REVELAÇÃO ESPÍRITA II

     15 - Citemos um exemplo. No mundo dos Espíritos passa-se um fato muito singular, e que, seguramente, ninguém teria suspeitado: é o de Espíritos que não se julgam mortos. Ora! Os Espíritos superiores, que o conheciam perfeitamente, não vieram dizer por antecipação: “Há Espíritos que ainda crêem viver a vida terrena; que conservam os seus gostos, os hábitos e os instintos”. Mas provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria, para fazer que os observássemos. Tendo, pois, visto Espíritos incertos de seu estado, ou afirmando que ainda estavam neste mundo e crendo entregar-se às suas ocupações ordinárias, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade dos fatos análogos provou que não era uma exceção mas uma das fases da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; reconhecer que esta situação é própria sobretudo dos Espíritos pouco adiantados moralmente, e que é particular a certo gênero de morte; que é apenas temporária, mas pode durar dias, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Dá-se o mesmo com todos os outros princípios da doutrina.

     16 - Assim como a ciência, propriamente dita, tem por objetivo o estudo das leis do princípio material, o objetivo especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da natureza, que reage incessantemente sobre o princípio material, e reciprocamente, daí resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento do outro; que o Espiritismo e a ciência se completam mutuamente; que a ciência sem o Espiritismo se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; e que é por haver feito abstração do princípio espiritual que ela se deteve em tão numerosos impasses; que o Espiritismo sem a ciência estaria sem apoio e controle e poderia embalar ilusões. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria sido uma obra abortícia, como tudo quanto vem antes de seu tempo.

     17 - Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional. Nascem umas das outras, à medida que encontram um ponto de apoio nas idéias e conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras a ser cultivadas, ficou nos erros da infância até que a física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; nada podendo sem a física, a química devia sucedê-la de perto, para em seguida marchar de concerto, apoiando-se uma na outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia só se tornaram ciências sérias com o auxílio das luzes trazidas pela física e pela química. A geologia nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, não teria tido os seus verdadeiros elementos de vitalidade: só poderia vir depois.

     18 - a ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos Antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria. Mas a matéria, por si mesma, é inerte; não tem vida, nem pensamento, nem sentimento; é-lhe necessária a união com o princípio espiritual. O Espiritismo nem descobriu, nem inventou esse princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo por provas irrecusáveis; estudou-o, analisou-o e tornou evidente a sua ação. Ao elemento material veio juntar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis, de agora em diante, os dois princípios, as duas forças vivas na natureza. Pela união indissolúvel desses dois elementos, explica-se sem esforço uma porção de fatos até agora inexplicáveis. Por sua mesma essência, e como tendo por objetivo o estudo de um dos dois elementos constitutivos do universo, o Espiritismo forçosamente toca em várias partes das ciências. Ela não podia vir senão após a elaboração dessas ciências, e, sobretudo, depois que elas tivessem provado sua impossibilidade de tudo explicar só pelas leis da matéria.

     19 - Acusam o Espiritismo de aparentado com a magia e a feitiçaria; mas esquecem que a astronomia tem como irmã mais velha a astrologia judiciária, que não está tão afastada de nós; que a química é filha da alquimia, da qual nenhum homem sensato hoje ousaria ocupar-se. Contudo ninguém nega que, na astrologia e na alquimia, havia o germe das verdades de onde saíram as ciências atuais. A despeito de suas fórmulas ridículas, a alquimia pôs no caminho dos corpos simples e da lei das afinidades. A astrologia se apoiava na posição e no movimento dos astros que havia estudado. Mas, na ignorância das verdadeiras leis, que regem o mecanismo do universo, os astros eram para o vulgo seres misteriosos, aos quais a superstição emprestava uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton, Keppler deram a conhecer estas leis; quando o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas acharam indiscreto, os planetas nos apareceram como simples mundos, semelhantes ao nosso e se esboroaram todos os andaimes do maravilhoso.

     Dá-se o mesmo com Espiritismo em relação à magia e à feitiçaria. Estas também se apoiavam na manifestação dos Espíritos, como a astrologia no movimento dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, a estas relações misturavam práticas e crenças ridículas, às quais faz justiça o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação. Seguramente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior que a que existe entre a astronomia e a astrologia, a química e a alquimia. Querer confundi-las é provar que se ignora o á-bê-cê.

     20 - Só o fato da possibilidade de comunicação com os seres do mundo espiritual tem conseqüências incalculáveis, da mais alta importância. É todo um mundo novo que se revela e que tem tanto mais importância, quando atinge a todos os homens, sem exceção. Este conhecimento não pode deixar de trazer, ao se generalizar, uma profunda modificação nos costumes, no caráter, nos hábitos e nas crenças, que têm tamanha influência nas relações sociais. É toda uma revolução que se opera nas idéias, revolução tanto maior quanto mais poderosa, quando não fica circunscrita a um povo, a uma casta, mas, pelo coração, atinge a todas as classes, a todas as nacionalidades, a todos os cultos. É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado como a terceira grande revelação. Vejamos em que elas diferem e por que laço elas se ligam, uma à outra.

     21 - Como profeta, Moisés revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano senhor e criador de todas as coisas; ele promulgou a lei do Sinai e lançou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo, pelo qual essa fé primitiva, depurando-se, devia um dia espalhar-se por toda a terra.

     22 - O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, rejeitando o que apenas era transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescenta a revelação da vida futura, da qual Moisés não havia falado, e das penas e recompensas que esperam o homem depois da morte.

     23 - A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido em que ela é a fonte primeira, a pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista inteiramente novo, sob o qual faz encarar a divindade. Não é mais o Deus terrível, ciumento e vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que rega a terra com o sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga os que poupam as vítimas; não é mais o Deus injusto que pune todo um povo pela falta de seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que fere os filhos pela falta de seus pais, mas um Deus clemente, soberanamente bom e justo, cheio de mansuetude e de misericórdia, que perdoa o pecador arrependido e dá a cada um segundo as suas obras; não é mais o Deus de um só povo privilegiado, o Deus dos exércitos, presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra o Deus dos outros povos, mas um pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção a todos os seus filhos e os chama todos a si; não é mais o Deus que recompensa e castiga só pelos bens terrenos, que faz consistir a glória e a felicidade na escravização dos povos mais rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: “Vossa verdadeira pátria não é neste mundo, é no reino celeste; é lá que os humildes de coração serão elevados e os orgulhosos rebaixados”. Não é mais o Deus que faz da vingança uma virtude, ordena o olho por olho, dente por dente, mas o Deus de misericórdia, que diz: “Perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; fazei o bem pelo mal; não façais a outrem o que não quereis que vos façam”. Não é mais o Deus mesquinho e meticuloso, que impõe, sob as mais rigorosas penas, a maneira pela qual quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula, mas o Deus grande, que olha o pensamento e não se honra com a forma; enfim não é mais o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.

     24 - Sendo Deus o centro de todas as crenças religiosas, o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme à idéia que elas dão de Deus. As que dele fazem um Deus vingativo e cruel, crêem honrá-lo por atos de crueldade pelas fogueiras e torturas; as que dele fazem um Deus parcial e ciumento, são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, segundo o crêem mais ou menos manchado pelas fraquezas e pequenezes humanas.

     25 - Toda a doutrina do Cristo está fundada no caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, ele pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, e dizer: Aí estão toda a lei e os profetas; e não há outra. Apenas sobre esta crença pôde ele assentar o princípio da igualdade dos homens perante Deus, e da fraternidade universal. Esta revelação dos verdadeiros atributos da divindade, junta à da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impondo-lhes novas obrigações, fazendo-os encarar a vida presente sob uma outra luz. Era, por isto mesmo, toda uma revolução nas idéias e que, forçosamente devia reagir sobre os costumes e as relações sociais. Por suas conseqüências, é incontestavelmente o mais importante ponto da revelação do Cristo, e cuja importância ainda não foi suficientemente compreendida. É lamentável dizê-lo, é também aquele do qual mais se afastavam, que mais foi desconhecido na interpretação de seus ensinamentos.

     26 - Contudo o Cristo acrescenta: Muitas das coisas que vos digo não podeis compreender agora; e teria muitas outras a vos dizer que não compreenderíeis. É por isso que vos falo por parábolas. Mas mais tarde eu vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas. Se o Cristo não disse tudo o que poderia ter dito, é que julgou dever deixar certas verdades na sombra, até que os homens estivessem em estado de as compreender. Por isso sua confissão, seu ensino, então, era incompleto, desde que anuncia a vinda daquele que o deve completar. Assim, ele previa que se enganassem quanto às suas palavras, que desviassem o seu ensino, numa palavra, que desfizessem o que ele havia feito, desde que todas as coisas devem ser restabelecidas. Ora, só se restabelece o que foi desfeito.

     27 - Porque chama ele o novo Messias Consolador? Este nome significativo e sem ambigüidade é toda uma revelação. Então previa que os homens necessitariam de consolações, o que implica a insuficiência das que encontrasse na crença que iam adquirir. Talvez jamais o Cristo tenha sido mais claro e mais explícito do que nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas prestaram atenção, talvez porque tivessem evitado trazê-las à luz e aprofundar o seu sentido profético.

     28 - Se o Cristo não pôde desenvolver o seu reino de maneira completa, é que faltavam aos homens conhecimentos que só com o tempo poderiam adquirir, e sem os quais não podiam compreendê-lo. Há coisas que teriam parecido insensatas, no estado dos conhecimentos de então. Completar, pois, o seu ensino deve entender-se no sentido de explicar e de desenvolver, muito mais do que no de acrescentar verdades novas; porque ali tudo se encontra em germe. Faltava a chave para compreender o sentido das palavras.

     29 - Mas quem ousa interpretar as escrituras sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias senão os teólogos? Quem o ousa? Para começar a ciência, que a ninguém pede permissão para dar a conhecer as leis da natureza, e pula de pés juntos por cima dos erros e preconceitos. - Quem tem esse direito? No século da emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todos, e as Escrituras não mais são a arca santa na qual ninguém ousa tocar, sem o risco de ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar as dos teólogos e, por mais esclarecidos que estes fossem na idade média e, em particular os Pais da Igreja, contudo ainda não o eram bastante para não condenar como heresias o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e, sem ir tão longe, os dos nossos dias não lançaram anátema aos períodos da formação da Terra?

     Os homens não puderam explicar as Escrituras senão com o auxílio do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela ciência. Eis por que os próprios teólogos, de muito boa-fé, puderam equivocar-se quanto ao sentido de certas palavras e de certos fatos do Evangelho. Querendo a todo preço aí encontrar a confirmação de um Pensamento preconcebido, giravam sempre no mesmo círculo, sem deixar seu ponto de vista, de tal sorte que aí só viam o que queriam ver. Por mais sábios que fossem esses teólogos, não podiam compreender as causas dependentes de leis que desconheciam.

     Mas quem será juiz das interpretações diversas e, muitas vezes, contraditórias, dadas fora da teologia? - O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas leis vierem revelar-se, saberão separar os sistemas utópicos da realidade. Ora, a ciência dá a conhecer certas leis; o Espiritismo revela outras; umas e outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Baddha até o Cristianismo. Quanto à teologia, ela não poderia judiciosamente alegar contradições da ciência, quando nem sempre ela está de acordo consigo mesma.

     30 - Partindo o Espiritismo das próprias palavras do Cristo, assim como o Cristo partiu de Moisés é uma seqüência direta de sua doutrina. À idéia vaga da vida futura, ele alia a revelação da existência do mundo invisível, que nos rodeia e povoa o espaço, e, por aí, precisa a crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento. Define os laços que unem alma e corpo, e ergue o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte. Para o Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, porque está na Terra, porque aí sofre temporariamente e por toda a parte vê a justiça de Deus. Sabe que a alma progride sem cessar, através de uma série de existências sucessivas, até que tenha atingido o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus. Sabe que todas as almas, tendo o mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para progredir, em virtude de seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência, e que entre elas há apenas a diferença do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo objetivo, mais ou menos rapidamente, conforme seu trabalho e sua boa vontade.

     Sabe que não há criaturas deserdadas, nem umas mais favorecidas que outras; que Deus não criou umas privilegiadas e dispensadas do trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados sob o nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que fazem o mal no estado de Espíritos, como o faziam no estado de homens, mas que progredirão e melhorarão; que os anjos ou puros Espíritos não são seres à parte na criação, mas Espíritos que atingiram o objetivo, depois de haverem seguido a fieira do progresso; que, assim, não há criações múltiplas de diferentes classes entre os seres inteligentes, mas que toda a criação surge na grande lei da unidade, que rege o universo, e que todos os seres gravitam para um fim comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa de outros, pois todos são filhos de suas próprias obras. (Allan Kardec - R. E. 1867).

Nota: Segue no arquivo Revelação espírita III