REVELAÇÃO
ESPÍRITA III
31 - Pelas relações que agora o homem pode
estabelecer com os que deixaram a Terra, há não só a prova material da
existência e da individualidade da alma, mas compreende a solidariedade que
liga os vivos e os mortos deste mundo e os deste mundo com os de outros mundos.
Conhece a sua situação no mundo dos Espíritos; segue-os nas suas migrações;
é testemunha de suas alegrias e de suas penas; sabe porque são felizes ou
infelizes e a sorte que o espera a si mesmo, conforme o bem ou o mal que haja
feito. Essas relações o iniciam à vida futura, que pode observar em todas as
suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro não é uma vaga esperança:
é um fato positivo, uma certeza matemática. Então a morte nada mais tem de
apavorante, porque para ele é a libertação, a porta da verdadeira vida.
Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem
sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau
de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as conseqüências diretas
e naturais de suas falhas, por outras palavras, que é punido por onde pecou;
que essas conseqüências duram tanto quanto a causa que as produziu; que,
assim, o culpado sofreria eternamente, se eternamente persistisse no mal, mas
que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação. Ora, como depende
de cada um se melhorar, cada um pode , em virtude de seu livre-arbítrio,
prolongar ou abreviar os seus sofrimentos, como o doente sofre os seus excessos
até que neles ponha um termo.
33 - Se a razão repele, como incompatível com a
bondade de Deus, a idéia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas,
muitas vezes infligidas por uma única falta, suplícios do inferno, que não
podem ser abrandados pelo mais ardente e pelo mais sincero arrependimento, ela
se inclina ante essa justiça distributiva e imparcial, que todo leva em conta,
jamais fecha a porta de retorno e incessantemente estende a mão ao náufrago,
em vez de o repelir para o abismo.
34 - A pluralidade das existências, cujo
princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho, posto que sem o definir mais que
muitos outros, é uma das mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, no
sentido em que demonstra a sua realidade e a sua necessidade para o progresso.
Por esta lei, o homem se explica todas as aparentes anomalias que apresenta a
vida humana; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a
reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a
desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito,
que viveu mais ou menos, mais ou menos aprendeu e progrediu e que, renascendo,
traz a aquisição de vidas anteriores.
35 - Com a doutrina da criação da alma em cada
nascimento, cai-se no sistema das criações privilegiadas; os homens são
estranhos uns aos outros, nada os une, os laços de família são puramente
carnais; não são solidários de um passado em que não existiam. Com o do nada
após a morte, toda relação cessa com a vida; não são solidários no futuro.
Perpetuando-se as suas relações no mundo espiritual e no mundo corporal pela
reencarnação, são solidários no passado e no futuro e a fraternidade tem por
base as mesmas leis da natureza; o bem tem um objetivo, o mal as suas
inevitáveis conseqüências.
36 - Com a reencarnação caem os preconceitos de
raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão
senhor ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher.
De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da
escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhum
que sugere em lógica o fato material da reencarnação. Se, pois, a
reencarnação funda sobre uma lei da natureza o princípio da fraternidade
universal, funda sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por
conseqüência, o da liberdade.
Os homens não nascem inferiores e subordinados
senão pelo corpo; pelo Espírito são iguais e livres. Daí o dever de tratar
os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, porque aquele que é
nosso subordinado hoje, pode ter sido nosso igual ou nosso superior, talvez um
parente ou um amigo e, por nossa vez, poderemos vir a ser subordinado daquele a
quem comandamos.
37 - Tirai ao homem o Espírito livre,
independente, sobrevivente à matéria, dele fazeis uma máquina organizada, sem
objetivo, sem responsabilidade, sem outro freio senão a lei civil, e boa
de explorar como um animal inteligente. Nada esperando após a morte, nada o
detém para aumentar os prazeres do presente; se sofre, não tem em perspectiva
senão o desespero e o nada como refúgio. Com a certeza do futuro, a de
reencontrar os que amou, o medo de rever
aqueles a quem ofendeu, todas as suas idéias mudam. Se o Espiritismo não
tivesse feito senão tirar o homem da dúvida tocante a vida futura, teria feito
mais por seu melhoramento moral do que todas as leis disciplinares que por vezes
o contêm, mas não a transformam.
38 - Sem a preexistência da alma, a doutrina do
pecado original não só é inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria
todos os homens responsáveis pela falta de um só, seria uma insensatez e tanto
menos justificável quando a alma não existia na época em que se pretende
fazer remontar a sua responsabilidade. Com a preexistência e a reencarnação,
ao nascer o homem traz o germe de suas passadas imperfeições, dos defeitos de
que se não corrigiu, e que se traduzem por seus instintos inatos, suas
inclinações para tal ou qual vício. Aí está o seu verdadeiro pecado
original, do qual naturalmente sofre todas as conseqüências; mas com a
diferença capital que sofre a pena de suas próprias faltas e não a da falta
de outrem; e esta outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, estimulante e
soberanamente eqüitativa, que cada existência lhe oferece os meios de se
resgatar pela reparação e de progredir, quer se despojando de alguma
imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos e isto até que, tendo-se
purificado suficientemente, não mais necessite da vida corporal e possa viver
exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.
Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente,
renascendo, traz qualidades inatas, como aquele que progrediu intelectualmente.
Está identificada com o bem; pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por assim
dizer, sem nele pensar. O que é obrigado a combater as suas más tendências,
ainda está na luta; o primeiro já venceu, o segundo a caminho de vencer. A
mesma causa produz o pecado original e a virtude original.
39 - O Espiritismo experimental estudou as
propriedades dos fluidos espirituais e sua ação sobre a matéria. Demonstrou a
existência do perispírito,
suspeitado desde a antigüidade, e designado por São Paulo sob o nome de Corpo
Espiritual, isto é, corpo fluídico da alma após a destruição do corpo
tangível. Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma; que é um
dos elementos constitutivos do ser humano; que é o veículo de transmissão do
pensamento e que, durante a vida do corpo, serve de ligação entre o Espírito
e matéria. O perispírito representa um papel importante no organismo e numa
porção de afecções que se liga à fisiologia, tanto quanto à psicologia.
40 - O estudo das propriedades do perispírito, dos
fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma abre novos horizontes
à ciência, e dá a chave de uma porção de fenômenos até agora
incompreendidos, por falta do conhecimento da lei que os rege; fenômenos
negados pelo materialismo, porque se ligam à espiritualidade, qualificados por
outros de milagres ou sortilégios, conforme as crenças. Tais são, entre
outros, os fenômenos da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo
natural e artificial, dos efeitos psíquicos de catalepsia e da letargia, da
presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da
transmissão do pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das
obsessões e possessões, etc. Demonstrando que esses fenômenos repousam em
leis naturais quanto os fenômenos elétricos e as condições normais em que se
podem reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do
sobrenatural e, por conseguinte, a fonte da maioria das superstições. Se faz
crer na possibilidade de certas coisas, olhadas por alguns como quiméricas,
impede crer em muitas outras, demonstrando a sua impossibilidade e a sua
irracionalidade.
41 - Longe de negar ou destruir o Evangelho, ao
contrário o Espiritismo vem confirmá-lo, explicar e desenvolver, pelas novas
leis da natureza que ele revela, tudo quanto o Cristo disse e fez; projeta a luz
sobre pontos obscuros de seu ensino, de tal modo que aqueles para os quais
certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis,
as compreendem sem esforço com o auxílio do Espiritismo, e as admitem. Vêem
melhor o seu alcance e podem separar a realidade da alegoria. O Cristo lhes
aparece maior: não é mais um simples filósofo, é um Messias divino.
42 - Se se considerar, além disso, o poder
moralizador do Espiritismo, pelo fim que ele assina a todas as ações da vida,
pelas conseqüências do bem e do mal, que faz tocar com o dedo; a força moral,
a coragem, as consolações que dá nas aflições por uma inalterável
confiança no futuro, pelo pensamento de ter perto de si os seres que foram
amados, a segurança de os rever, a possibilidade de entreter-se com eles,
enfim, pela certeza que de tudo quanto se faz, de tudo quanto se adquire em
inteligência, em ciência, em moralidade, até
a última hora da vida, nada fica perdido, que tudo aproveita ao
adiantamento, reconhecer-se-á que o Espiritismo realiza todas as promessas do
Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que
preside ao grande movimento da regeneração, a promessa de seu advento se acha
mesmo realizada, porque, de fato, ele é
que é o verdadeiro Consolador.
43 - Se a esses resultados se juntar a incrível
rapidez da propagação do Espiritismo, malgrado tudo quanto têm feito para o
aniquilar, não se pode discordar que sua vinda seja providencial, pois que ele
triunfa de todas as forças e de toda a má vontade humana. A facilidade com a
qual é aceito por tão grande número, e isto sem constrangimento e sem outros
recursos além do poder da idéia, prova que ele corresponde a uma necessidade:
a de crer, depois do vazio cavado pela incredulidade e que, conseqüentemente,
veio em seu tempo.
44 - Os aflitos são em grande número; assim não
é surpreendente que tanta gente acolha uma doutrina que consola, de
preferência, as que desesperam. Porque é aos deserdados, mais que aos felizes
do mundo, que se dirige o Espiritismo. O doente vê chegar o médico com mais
alegria que o que passa bem. Ora, os
aflitos são os doentes e o Consolador é o médico.
45 - A primeira revelação era personificada em
Moisés, a segunda ao Cristo, a terceira não é em nenhum indivíduo. As duas primeiras são
individuais, a terceira é coletiva; eis um caráter essencial de grande
importância. É coletiva neste sentido que não foi feita por privilégio a
ninguém; conseqüentemente, ninguém pode dizer-se seu profeta exclusivo. Foi
feita simultaneamente em toda a Terra, a milhões de pessoas de todas as idades,
de todos os tempos e de todas as condições sociais, desde o mais baixo até o
topo da escada, segundo esta predição referida pelo autor dos Atos dos
Apóstolos: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, eu espalharei o meu espírito
sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; os moços
terão visões e vossos velhos sonhos”. Ela não saiu de nenhum culto
especial, a fim de servir um dia a todos de ponto de ligação.
46 - Sendo as duas primeiras revelações produto
de um ensinamento pessoal, forçosamente foram localizadas, isto é, ocorreram
num só ponto, em torno do qual a idéia se espalhou pouco a pouco. Mas foram
precisos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem o
invadir inteiramente. A terceira tem isto de particular que, não estando
personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos
diversos, os quais se tornaram centros ou focos de irradiação.
Multiplicando-se esses centros, seus ramos se encontram pouco a pouco, como os
círculos formados por uma porção de pedras atiradas à água, de tal sorte
que, num dado tempo, acabarão cobrindo toda a superfície do globo.
Tal é uma das causas da rápida propagação da
doutrina. Se ela tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva
de um homem, teria formado uma seita em seu redor. Talvez mais de meio século
tivesse decorrido antes que ela tivesse atingido os limites do país onde
surgiu, ao passo que, em dez anos, tem balizas plantadas de um ao outro pólo.
47 - Esta circunstância inaudita na história das
doutrinas, dá a esta uma força excepcional e um poder de ação irresistível.
Com efeito, se a comprimirem num ponto, num país, é materialmente impossível
comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Para um lugar onde for
entravada, haverá mil ao lado, onde ela florescerá. Ainda mais, se se o atinge
num indivíduo, não é possível atingi-lo nos Espíritos, que são a sua
fonte. Ora, como os Espíritos estão em toda a parte e os haverá sempre, se,
por impossível, se chegasse a abafá-lo em todo o globo, ele reapareceria algum
tempo depois, porque repousa sobre um
fato e este fato está na natureza; e não se podem suprimir as leis da
natureza. Eis de que se devem persuadir os que sonham com o aniquilamento do
Espiritismo.
49 - As duas primeiras revelações não podiam ser
senão o resultado de um ensino direto; deviam impor-se à fé pela autoridade
da palavra do mestre, pois os homens não eram bastante adiantados para
concorrer para a sua elaboração.
50 - A terceira revelação veio numa época de
emancipação e de maturidade intelectual, em que a inteligência desenvolvida
não se pode resolver a um papel passivo, em que o homem nada aceita cegamente,
mas quer ver aonde o conduzem, saber o porquê e o como de cada coisa; devia
ser, ao mesmo tempo, o produto de um ensino e o fruto do trabalho, da pesquisa e
do livre exame. Os Espíritos só ensinam
justo o que é preciso para pôr no caminho da verdade, mas se abstêm de
revelar o que o homem pode achar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de
discutir, de controlar e de submeter tudo ao cadinho da razão, muitas vezes
até o deixando adquirir experiência à própria custa. Dão-lhe o princípio,
os materiais, cabendo-lhe deles tirar proveito e os pôr à obra.
52
- É de notar, ainda, que em parte alguma o ensinamento espírita foi dado de
maneira completa. Ele toca tão grande número de observações, em assuntos
tão diversos, que tanto exige conhecimentos, quanto aptidões mediúnicas
especiais, que teria sido impossível reunir num mesmo ponto todas as
condições necessárias. Devendo o ensinamento ser coletivo, e não individual,
os Espíritos dividiram o trabalho, disseminando os assuntos de estudo e de
observação, como em certas fábricas a confecção de cada parte de um mesmo
objeto está distribuída entre vários operários.
Assim, a revelação se fez parcialmente, em
diversos lugares e por uma multidão de intermediários e é desta maneira que
prossegue, ainda neste momento, porque nem tudo está revelado. Cada centro
encontra nos outros centros o complemento do que recebe; e é o conjunto, a
coordenação de todos os ensinamentos parciais que constituíram a
doutrina espírita.
Era, pois, necessário grupar os fatos esparsos,
para ter a sua correlação, reunir os documentos diversos, as instruções
fornecidas pelos Espíritos em todos os lugares e sobre todos os assuntos, para
os comparar, os analisar, estudar as suas analogias e as suas diferenças. Sendo
as comunicações dadas por Espíritos de todas as ordens, mais ou menos
esclarecidos, era necessário apreciar o grau de confiança, que a razão
permite conceder-lhes, distinguir as idéias sistemáticas individuais e
isoladas das que tenham a sanção do ensino geral dos Espíritos, as utopias
das idéias práticas; eliminar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados
da ciência positiva e da sadia lógica; utilizar os próprios erros, as
informações fornecidas por Espíritos mesmo do mais baixo estágio, para o
conhecimento do estado do mundo invisível e disso formar um todo homogêneo.
Numa palavra, era preciso um centro de
elaboração, independente de toda idéia preconcebida, de todo preconceito
de seita, resolvido
a aceitar a verdade tornada evidente, ainda que fosse contrária às suas
opiniões pessoais. Tal centro formou-se por si mesmo, pela força das
coisas, e sem desígnio premeditado.
53 - De tal estado de coisas resultou uma dupla corrente de idéias: umas, indo
das extremidades para o centro, outras do centro para a circunferência. Foi
assim que a doutrina marchou rapidamente para a unidade, malgrado a diversidade
das fontes de onde ela emanou; que os sistemas divergentes caíram pouco a
pouco, pelo fato de seu isolamento, ante o ascendente da opinião da maioria,
por não encontrar aí ecos simpáticos. Desde então estabeleceu-se entre os
vários centros uma comunhão de pensamentos; falando a mesma linguagem
espiritual, eles se compreendem e se simpatizam de um extremo ao outro do mundo.
Os Espíritas acharam-se mais fortes, lutaram com
mais coragem e marcharam com passo mais firme, quando não mais se viram
isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um elo que os ligam à grande
família. Os fenômenos que testemunhavam já lhes não pareceram estranhos,
anormais, contraditórios, quando os puderam ligar às leis gerais de harmonia,
abarcar de um golpe de vista o edifício, e ver em todo esse conjunto um
objetivo grande e humanitário.
Contudo, entre a marcha do Espiritismo e a das
ciências há uma diferença capital: é que estas não atingiram o ponto onde
chegaram senão depois de longos intervalos, ao passo que ao Espiritismo
bastaram apenas alguns anos, senão para atingir o ponto culminante, ao menos
para recolher uma soma bastante grande de observações próprias para
constituir uma doutrina. Isto se deve a inumerável multidão de Espíritos que,
pela vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um o
contingente de seus conhecimentos. Disso resultou que todas as partes da
doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente, durante vários séculos, o
foram mais ou menos simultaneamente, em alguns anos e que bastou grupá-las para
que formassem um todo.
Quis Deus que assim fosse, primeiro para que o
edifício chegasse mais rapidamente à cumeeira; em segundo lugar, para que se
pudesse, pela comparação, ter um controle, por assim dizer, imediato e
permanente na universalidade do ensinamento, cada parte só tendo valor e autoridade
pela conexão com o conjunto, devendo todas se harmonizar e cada uma chegar a
seu tempo e ao seu lugar. Não confiando a um só Espírito o cuidado da
promulgação da doutrina, quis, além disso, que o menor, como o maior, entre
os Espíritos como entre os homens, trouxesse sua pedra ao edifício, a fim de
estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas
as doutrinas saídas de uma fonte única. Por outro lado, cada Espírito, assim
como cada homem, tendo apenas uma soma limitada de conhecimentos, eram
individualmente inábeis para tratar ex-professo(*)
as inúmeras questões em que toca o Espiritismo. Eis, igualmente por que a
doutrina, para realizar os pontos de vista do Criador, não podia ser obra nem
de um só Espírito, nem de um só médium; não podia sair senão da
coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros.
55 - Um último caráter da revelação espírita,
e que ressalta das condições mesmas em que ela é feita, é que, apoiando-se
nos fatos, é, e não pode deixar de ser essencialmente progressiva, como todas
as ciências de observação. Por sua essência, contrai aliança com a ciência
que, sendo a exposição das leis da natureza, numa certa ordem de fatos, não
pode ser contrária à vontade de Deus, o autor dessas leis.
As descobertas da ciência glorificam a
Deus, em vez de o humilhar; elas não destroem senão o que os homens
construíram sobre as idéias falsas que fizeram de Deus.
Nota do compilador: (*)ex-professo=
como quem conhece a fundo a questão).