QUANDO O
HOMEM ORA
Quando o homem ora contritamente, arrebenta as amarras que o retém à fragilidade do barro orgânico e ascende aos Cimos da Vida, donde fluem as providências da Misericórdia Divina, banhando-se interiormente nos rios infinitos da graça. Impregna-se de esperança e antevê os dias do porvir risonho que o aguarda, após vencida a batalha ingente contra as torpezas que o limitam e jungem à dor. Descobre a antemanhã do espírito e considera as mesquinhas concessões da Terra, superando com júbilo os ditames das paixões. Verifica que as dificuldades e os espinhos, as incompreensões que padece no vero ideal não merecem maiores considerações nem mais acerbas agonias. Sente a paixão pelo dever e roga aos excelsos embaixadores do Reino que lhe concedam a honra de resgatar, suplicando sejam antecipadas muitas das dívidas, de modo a que mais rápida e facilmente sejam elas liberadas, a fim de gozar a perene primavera que vislumbra. Enxerga e compreende o desvalor das coisas realmente insignificantes que o inquietam e o espezinham, bagatelas da caminhada humana que então passa a desconsiderar. Sobrepõe-se, então, às frivolidades, às dores, aos engodos, às ambições desvairadas e somente o ardor pela liberdade aciona-lhe as peças da engrenagem do sentimento e da inteligência, para conquistar a glória do bem...
Quando o homem ora verdadeiramente vinculado ao espírito da prece, penetra-se de indescritíveis emoções transcendentes, desenovelando-se dos fios pesados da vestidura física, e abandona a carapaça das construções mentais habituais, nas quais experimenta asfixia e angústia, para flutuar nas esferas da Luz. Longe de toda sombra e além de todo receio, bendiz as circunstâncias constrangedoras de sofrimento e pena em que se encontra; agradece o buril lancinante que o macera em forma de ingratidões de pessoas queridas e calúnias em lábios amados; perdoa o inimigo gratuito que lhe surge à frente, no caminho, passando a ver nele um auxiliar da sua regeneração; desculpa o perseguidor que investe prepotente contra as suas melhores construções, nele encontrando um fiscal severo, que é o amigo ignorado a precipitá-lo para a permanência na correção dos atos e na lealdade do dever. Modificando-se-lhe, dessa forma, os painéis do quotidiano, sob a forte luz da Imortalidade...
Quando o homem ora, anseia partir da Terra, mas
compreende, também, que ela é sua mãe generosa, berço do seu progresso e
local da sua aprendizagem.
Reconhecido, então, a esse colo de generosidade, não se abrasa pelo egoísmo,
relegando-a ao desprezo ou ao abandono... Mesmo elevando-se, eleva-a, e retorna
para ajudá-la, contribuindo pelo seu e pelo progresso dos que nela ainda jazem
na ignorância, dos que transitam para a inteligência e daqueles que voam para
a angelitude. Orando, o homem se integra no espírito da vida e o amor domina-o,
fazendo que retorne à esfera das atividades refeito e renovado, para
entregar-se ao amor.
O homem espiritual, santo ou apóstolo do bem, o
missionário da compaixão ou esteta da beleza, o sacerdote da ciência ou
herói da renúncia, o embaixador das artes ou prócer da indústria, o
benemérito da Humanidade ou mestre do pensamento, evadiam-se das refregas,
constantemente, viandando pelas estradas luminosas da oração em busca das
nascentes da inspiração, para suportarem as dificuldades e prosseguirem
robustos na defesa dos elevados objetivos a que se entregavam em total regime da
abnegação, e retornavam revigorados e rejuvenescidos, mais integrados no
espírito do ideal, fazendo-se mais fortes quando aparentemente vencidos e mais
arrebatados quando as conspirações pareciam destroçá-los, dando-lhes vigor
para o labor em prol da Humanidade - a perene paixão de todos eles!
Orando, Jesus venceu as dores do mundo e suportou o
fardo dos homens.
Através da prece, o homem sintoniza com os anjos e ouve-lhes os murmúrios canoros... (Espírito de Victor Hugo - Obra: Párias em Redenção).