RELIGIÃO
Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembléias religiosas deve ser a “comunhão de pensamentos”; é que, com efeito, a palavra “religião” quer dizer “laço”. Uma religião, em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que “religa” os homens numa comunidade de sentimentos, de princípio e de crenças. Consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É neste sentido que se diz: “a religião política”; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra “religião” não é sinônimo de “opinião”; implica uma idéia particular; a “de fé conscienciosa”; eis porque se diz também: “a fé política”. Ora, os homens podem envolver-se por interesse num partido, sem ter fé nesse partido, e a prova é que o deixam sem escrúpulo quando encontram seu interesse alhures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; persiste ao preço dos maiores sacrifícios e é a abnegação dos interesses pessoais que é a verdadeira pedra de toque da fé sincera. Contudo, se a renúncia a uma opinião, motivada pela interesse, é um ato de desprezível covardia, é, ao contrário, respeitável quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é, então, um ato de abnegação e de razão. Há mais coragem e grandeza em reconhecer abertamente que se enganou, do que persistir, por amor-próprio, no que se sabe ser falso e para não se dar um desmentido a si próprio, o que acusa mais teimosia do que firmeza, mais orgulho do que razão, e mais fraqueza do que força. E mais ainda: é hipocrisia, porque se quer parecer o que não se é; além disso é uma ação má, porque é encorajar o erro por seu próprio exemplo.
O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunidade de vistas e de sentimentos, “a fraternidade e a solidariedade”, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.
Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é
uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico o
Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a
doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não
sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da
natureza.
Por que, então, declaramos que o Espiritismo não
é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias
diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da
de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não
tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí
senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos
em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de
cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos
abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.
As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas
religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza
grave dos assuntos de que se ocupa; Pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces
que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto
as tomem por “assembléias religiosas”.
Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente
clara, e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada
idéia.
Qual é, pois, o laço que deve existir entre os
espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por
nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se devem confundir
todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo
humanitário: o da caridade para todos, ou, por outras palavras: o amor do
próximo, que compreende os vivos e os mortos, desde que sabemos que os mortos
sempre fazem parte da Humanidade.
A caridade é a alma do Espiritismo: ela resume
todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes; eis
porque se pode dizer que não há verdadeiro espírita sem caridade.
Mas a caridade é ainda uma dessas palavras de
sentido múltiplo, cujo inteiro alcance deve ser bem compreendido. E se os
Espíritos não cessam de a pregar e a definir, é que, provavelmente,
reconhecem que isto ainda é necessário.
Que é preciso, então, para praticar a caridade
benevolente? Amar ao próximo como a si mesmo: ora, se se amar ao próximo tanto
quanto a si, amar-se-o-á muito; agir-se-á para com outrem como se quereria que
os outros agissem para conosco; não se quereria fazer mal a ninguém, porque
não quereríamos que no-lo fizessem.
Amar ao próximo é, pois, abjurar todo o
sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de
vingança, numa palavra, todo desejo e todo pensamento de prejudicar; é perdoar
os inimigos e retribuir o mal com o bem; ser indulgente para as imperfeições
de seus semelhantes e não procurar a palha no olho do vizinho, quando não se
vê a trave no seu; é cobrir ou desculpar as faltas dos outros, em vez de se
comprazer em as pôr em relevo por espírito de aviltamento; é ainda não se
fazer valer à custa dos outros; não procurar esmagar a pessoa sob o peso de
sua superioridade; não desprezar ninguém por orgulho. Eis a verdadeira
caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual a caridade é palavra vã;
é a caridade do verdadeiro Espírita, como do verdadeiro cristão; aquela sem a
qual aquele que diz: “Fora da Caridade
não há salvação”, pronuncia sua própria condenação, tanto neste
quanto no outro mundo.
Crer
num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua
imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente;
na pluralidade das existência como meio de expiação, de reparação e de
adiantamento moral e intelectual; na perfectibilidade dos seres mais
imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na eqüitativa
remuneração do bem e do mal, conforme o
princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para
todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na
duração da expiação limitada pela imperfeição; no livre-arbítrio do
homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade
que liga o mundo visível ao invisível; na solidariedade que religa todos os
seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a
vida terrestre como transitória é uma das fases da vida do Espírito, que é
eterna; aceitar corajosamente as provações, em vista do futuro mais invejável
que o presente; praticar a caridade em pensamentos, palavras e obras na mais
larga acepção da palavra; esforçar-se cada dia para ser melhor que na
véspera, extirpando alguma imperfeição de sua alma; submeter todas as
crenças ao controle do livre exame e da razão e nada aceitar pela fé cega;
respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam e
não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da
ciência a revelação das leis da natureza, que são as leis de Deus: eis o “Credo,
a religião do Espiritismo”, religião que se pode conciliar com todos
os cultos, isto é, como todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve
unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que
ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.
Com a fraternidade, filha da caridade, os homens
viverão em paz e se pouparão males inumeráveis, que nascem da discórdia, por
sua vez filha do orgulho, do egoísmo, da ambição, do ciúme e de todas as
imperfeições da Humanidade.
Os Espíritos que nos rodeiam aqui são
inumeráveis, atraídos pelo objetivo que nos propusemos ao nos reunir, a fim de
dar aos nossos pensamentos a força que nasce da união. Demos aos que nos são
caros uma boa lembrança e o penhor de nossa afeição, encorajamento e
consolações aos que estão necessitados. Façamos de modo que cada um recolha
a sua parte dos sentimentos de caridade benevolente, de que estivermos animados,
e que esta reunião dê os frutos que todos têm o direito de esperar. (Allan
Kardec).