O REFÚGIO DO POBRE
“O Senhor se fez o refúgio
do pobre: Ele vem em seu socorro na ocasião da necessidade e no tempo da
tribulação.”
Não há em toda a Bíblia mais
resplendente verdade do que esta.
“O Senhor se fez o refúgio do
pobre.”
Só quando somos pobres de alegrias ou de
bens, conhecemos a grandeza de Deus e a consolação de nos refugiar na
sua crença e no seu amor.
Conhece melhor o pobre a bondade do
Senhor, dentro do seu sofrimento e da sua desgraça, do que o rico a quem Ele
permitiu o gozo dos bens terrenos, ou o feliz a quem Ele agraciou com a sua
generosidade.
No gozo da felicidade ninguém se
lembra de Deus; mas, no amarguramento da dor, não há ateu que resista à
necessidade para sua alma, de procurar n’Aquele Ente misterioso, e em que crê
não crer, o alívio para a pena que o tortura.
O pobrezinho a quem falta o pão e o
agasalho; a mãe a quem falta o filho, que é a alegria e o bem da sua vida; a
esposa a quem falta o esposo; o rico a quem uma especulação intimida; o doente
a quem uma dor avassala; o filho a quem morrem os pais carinhosos; enfim todos
os que são tomados de uma sentimento de intensa amargura, a sua primeira
idéia, o seu primeiro anseio e a sua maior esperança é refugiarem-se no
Senhor. Não há nenhum homem ateu no foro íntimo da sua consciência, ao ver
esvair-se a vida a um entezinho querido a quem muito ame e queira. Pode orar,
suplicar ou blasfemar; mas o que não fica é empedernido na sua descrença como
a mulher de Lot na sua curiosidade. Se este homem é bom e se lamenta, recorre
involuntariamente, nos estos1 da sua dor, ao Deus que na sua felicidade negava.
Pode, na sua súplica, fazer a
evocação duvidosa de “Se existes, tem piedade de mim”, mas refugia-se n’Ele,
quando já todas as coisas terrenas e materiais lhe negam a consolação, ou lhe
afastam a esperança.
Não há
dor, por maior e mais intensa
que seja, que se não dilua e atenue na súplica ao Senhor.
Ele é o refúgio derradeiro de todos
os infelizes, como a infelicidade é a pedra de toque de todos os corações. A
infelicidade é o mais alto pedestal a que sobe a alma humana para se aproximar
de Deus. Só podem alhear-se à idéia de Deus, aqueles a quem Ele, para provar,
deu os mais generosos dons na Terra. Esses é que o podem esquecer. Quem não
tenha esses dons, pode amá-lo ou blasfemar contra Ele; agora, o que jamais
fará é desconhecê-lo.
Se é simples e bom acolhe-se à sua
esperança; se é desesperado ou insofrido acusa-o do seu pesar ou da sua
miséria.
Em ambos os casos a sua amargura lhe
indicou Deus.
No primeiro refugia-se n’Ele e Ele
vem sempre em seu socorro. Quando mesmo o abandono parece mais manifesto, é
quando, muitas vezes, o amparo é mais bondoso e certo.
Quem pode apreciar aí a ação de
Deus, se não há homem que conheça a sua própria ação, nem o móbil do mais
insignificante ato da sua vida?
Quem pode abalançar-se a supor
justiça na sua observação sobre atos de que escapam, à sua análise e à sua
crítica, os antecedentes e os conseqüentes?
A razão humana, quando chega a um
fato ou a uma idéia que não pode sobrepujar, desvaira.
Envolve-a no mistério e apavora-se
dela; ou contesta-a, para não reconhecer a sua fraqueza em não atingir a sua
concepção.
Quando
não compreende não se limita a desconhecer, nega.
Não hesita em avançar pelo absurdo
desde que não seja violentada a capitular de ignorante.
Como é bem mais belo o sentimento!
Este adivinha onde aquela não distingue; ama onde aquela reflexiona; suplica
onde aquela maldiz; resigna-se onde aquela desespera; sente-se bem onde aquela
sofre.
Unidos, os dois equilibram o
organismo.
A primeira qualidade da razão devia
ser a razoabilidade.
Nos fatos de natureza psíquica,
quando a razão não atinja, deixe atuar o sentimento. Nos fatos de natureza
física onde o sentimento hesite, deixe funcionar a razão. A razão é, de sua
origem, fria e serena. Resultante da observação e do conhecimento adquirido,
deve limitar-se a buscar, pacientemente, novos pecúlios que a enriqueçam.
Negar o que não conhece é começar por negar-se a si própria, visto que tudo
quanto é, e tudo quanto sabe, foi sempre negado e repudiado. Ela representa a
soma de coisas que o sentimento, essa coisa vaga mas irresistível que impele o
progresso humano, arrancou ao desconhecido.
Que força é o sentimento? A fé, a
esperança, a tenacidade são faculdades da alma, são manifestações do
sentimento.
Quem viu jamais a fé, a esperança, a
tenacidade? Quem lhes conhece a forma ou a cor?
Quem as pesou ou mesurou? Ninguém.
Entretanto ninguém lhes pode negar a existência, nem desconhecer-lhes os
efeitos.
O
sentimento é a manifestação da alma, como a razão é a manifestação do
cérebro. A razão é o obreiro que a alma tem ao seu serviço. Obreiro
cego, obreiro material, curto de intelecto, se a alma lhe não orienta as
pesquisas, lhe não qualifica o trabalho, lhe não classifica as descobertas,
lhe não ilumina o esforço e lhe não recompensa o sacrifício. A cada um o seu
lugar.
A razão sem o sentimento conduz o
homem, nas coisas especulativas e espirituais, à dúvida, à descrença, à
impotência, à negação.
O sentimento sem a razão conduz, nas
coisas materiais, ao desfalecimento, à covardia, à inapetência absoluta; nas
coisas espirituais ao exagero, à superstição e à loucura.
No justo equilíbrio está a verdade.
Dê à razão a sua cota parte de
trabalho naquilo que, com propriedade, se possa submeter à frieza da sua
análise. Não queira ir onde a curteza da sua vista e do seu braço não possa
chegar; e deixe que o sentimento se lhe substitua onde só a acuidade da alma, a
previsão da esperança, o poder da fé podem alar-se.
A galinha e a águia têm ambas penas
e asas; mas nem a galinha pode voar, nem a águia viver na planície. Porque a
galinha não pode desferir o vôo não se segue que se lhe reconheça razão
para negar a existência do espaço, nem os alcândores e os píncaros das
serranias que parecem perfurar o céu, e aonde a águia vai e vive.
Insensivelmente propendi para um
assunto que só indiretamente vinha a pêlo2
do versículo que citei. É que, meu amigo, quando
nos encontramos aqui, há só uma coisa que impressiona toda a nossa razão e
toda a nossa filosofia: - a admiração de que haja quem negue a existência de
Deus e da alma.
O crente, na sua felicidade, lamenta o
descrente, e admira-se e espanta-se de que ele não creia numa coisa tão
simples, tão lógica e natural ao seu sentimento. O descrente arrepela-se e
maldiz-se por ter descrito e contestado uma coisa tão evidente e tão lógica,
como conseqüência da existência do homem, e de que tantas vezes, nos momentos
angustiosos e expectante do seu viver, teve rebate e pressentimento, que a sua
razão fria, ignorante e pretensiosa lhe obscureceu e afastou.
Voltando ao assunto inicial, para
terminar por hoje.
Toda pessoa bem formada e com a sua
razão e sentimento em justo equilíbrio, reconhece Deus e o ama. A razão
descobre que não pode existir manifestação sem causa. Que tudo quanto vê e
conhece é a manifestação. Não pode atingir a causa que origina essa
manifestação. A sua vista é finita; o raio do seu olhar é estreito. A sua
análise é incompleta, por isso. Deixe operar o sentimento. Deixe que a parte
espiritual do seu ser complete a análise. Então o sentimento encontrará a
causa de tudo, a origem de todas as manifestações. Essa causa é Deus. A
manifestação é a criação.
Compenetrando-se desta verdade, terá
afastado de si muito motivo de angústia e de sofrimento. Na hora minguada da
felicidade, louvará a Deus no justo gozo desse benefício; na hora eterna da
dor, louvá-lo-á na súplica à sua piedade. Buscará refúgio n’Ele contra as
agruras do mundo e de si próprio; e Ele virá sempre em seu socorro na ocasião
da necessidade e no tempo da tribulação.
A prece é o bálsamo que suaviza as
dores mais acendradas, e que dulcifica e atenua as angústias mais miserandas.
Na prece buscamos a esperança; na
prece fortalecemos a fé.
A prece é o caminho que nos leva ao
refúgio em Deus; e é o conduto por onde nos vem o amparo e a consolação.
A prece anima-nos nessa vida, e
guia-nos e prepara-nos para as outras.
A prece é o mais salutar pecúlio dos
pobres. E pobres somos nós todos; os
ricos e os pobres; os alegres e os tristes; os felizes e os desgraçados.
Somos
pobres, porque somos cegos; somos pobres, porque o nosso ser só na dor terá
correção.
“Levanta-te, Senhor Deus, eleve-se a
tua mão e não te esqueças dos pobres.”
Espírito
de Michelet - 24/12/1906 - Do País da Luz 1 - Médium: Fernando de Lacerda)
1 -
estos = ardor, efervescência. 2 -
a pêlo = a propósito
(Jules
Michelet, escritor e historiador francês (1798-1874). Liberal, professor do
Colégio de França. Foi adversário do governo. Autor de uma História da
Revolução Francesa, de História da França, A Mulher e O Mar). (Notas do
compilador).