JOANA D’ARC - SEU SUPLÍCIO
Estamos em Ruão, a 30 de maio de 1431. O drama toca ao desenlace. São oito horas da manhã. Todos os sinos da grande cidade normanda dobram lugubremente. É o dobre fúnebre, o dobre a finados. Anunciam a Joana que sua última hora soara. “Ai! de mim! Exclama ela chorando, tratam-me horrível e cruelmente; é preciso até que meu corpo, intacto e puro, jamais conspurcado, seja hoje consumido e reduzido a cinzas! Ah! preferia que me decapitassem sete vezes a ser assim queimada... Oh! invoco a Deus por testemunha das grandes ofensas que me fazem!”.
Impressiona-a cruciantemente a idéia do suplício do fogo. Pensa nas chamas que se alteiam, na morte que se aproxima lentamente, na prolongada agonia de um ser vivo a sentir as mordeduras ardentes que lhe devoram as carnes. Tal gênero de morte era destinado aos piores criminosos e, no entanto, vai sofrê-la Joana, a virgem inocente, Joana - a libertadora de um povo!
Isto põe a nu a baixeza de seus inimigos, daqueles que ela tantas vezes vencera. Em lugar de lhe renderem à coragem, ao gênio, as homenagens que os soldados civilizados dispensam aos adversários que a má sorte lhes faz cair nas mãos, os ingleses reservam para Joana, depois dos mais atrozes maus tratos, ignominioso fim. Seu corpo será consumido e suas cinzas lançadas ao Sena. Não lhe permitiram repousar num túmulo, onde os que a amaram possam ir chorar, depositar flores, praticar o tocante culto da saudade.
Fazem-na entrar na carreta sinistra e a tétrica procissão se encaminha para o local do suplício. Oitocentos soldados ingleses a escoltam. Imensa multidão consternada se comprime para vê-la passar. O cortejo desemboca na rua Écuyère, na praça do Vieux-Marché, onde se erguem três palanques. Os prelados e oficiais tomam lugar em dois deles. O cardeal de Winchester, revestido da púrpura romana, ocupa seu trono. Lá estão também o bispo de Beauvais e o de Bolonha, todos os juízes e os capitães ingleses. Entre os palanques, avulta a fogueira, de aterradora altura. É um monte de lenha, dominando toda a praça. Querem que o suplício seja longo, a fim de que a virgem, vencida pela dor, grite implorando graça, renegue de sua missão e de suas vozes.Lêem o libelo acusatório, composto de 70 artigos, nos quais se acumulou tudo quanto o ódio mais venenoso pode imaginar para desnaturar os fatos, iludir a opinião e fazer da vítima um objeto de horror. Joana se ajoelha. Nesse solene momento, em presença da morte que se avizinha, sua alma se desprende das sombras terrenas e entrevê os esplendores eternos. Ora em voz alta. Profere uma prece extensa e fervorosa. Perdoa a todos, a seus inimigos, a seus algozes. Num sublime arroubo do pensamento e do coração, reúne dois povos, enlaça dois reinos. As inflexões de sua voz emocionam vivamente a multidão; de dez mil peitos ofegantes rebentam os soluços. Os próprios juízes, tigres de feições humanas, Cauchon, Winchester, todos choram. Pouco lhes dura, porém, a emoção. O cardeal faz um aceno e Joana é amarrada por fios de ferro ao poste fatal; passam-lhe à volta do pescoço pesada golilha.
Ela então se dirige a Isambard de la Pierre e diz: “Eu vos peço, vá buscar-me a cruz da igreja mais próxima; quero tê-la erguida bem defronte de meus olhos, até ao último instante”. Quando lhe apresentam a cruz, cobre-a de beijos e de pranto. No momento em que vai morrer de uma morte horrível, abandonada por todos, quer ter diante de si a imagem desse outro supliciado que, lá nos confins do Oriente, no cume de um monte, deu a vida em holocausto à verdade.
Naqueles minutos graves a heroína revê toda a sua vida, curta, mas brilhante. Evoca a lembrança dos entes que ama, recorda os dias serenos da sua infância em Domremy, o semblante meigo de sua mãe, a fisionomia austera do velho pai e as companheiras de sua meninice, Hauviette e Mengette, seu tio Durand Laxart, que a acompanhou a Vaucouleurs, e, finalmente, os homens dedicados, que lhe fizeram companhia até Chinon. Numa visão rápida, passa em revista as campanhas do Liger, os gloriosos combates de Orleães, de Jargeau, de Patay; escuta as fanfarras guerreiras e os gritos de alegria da multidão em delírio. Revê, ouve tudo isso na hora derradeira. Quis, por essa forma, num como supremo abraço, dizer o adeus final a todas aquelas coisas, a todos aqueles entes amados. Não tendo nenhum deles diante da vista, concretizou na imagem do Cristo crucificado suas lembranças, suas ternuras. Dirigiu-lhe o adeus que assim dizia à vida, nos extremos anseios de seu coração despedaçado.Os carrascos põem fogo à lenha e turbilhões de fumaça se enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpeia por entre as pilhas de madeira. O bispo de Beauvais acerca-se da fogueira e grita-lhe: “Abjura!”. Ao que Joana, já envolvida num círculo de fogo, responde: “Bispo, morro por vossa causa, apelo do vosso julgamento para Deus!”.
As labaredas rubras, ardentes, sobem, sobem mais e lambem-lhe o corpo virginal; suas roupas fumegam. Ei-la que se torce nas ataduras de ferro. Alguns minutos depois, em voz estridente, lança à multidão silenciosa, aterrorizada, estas retumbantes palavras: “Sim, minhas vozes vinham do Alto. Minhas vozes não me enganaram. Minhas revelações eram de Deus. Tudo que fiz fi-lo por ordem de Deus!”. Suas vestes incendiadas se tornam uma das centelhas da imensa pira. Ecoa um grito sufocado, supremo apelo da mártir de Ruão ao mártir do Gólgota: “Jesus!”.
E nada mais se ouviu, além dos estalidos que o crepitar do fogo produz...
Terá Joana sofrido muito? Ela própria nos assegura que não. “Poderosos fluidos, diz-nos, choviam sobre mim. Por outro lado, minha vontade era tão forte que dominava a dor”. Está morta a virgem da Lorena. O Espaço todo se ilumina. Ela se eleva e paira acima da Terra, deixando após si um rastro luminoso. Já não é um ser material, mas um puro Espírito, um ser ideal de pureza e de luz. Os Céus se lhe abriram até ao infinito. Legiões de Espíritos radiosos vêm-lhe ao encontro, ou lhe formam cortejo. É o hino do triunfo, o coro celestial das boas-vindas repercute nos espaços siderais: “Salve! Salve! aquela que o martírio coroou! Salve tu que, pelo sacrifício, conquistaste eterna glória!”.
Concentremo-nos; saudemos a nobre figura de virgem, a jovem de imenso coração, que, tendo salvado a França, pela França morreu antes dos vinte anos.
Sua vida resplandece como celeste raio de luz, na temerosa noite da Idade Média.
Com sua fé vigorosa, com sua confiança em Deus, veio trazer aos homens a coragem e a energia necessárias a transpor mil obstáculos; veio trazer à França traída, agonizante, a salvação e o renascimento. Por paga de tanta abnegação heróica, horror! só colheu mágoas, humilhações, perfídias e, como coroamento de sua breve, porém maravilhosa carreira, uma paixão e uma morte tão dolorosa, como iguais só houve as do Cristo. (Léon Denis - Joana D’arc, Médium). PRÓXIMO