O PAPEL               

     Falei do lápis e do charlatanismo, mas ainda não falei do papel. Sem dúvida é que me reservava para o fazer esta noite.

     Ah! como eu queria ser papel; não quando ele se avilta a fazer o mal, mas, ao contrário, quando preenche seu verdadeiro papel, que é o de fazer o bem! Com efeito, o papel é o instrumento que, de concerto com o lápis, aqui e ali semeia nobres pensamentos do espírito. O papel é o livro aberto onde cada um pode colher com o olhar os conselhos úteis à sua viagem terrena!...

     Ah! como gostaria de ser papel, a fim de, como ele fazer o papel de moralizador e de instrutor, dando a cada um o encorajamento necessário para suportar com bravura os males que, tantas vezes, são causa de vergonhosas fraquezas!...

     Ah! se eu fosse papel aboliria todas as leis egoístas e tirânicas, para não deixar radiar senão as que proclamam a igualdade. Só queria falar de amor e de caridade. Queria que todos fossem humildes e bons, que o mal se tornasse melhor, que o orgulhoso se tornasse humilde, que o pobre se tornasse rico, que a igualdade enfim surgisse e, em todas as bocas, fosse como a expressão da verdade e não a esperança de ocultar o egoísmo e a tirania que possuem no coração.

     Se eu fosse papel, queria ser branco para a inocência, verde para o que não tem esperança de alívio aos seus males. Queria ser de ouro nas mãos do pobre, de felicidade nas mãos do aflito, de bálsamo nas do doente. Queria ser o perdão de todas as ofensas. Não condenaria, não maldiria, não lançaria anátemas; não criticaria com malevolência; nada diria que pudesse prejudicar a alguém. Enfim, faria o que fazeis: apenas ensinar o bem e falar desta bela doutrina que vos reúne a todos e sob todas as formas. Professaria sempre esta sublime máxima: Amai-vos uns aos outros.

     Aquele que gostaria de voltar à Terra, não charlatão, não para vender apenas lápis, mas para a isto juntar a venda de papel e que diria a todos: o lápis não pode ser útil sem o papel e o papel não dispensa o lápis. (Espírito de Mangin - R. E. 1867).

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