontra resistências opiniáticas, mas não insuperáveis, como na primeira, da qual a maior parte é devida a prevenções que se apagam, à medida que o objetivo e as tendências da doutrina forem melhor compreendidas, e desaparecerem com o tempo. Se se pode admirar de uma coisa é que, malgrado a multiplicidade dos obstáculos que ele encontra, dos embustes que lhe apresentam, tenha ele podido chegar em alguns anos ao ponto em que hoje chegou.

     Um outro progresso não menos evidente é o da atitude da oposição. Além dos insultos lançados de tempos em tempos à outra parte por uma plêiade de escritores sempre mais ou menos os mesmos, que não vêem em parte alguma senão matéria para rir, que riram mesmo de Deus, e cujos argumentos se limitam a dizer que a humanidade marcha para a demência, muito surpreendidos que o Espiritismo tenha marchado  sem sua permissão, é muito raro ver a doutrina posta à parte numa polêmica séria e seguida.  

     Os ataques a céu aberto tornaram-se mais raros, porque reconheceram a sua inutilidade; mas não desesperam de triunfar com o auxílio de manobras tenebrosas. Longe de dormir numa enganadora segurança, mais que nunca é preciso desconfiar dos falsos irmãos que se insinuam em todas as reuniões para espiar e, a seguir, deformar o que aí se diz e se faz; que semeiam sub-repticiamente elementos de desunião que, sob a aparência de um zelo fictício e, por vezes, interessado, procuram empurrar o Espiritismo para fora das vias da prudência, da moderação e da legalidade; que provocam em seu nome atos repreensíveis aos olhos da lei. Não tendo conseguido torná-lo ridículo porque, por sua essência, é uma coisa séria, os esforços tendem a comprometê-lo, para o tornar suspeito à autoridade e provocar contra ele e os seus aderentes medidas rigorosas. Desconfiemos, pois, dos beijos de Judas e dos que nos querem abraçar para nos sufocar.

     O que fazer nestas circunstâncias? Uma coisa muito simples: fechar-se nos estritos limites dos preceitos da doutrina; esforçar-se em mostrar o que ela é por seu próprio exemplo e declinar de toda solidariedade com o que pudesse ser feito em seu nome e que fosse de natureza a desacreditá-lo, porque não seria este o caso de adeptos sérios e convictos. Não basta dizer-se Espírita; aquele que o é de coração prova-o por seus atos. Não pregando a doutrina senão o bem, o respeito às leis, a caridade, a tolerância e a benevolência para todos; repudiando toda violência feita à consciência de outrem, todo charlatanismo, todo pensamento interessado no que concerne as relações com os Espíritos e todas as coisas contrárias à moral evangélica, aquele que não se afasta da linha traçada nem pode incorrer em censuras fundadas, nem em perseguições legais. Mais ainda, quem quer que tome a doutrina como regra de conduta, não pode senão conciliar a estima e a consideração das pessoas imparciais. Diante do bem a própria incredulidade trocista se inclina e a calúnia não pode sujar o que está sem mancha. É nessas condições que o Espiritismo atravessará as tempestades que serão amontoadas em sua estrada e que sairá triunfante de todas as lutas. (Allan Kardec - R. E. 1867).

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