PERFECTIBILIDADE
DOS ESPÍ
Se os Espíritos ou almas se melhoram
indefinidamente, conforme o Espiritismo, devem tornar-se infinitamente
aperfeiçoados ou puros. Chegados a esse grau, porque não são iguais a Deus?
- O homem é uma criatura realmente
singular! Sempre acha o seu horizonte muito limitado. Quer tudo compreender,
tudo captar, tudo conhecer! Quer penetrar o insondável e despreza o estudo do
que lhe toca imediatamente; quer compreender Deus, julgar os seus atos,
fazê-lo, justo ou injusto; disse como se queria que ele fosse, sem suspeitar
que ele é tudo isto e mais ainda!... Mas, verme miserável algum dia
compreendeste de modo absoluto algo do que te cerca? Sabes por que lei a flor se
colora e se perfuma aos beijos vivificantes do sol? Sabes como nasces, como
vives e porque teu corpo morre?... - Tu vês fatos, mas as causas para ti ficam
envoltas num véu impenetrável e querias julgar o princípio de todas as
coisas, a causa primeira, Deus enfim! - Há muitos outros estudos mais
necessários ao desenvolvimento de teu ser, que merecem toda a tua atenção!...
Quando resolves um problema de
álgebra não vais do conhecido para o desconhecido e, para compreender Deus,
esse problema insolúvel desde tantos séculos, queres dirigir-te a ele
diretamente! Então tendes todos os elementos necessários para estabelecer uma
tal equação? Não te falta algum documento para julgar teu criador em última
instância? Não vais crer que o mundo seja limitado a esse grão de poeira,
perdido na imensidade do espaço, onde te agitas mais imperceptível que o menor
dos infusórios de que o universo é uma gota d’água? - Contudo, raciocinemos
e vejamos porque, conforme teus conhecimentos atuais, Deus seria injusto não se
deixando jamais atingir por sua criatura.
Em todas as ciências há axiomas ou
verdades irrecusáveis, que se admitem como bases fundamentais. As ciências
matemáticas e, em geral, todas as ciências, são baseadas no axioma de que a
parte jamais poderia igualar o todo. O homem, criatura de Deus, segundo esse
princípio, jamais poderia atingir aquele que o criou.
Suponde que um indivíduo tenha que
percorrer uma estrada de extensão infinita. De uma extensão infinita, pesai bem a expressão. Aí está a posição do
homem em relação a Deus, considerado o seu fim.
Dir-me-eis que, por pouco que se marche, a soma dos
anos e dos séculos de marcha permitirá atingir o fim. É erro!... O que
fizerdes em um ano, um século, um milhão de séculos, será sempre uma
quantidade finita e, assim, por diante. Ora, para o mais noviço matemático,
uma soma de quantidades finitas jamais formará uma quantidade infinita. O
contrário seria absurdo e, neste caso, poderia medir-se o infinito, o que o
faria perder a sua qualidade de infinito. - O homem progredirá sempre e
incessantemente, mas em quantidade finita; a soma de seus progressos não será
jamais senão de uma perfeição finita, que não poderia atingir a Deus, o
infinito em tudo. Não há, pois, injustiça da parte de Deus em que suas
criaturas jamais o possam igualar. A natureza de Deus é um obstáculo
intransponível a um tal fim do Espírito; sua justiça não poderia permiti-lo,
porque se um Espírito atingisse a Deus, seria o próprio Deus. Ora, se dois
Espíritos são tais que tenham ambos o mesmo poder infinito em todos os
respeitos e um seja idêntico ao outro, confundem-se num só e não haverá mais
que um Deus. Um deveria, pois, perder a sua individualidade, o que seria uma
injustiça muito mais evidente do que não poder atingir um fim infinitamente
distanciado, mesmo dele se aproximando constantemente. Deus faz bem o que faz e
o homem é demasiadamente pequeno para se permitir pesar as suas decisões.
(Espírito Moki - Revista Espírita 1866).
Obs. de Kardec: “Se há um mistério insondável para o homem, é o princípio e o fim de todas as coisas. A visão do infinito lhe dá vertigem. Para o compreender, são necessários conhecimentos e um desenvolvimento intelectual e moral, que está longe de possuir ainda, malgrado o orgulho que o leva a julgar-se chegado ao topo da escala humana. Em relação a certas idéias, ele está na posição de uma criança que quisesse fazer cálculo diferencial e integral, antes de saber as quatro operações. À medida que avançar para a perfeição, seus olhos abrir-se-ão à luz, e a névoa que os cobre dissipar-se-á. Trabalhando seu melhoramento presente, chegará mais cedo do que se perdendo em conjecturas”.