OLHAR
RETROSPECTIVO
Quando uma coisa está certa e é chegado o momento
de sua eclosão, ela marcha a despeito de tudo. A força de ação do
Espiritismo é atestada por sua persistente expansão, malgrado os poucos
esforços que faz para se expandir. Há um fato constante: é que
os
adversários do Espiritismo consumiram mil vezes mais força para o abater, sem
o conseguir, do que seus partidários para o propagar. Ele avança, por
assim dizer, só, semelhante a um curso d’água que se infiltra através das
terras, abre uma passagem à direita, se o barram à esquerda, e pouco a pouco
mina as pedras mais duras e acaba por fazer desabarem montanhas.
Um fato notório é que, em
seu conjunto, a marcha do Espiritismo não sofreu nenhuma parada; ela pode
ter sido entravada, comprimida, diminuída nalgumas localidades por influências
contrárias; mas, como dissemos, a corrente, barrada num ponto, se divide numa
porção de filetes. Entretanto, à primeira vista, dir-se-ia que sua marcha é
menos rápida do que o foi nos primeiros anos. Há que inferir-se que o
abandonam? que encontra menos simpatias? Não: simplesmente que o trabalho que
ele realiza neste momento é diferente e, por sua natureza, menos ostensivo.
Esta fase é caracterizada por sinais inequívocos.
Examinando a situação, torna-se evidente que a idéia ganha terreno dia a dia,
aclimata-se; encontra menos oposição; riem menos e os mesmos que ainda não a
aceitam, começam a lhe conceder foros de cidade entre as opiniões. Os
Espíritas já não são mostrados a dedo, como outrora, e considerados como
animais curiosos. É o que constatam sobretudo os que viajam. Por toda a parte
encontram mais simpatia ou menos antipatia pela coisa. Não se pode negar que
não haja nisto um progresso real.
Para compreender as facilidades e as dificuldades
que o Espiritismo encontra em seu caminho, há que se representar a diversidade
das opiniões, através das quais deve abrir passagem. Jamais se impondo pela
força ou pelo constrangimento, mas só pela convicção, ele encontrou uma
resistência mais ou menos grande, conforme a natureza das convicções
existentes, com as quais podia assimilar-se mais ou menos facilmente, das quais
umas o receberam de braços abertos, enquanto outras o repelem com obstinação.
1 - os
fanáticos de todos os cultos;
2 - os
crentes satisfeitos, com convicções
absolutas, fortemente estacados e sem restrições, posto que sem o
fanatismo, sobre todos os pontos do culto que professam e com o qual estão
satisfeitos. Esta categoria compreende, também, as seitas que, por isso mesmo
que abriram cisão e operaram reformas, se
julgam de posse de toda a verdade, e, por vezes, são mais absolutas do que
as religiões mães;
3 - os
crentes ambiciosos, inimigos das
idéias emancipadoras, que lhes poderiam fazer perder o ascendente que
exercem sobre a ignorância;
4 - os
crentes pela forma que, por
interesse, simulam uma fé que não têm, e quase sempre se mostram mais
rígidos e mais intolerantes do que os religiosos sinceros;
5 - os
materialistas por sistema, que se
apóiam numa teoria raciocinada e na qual muitos estariam contra a
evidência, por orgulho, para não
confessar que puderam enganar-se; em maioria, são tão absolutos e
intolerantes em sua incredulidade quanto os fanáticos religiosos em sua
crença;
para
não ver;
7 - os
despreocupados, que vivem ao dia a
dia, sem se preocupar com o futuro. Em maioria não saberiam dizer se são
espiritualistas ou materialistas; para
eles o presente é a única coisa séria;
8 - os
panteístas, que não admitem uma divindade pessoal, mas um princípio
espiritual universal, no qual se confundem as almas, como as gotas d’água no
oceano, sem conservar sua individualidade. Esta opinião é um primeiro passo
para a espiritualidade e, por conseqüência, um progresso sobre o materialismo.
Posto que um pouco menos refratários às idéias espíritas, os que a professam são, em geral, muito absolutos, porque neles é
um sistema preconcebido e raciocinado e muitos não se dizem panteístas senão
para não se confessarem materialistas. É uma concessão que fazem às idéias
espíritas para salvar as aparências;
9 - os
deístas, que admitem a personalidade de um Deus único, criador e soberano
senhor de todas as coisas, eterno e infinito em todas as suas perfeições, mas rejeitam
todo culto exterior;
10 - os
espiritualistas sem sistema, que não pertencem, por convicção, à nenhum
culto, sem repelir nenhum, mas que não
têm qualquer idéia assentada sobre o futuro;
11 - os
crentes progressistas, ligados a um culto determinado, mas que admitem o progresso na religião e o acordo das crenças com
o progresso das ciências;
12 - os
crentes não satisfeitos, nos quais a
fé é indecisa ou nula, sob os pontos de dogma, que não satisfazem
completamente a sua razão, atormentada pela dúvida;
13 - os incrédulos por falta de melhor,
dos quais a maior parte passou da fé à
incredulidade e à negação de tudo, por não terem encontrado nas crenças
com que foram embalados uma sanção satisfatória para a sua razão, mas nos
quais a incredulidade deixa um vazio penoso, que se sentiriam felizes de poder
enchê-lo;
14 - os
livres pensadores, nova denominação pela qual se designam os que não se
sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade,
que não se julgam ligados pelo culto em que o nascimento os colocou sem seu
consentimento, nem obrigados à observação de práticas religiosas quaisquer.
Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; pode aplicar-se
a todas as nuanças do espiritualismo racional, tanto quanto à mais absoluta
incredulidade. Toda crença eclética pertence ao livre pensamento; todo homem
que não se guia pela fé cega e, por isto mesmo, livre pensador.
A
este título os Espíritas também são livres pensadores.
Mas para os que podem ser chamados os radicais do
livre pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, por assim
dizer, exclusiva; para estes, ser livre pensador é não crer apenas no que vê:
é não crer em nada; é libertar-se de todo freio, mesmo do medo de Deus e do
futuro; a espiritualidade é um aborrecimento e não a querem. Sob este símbolo
da emancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de
materialista e de ateu tem de repulsivo para a opinião das massas; e, coisa
singular, é quanto ao nome deste símbolo, que parece ser o da tolerância por
todas as opiniões, lançam a pedra a quem quer que não pense como eles. Há,
pois, uma distinção essencial a fazer entre os que se dizem livres pensadores, como entre os que se dizem filósofos. Eles se dividem naturalmente, em: Livres pensadores
incrédulos, que entram na 5ª categoria; livres pensadores crentes, que
pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional;
15 - os
Espíritas por intuição, aqueles em
quem as idéias espíritas são inatas e que as aceitam como uma coisa que
lhes não é estranha.
Tais são as camadas de terreno que o Espiritismo
deve atravessar. Lançando um olhar sobre as diversas categorias acima, é
fácil ver aquelas junto às quais há um acesso mais ou menos fácil e aquelas
contra as quais ele se choca como a picareta contra o granito. Não triunfará
destes senão com a ajuda dos novos
elementos, que a renovação trará à Humanidade: esta é a obra daquele
que dirige tudo e que faz surgirem os acontecimentos, de onde deve sair o
progresso.
Dentre essas categorias, vê-se que a parte
refratária, por sua natureza, abarca mais ou menos a metade da população.
Como ela possui a audácia e a força material, não se limita a uma
resistência passiva: é essencialmente agressiva; daí uma luta inevitável e
necessária. Mas esse estado de coisas só um tempo pode ter, porque o passado
se vai e vem o futuro. Ora, o Espiritismo marcha com o futuro.
Um outro progresso não menos evidente é o da
atitude da oposição. Além dos insultos lançados de tempos em tempos à outra
parte por uma plêiade de escritores sempre
mais ou menos os mesmos, que não vêem em parte alguma senão matéria para
rir, que riram mesmo de Deus, e cujos argumentos se limitam a dizer que a
humanidade marcha para a demência, muito surpreendidos que o Espiritismo tenha
marchado sem sua permissão, é
muito raro ver a doutrina posta à parte numa polêmica séria e seguida.
Os ataques a céu aberto tornaram-se mais raros,
porque reconheceram a sua inutilidade; mas não desesperam de triunfar com o
auxílio de manobras tenebrosas. Longe de dormir numa enganadora segurança,
mais que nunca é preciso desconfiar dos falsos irmãos que se insinuam em todas
as reuniões para espiar e, a seguir, deformar o que aí se diz e se faz; que
semeiam sub-repticiamente elementos de desunião que, sob a aparência de um
zelo fictício e, por vezes, interessado, procuram empurrar o Espiritismo para
fora das vias da prudência, da moderação e da legalidade; que provocam em seu
nome atos repreensíveis aos olhos da lei. Não tendo conseguido torná-lo
ridículo porque, por sua essência, é uma coisa séria, os esforços tendem a comprometê-lo,
para o tornar suspeito à autoridade e provocar contra ele e os seus aderentes
medidas rigorosas. Desconfiemos, pois, dos beijos de Judas e dos que nos querem
abraçar para nos sufocar.
O que fazer nestas circunstâncias? Uma coisa muito simples: fechar-se nos
estritos limites dos preceitos da doutrina; esforçar-se em mostrar o que ela é
por seu próprio exemplo e declinar de toda solidariedade com o que pudesse ser
feito em seu nome e que fosse de natureza a desacreditá-lo, porque não seria
este o caso de adeptos sérios e convictos.
Não
basta dizer-se Espírita; aquele que o é de coração prova-o por seus atos.
Não pregando a doutrina senão o bem, o respeito às leis, a caridade, a
tolerância e a benevolência para todos; repudiando toda violência feita à
consciência de outrem, todo charlatanismo, todo pensamento interessado no que
concerne as relações com os Espíritos e todas as coisas contrárias à moral
evangélica, aquele que não se afasta da linha traçada nem pode incorrer em
censuras fundadas, nem em perseguições legais. Mais ainda, quem quer que tome
a doutrina como regra de conduta, não pode senão conciliar a estima e a
consideração das pessoas imparciais. Diante do bem a própria incredulidade
trocista se inclina e a calúnia não pode sujar o que está sem mancha. É
nessas condições que o Espiritismo atravessará as tempestades que serão
amontoadas em sua estrada e que sairá triunfante de todas as lutas. (Allan
Kardec - R. E. 1867).