OS
TRÊS TIPOS
“Aqui no vosso mundo inferior, o interesse, o egoísmo e o orgulho abafam a generosidade, a caridade e a simplicidade. Os interesse e o egoísmo são os dois gênios maus do financista e de novo-rico; o orgulho é o vício do que sabe, e, principalmente, do que pode. Quando um coração verdadeiramente pensador examina esses três vícios horríveis, sofre; porque - tende a certeza - o homem que pensa sobre o nada e sobre a maldade deste mundo é, em geral, uma criatura cujos sentimentos e instintos são delicados e caridosos. E, bem o sabeis, os delicados são infelizes, como já disse La Fontaine, que esqueci de pôr ao lado de Molière. Só os delicados são infelizes, porque sentem.
Hamlet
é a personificação dessa parte infeliz da humanidade, que sofre e chora
sempre e que se vinga, vingando a Deus e a moral. Hamlet
teve que castigar vícios vergonhosos em sua família: o orgulho e a luxúria,
isto é, o egoísmo. Essa alma terna e melancólica, aspirando a verdade,
empanou-se ao sopro do mundo, como um espelho que não pode mais refletir o que
é bom e o que é justo. E essa alma tão pura derramou o sangue de sua mãe e
vingou a sua honra. Hamlet é a
inteligência impotente, o pensamento profundo, lutando contra o orgulho
estúpido e contra a impudicícia materna. O homem que pensa e que vinga um
vício da Terra, seja qual for, é culpado aos olhos dos homens, mas, muitas
vezes não o é aos olhos de Deus. Não penseis que eu queira idealizar o
desespero: eu fui bastante castigado, mas há tanta névoa ante os olhos do
mundo!”
“Para voltar ao nosso cursinho de literatura, muito familiar, Don Juan é, como já tive a honra de vos dizer, o tipo mais perfeitamente pintado de gentil-homem corrupto e blasfemo. Molière o elevou até o drama, porque, na verdade, a punição de Don Juan não devia ser humana, mas divina. É pelos golpes inesperados da vingança celeste que tombam as cabeças orgulhosas. O efeito é tanto mais dramático quanto mais imprevisto.
Disse que Don Juan era um tipo; mas, na verdade, é um tipo raro. Porque, realmente, poucos homens se vêem dessa têmpera, de vez que quase todos são covardes; refiro-me à classe dos indiferentes e dos corruptos.
Muitos blasfemam; mas vos garanto que poucos ousam blasfemar sem medo. A consciência é um eco que lhes devolve a blasfêmia e a escutam tremendo de medo, embora se riam diante do mundo. São os que hoje se chamam os fanfarrões do vício. Esse tipo de libertino é numeroso nos vossos dias; mas estão muito longe de serem filhos de Voltaire.
Para voltar ao nosso assunto, Molière, como autor mais sábio, e observador mais profundo, não só castigou os vícios que atacam a humanidade, como os que ousam dirigir-se a Deus.
Vimos até agora dois tipos: um generoso infeliz, outro feliz para o mundo, mas miserável aos olhos de Deus. Resta-nos ver o mais feio, o mais ignóbil, o mais repugnante: refiro-me a Tartufo.
Na Antigüidade, a máscara da virtude já era medonha, porque, sem se haver depurado pela moral cristã, o paganismo também tinha virtudes e sábios. Mas diante do altar do Cristo, essa máscara é ainda mais feia, por ser a do egoísmo e da hipocrisia. Talvez o paganismo tenha tido menos Tartufos do que a religião cristã. Explorar o coração do homem sábio e bom, lisonjear todas as suas ações, enganar as pessoas confiantes por uma aparente piedade, levar a profanação até receber a Eucaristia com o orgulho e a blasfêmia no coração, eis o que faz Tartufo, o que fez e o que fará, sempre.
Ó
vós, homens imperfeitos e mundanos que condenais um príncipe divino e uma
moral sobre-humana, porque dela quereis abusar, estais cegos quando confundis os
homens com aquele príncipe, isto é, Deus com a humanidade. É porque esconde
as suas torpezas sob o manto sagrado, que Tartufo é horrível e repugnante. Maldição sobre ele, porque ele
amaldiçoaria quando fosse perdoado e meditaria uma traição quando pregasse a
caridade. (Espírito de Gérard de Nerval - R. E. 1861)
Nota do compilador: Gerard de Nerval (Gérard Labrunie) - 1808-1855 - Escritor e poeta francês, sensível e atormentado; “Sujeito a crises de demência, foi encontrado enforcado”; Traduziu “Fausto” de Goethe.
(1) - Shakespeare (William) - 1564-1616 - dramaturgo e poeta inglês. Sua obra é imensa e extraordinária. Autor de inúmeras obras dramáticas, dentre as quais Hamlet, Otelo, Macbeth e Rei Lear. Seu teatro assombra pela variedade e pelo vigor do estilo, pela profusão de personagens e sua diversidade social e psicológica, e pela maestria da construção dramática. (2) - Molière (Jean Baptiste Poquelin) - 1622-1673 - Mestre do teatro. Suas obras-primas são as peças em que, combatendo um vício da alma ou uma extravagância do espírito, construiu personagens que se tornaram tipos eternos. A lição de moral que se tira de seu teatro é uma recomendação ao homem para que nunca ultrapasse a medida e permaneça nos limites que o bom senso fixa à natureza humana. “Don Juan e Tartufo, o burguês", são duas de suas inúmeras peças. (3) - La Fontaine (Jean de La Fontaine) - 1621-1695. Suas fábulas, inspiradas em Esopo, Fedro e em outros modelos, mostram vidas intensas em tom agradável. Enriqueceu os preceitos tradicionais.