SUPREMA
E ÚNICA LEI
Pouco amor tenho ao mundo, para que por ele perca tempo.
Nele nada há grande que mereça a demora de um segundo na reflexão admirativa.
Tudo incompleto, tudo pequeno.
Só nos parece completo e grande porque somos mais imperfeitos e pequenos do que ele. Somos insignificantes, aí.
Depois que liquidamos o nosso débito ao aperfeiçoamento terrestre, e passamos às regiões serenas da luz eterna, vemos o mundo no seu pleno valor; e dá-nos a sensação de o vermos pelas lentes invertidas de um poderoso óculo de alcance. Nítido, mas pequeníssimo e longínquo.
E em verdade o que é este ponto infinitamente insignificante no báratro1 colossal do Universo?
Na Terra tudo é relativamente grande.
E aí cristalizou a sabedoria. Para além é o nada; Deus é uma hipótese; a Alma um sonho. Realidade só a sua ciência. Infalível só ela. Infalível em todos os tempos, e em todos os tempos modificada, renegada, substituída.
O que era ontem um dogma é hoje uma heresia; o que era ontem uma conquista dos mais celebrados sábios, é hoje um anacronismo, e será amanhã uma infantilidade piegas.
Apesar disso, a ciência humana, em qualquer altura em que seja vista, é sempre intangível e infalível!!!
Suprema imbecilidade, suprema petulância!
Na Terra é tudo vão, quimérico e convencional; mas o intelecto humano é tão pretensioso que, depois de criar essas leis que o egoísmo e a filáucia2 lhe ditaram, as crê sagradas e inatacáveis; e ai do iconoclasta que ouse pôr em dúvida a sua origem semidivina, ai dele!... É crucificado como Cristo, queimado como Savonarola,3 torturado como Galileu.
É sempre a ação a provocar a reação. Ação ou inação, porque é a imobilidade, o conservantismo, a incapacidade para a aceitação das idéias novas, do progresso, da evolução na sua marcha ascensional e eterna, que conduz à reação.
E depois a ignorância ou a malevolência humana é sempre a mesma em todos os tempos. Não se modifica, por mais experiência que tenha. Não há lição de que colha fruto.
Vê todos os dias surgirem novos fatos, que lhe abrem novos horizontes conhecidos; e apesar disso persiste sempre na sua imobilidade chinesa; cristaliza na sua reação contra o que é novo, contra o que constitui um avanço no limitadíssimo saber humano.
Desde todos os tempos há dois princípios que, para quem os adota, constituem axiomas dogmáticos: - um o de que se sabe tudo já, de que nada mais se pode aceitar como verdade, e que fora da ciência estabelecida não existe nada possível; - outro de que a ciência conhecida á nada, comparada com a vastidão do campo desconhecido.
Uns representam a saciação do saber na sua quietude búdica; os outros a ânsia de profundar4 o desconhecido, no seu lutar incessante. Àqueles se deve a morosidade no avanço do aperfeiçoamento humano; a estes se deve o quantum desse saber na hora atual.
É a poder de muito esforço, de muito sacrifício, de muito sangue, que os denodados campeões do ignoto conduzem, através do tempo, o carro triunfal do progresso humano, vencendo, pouco a pouco, todos os obstáculos de que a inércia de uns, a malevolência de outros, e o egoísmo de todos os seus adversário, lhe vai semeando o caminho.
Não se compreende o prazer que a indolência cerebral sente em negar qualquer idéia nova, que demande o mais pequeno esforço para se fazer compreender.
É facílimo dizer: - não creio, não é verdade. E, com esta negação, supõe resolver tudo. Se se lhe pergunta porque não crê, responde, petulantemente, que é porque não pode ser, que é porque não é crível, que é porque vai de encontro ao que os grandes homens e os grandes sábios do passado e do presente têm definitivamente arrumado como possível.
Ditas essas generalidades ocas, banais, vazias de consciência e de verdade, ficam-se felizes e contentes, como se houvessem descoberto o sistema de Ptolomeu ou as leis de Newton.
Não querem recordar-se, porque lhes afadiga o mimoso cérebro compacto e massudo, que o sábio de hoje se ri do que o sábio de há um século tinha como definitivo e incontestável; que o sábio de um século se riu do que o século anterior era assente e dogmático; e que, como princípio geral, uniforme e indestrutível, está assente também, na lúcida consciência humana, que não há nada imobilizado na natureza; que tudo se transforma, tudo caminha, tudo progressa.
Há épocas em que o evolucionar avança tão rápida e tão seguramente, que mais parece uma revolução permanente e persistente, do que uma evolução lenta e gradual. É que o homem tem de conquistar, às vezes, o terreno e o tempo perdido pela ação enervante e de retrocesso dos conservadores e cretinos. Se se pudesse deixar caminhar o mundo na sua marcha mecânica, como que movido por colossal aparelho de relojoaria, o progresso viria sem obstáculos, na hora própria, com a segurança das coisas matemáticas, como a evolução de todos os corpos que estão fora da ação do homem. Os mundos e os planetas têm a sua rota definida, matemática, mecânica, fatal, porque a lei a que obedecem não é sujeita à vontade sempre variável e inconstante do homem; mas as coisas mínimas, que constituem as coisas máximas da Terra, que obedecem à vontade do pitoresco rei da criação, essas são variáveis como a dona da canção do Rigoleto.
Ora, como tudo tem, por fim, que chegar a tempo, Deus, o supremo relojoeiro, às vezes, se o maquinismo por que a Terra se rege, ou devia reger, se atrasa, dá-lhe um impulso violento para lhe acelerar a marcha, e pôr em dia o que se achava atrasado pelos entraves criados pela ignara inércia, ou pela maldade ignara, dos que, por conveniência ou maledicência, fazem demorar o andamento da grande máquina do aperfeiçoamento.
Serve-se para isso de meios que variam até ao infinito, como infinita é a sua vontade, o seu poder e a sua grandeza.
Às vezes, um ato insignificante na vida de um homem obscuro é a faísca que lança fogo ao rastilho que vai conflagrar a humanidade inteira.
A guerra, a sempre maldita guerra, quantas vezes tem sido o bendito instrumento da liberdade e do progresso?
Quanto deve a civilização atual, e todas as civilizações extintas quanto deveram, à ação rápida, revulsiva, cauterizante, depuradora e restauradora das guerras?
Quantas vezes tem sido ela que leva adiante de si as idéias generosas, altruístas, emancipadoras e redentoras?
A história do mundo está cheia de milhares de exemplos desses; e é incontestável, para quem desapaixonadamente os estude, que as luzes mais brilhantes que iluminam as trevas do passado foram acesas pela espada e pela lança.
A época, presentemente, é outra. A missão civilizadora das guerras parece ter findado no começo do século passado, tendo sido Napoleão - o grande - o último enviado de Deus para a disseminação da idéia libertadora e progressiva, através do mundo, pelo conduto guerreiro.
A tomar-lhe o lugar vieram outros enviados. Foram os que descobriram o vapor, a eletricidade, as leis da mecânica, da física, da química, da biologia; e, por isso, na segunda metade do século XIX, o mundo progrediu de maneira assombrosa, materialmente falando. Foi o salto dos ponteiros no relógio atrasado.
Não podia, porém, sem desequilíbrio grande na natureza, progredir só na parte material do eu humano e nas coisas materiais a ele destinadas. Tinha que avançar também na parte intelectual, que vinha cristalizando nas velhas doutrinas religiosas ortodoxas de todas as religiões, ou na negativa vazia e irracional da Descrença e do Ateísmo; e então mandou Deus fatos e pessoas destinadas a pôr a par o progresso espiritual e o progresso material. Apareceram os primeiros adeptos de uma ciência nova, ou uma nova religião, que, baseando-se nas doutrinas sempre belas, sempre divinas de Jesus, e tomando-o a Ele como mestre, e guia universal, se propunham a dar a prova da existência real, imorredoura do eu humano, elevando-o assim à altíssima graduação de ente superior, e pretendendo aperfeiçoá-lo pela bondade e pelo amor, como à sua superior categoria compete.
A sua aparição foi recebida com zombaria primeiro, e com a perseguição e o ódio depois. Foi a eterna repetição da descaroável recepção de novos ideais pelo conservantismo e pela ignorância. Ridicularizados, perseguidos, desprezados, eles continuaram no seu caminhar lento e seguro, porque era fatal e predestinado. Os fatos apareceram simultaneamente nos mais remotos e estranhos pontos do globo, numa conformidade completa, numa certeza de manifestação que bem se conhecia obedecerem a uma lei fatal e indiscutível. Paralelamente a idéia cristã, obliterada, deturpada, horrosamente mutilada, aparecia surgindo da nova doutrina radiante e nova como a Fênix da fábula nascida das próprias cinzas; e iluminava com um poder de intensidade e uma grandeza de raio que dominava o mundo civilizado.
Aos primeiros apóstolos seguiram-se outros, todos com a viveza de crença e a firmeza de fé dos primitivos cristãos; e era tanta a força irradiada da sua ação, que aos primeiros embates muitos milhões de almas boas se renderam ao novo apostolado.
A doutrina do Mestre Divino, ressurgindo purificada e esplendorosa, avassalava outra vez o mundo, a despeito de todos os obstáculos que a má-fé, a ignorância, o egoísmo, o medo e a ânsia perversa de dominar a matéria, conseguiram opor ao seu caminhar.
Pela segunda vez ela se impunha, como verdade que é; verdade eterna, verdade indestrutível, verdade dominadora, verdade destruidora, verdade purificadora, verdade divina!
Atenda-se desapaixonadamente, livre de preconceitos, e ver-se-á se alguma outra idéia conseguiu avançar tão rápida e seguramente nos últimos séculos.
É que ela representa uma necessidade fatal da civilização atual; representa a natural e indispensável correção às idéias utilitárias, egoístas e de desagregação, que o progresso material havia lançado no espírito humano; e é ela que, na sua marcha segura e rápida, há de colocar em justo equilíbrio, num curto lapso de tempo, o aperfeiçoamento material, moral e espiritual da humanidade, conforme o grau que, no modo de ser eterno das coisas, competir ao estado atual da evolução do homem na Terra.
Podem reagir aqueles que, por qualquer modo, tenham interesse ou amor pelo estacionamento espiritual humano; que essa reação terá só o mérito de acelerar mais a ação benéfica e redentora dos levitas da doutrina renovada.
Ela não parará. Não pode parar, como a Terra não pode parar na sua marcha incessante em volta do astro luminoso que a aquece e ilumina; não pode parar, porque ela representa a semente lançada por Deus e a idéia d’Ele próprio.
Não pode parar, porque se manifesta em tudo: - na grandeza, na simplicidade, na unção, na bondade, no perdão, no carinho e no amor que dela dimanam e de que ela se compõe; nas provas materiais, visíveis, audíveis e palpáveis, que faculta a todo aquele que, paciente e honestamente, a queira estudar, armado da mais rigorosa precisão analítica, ainda que da mais sincera desconfiança.
Uma idéia que fala à alma, ao coração, à razão e ao sentimento, e ao mesmo tempo presta fatos em todos os recantos do mundo, fatos que podem subordinar-se à análise e ao exame mais rigorosamente científico, e à experiência e verificação do mais rude e do mais simples investigador, é uma idéia que há de triunfar apesar de tudo; que há de impor-se e dominar.
Há de ser assim, porque há de ser assim. É fatal, é necessária. É imposta pelos acontecimentos, é imposta por Deus. Que importa que uma pretensa ciência, composta de fórmulas vãs e de convenções pretensiosas, se lhe oponha? Que importa que a descrença, a ignorância inerte, ou a ignorância malévola, lhe queiram antepor obstáculos?
Fragilíssima oposição, que só terá o mérito de lhe fazer realçar o triunfo.
Por negarem que a Terra se movia, não a fizeram parar; por dizerem que o mundo era plano, não lhe tiraram a esfericidade; por dizerem que o vapor era um brinquedo de crianças, não evitaram que ele modificasse o modo de ser das relações entre os povos; por dizerem que a eletricidade era um passatempo de laboratório, não impediram que ela revolucionasse a dinâmica e que metamorfoseasse o mundo; porque, ridicularizaram e apodaram o magnetismo, o hipnotismo e a sugestão, não deixaram eles de ser já outras tantas conquistas deslumbrantes e misteriosas da humanidade.
Todos estes fatos são, porém de utilidade prática, e a besta humana não hesita em aceitá-las, apesar da reação, porque lhe encontra utilidade imediata, gozo e satisfação às suas idéias egoístas e aos seus comodismos materiais.
A idéia espiritual, que só promete gozos para mais tarde àqueles que se privem de muitos para já, essa é que lhe merece mais relutância e até horror.
Inventem, porém, todos os obstáculos que o vasto arsenal da vaidade, do orgulho e do egoísmo humano possa produzir, que hão de cair um a um como folhas de árvore seca, ou desfazer-se como frocos5 de espuma batidos contra as rochas que marginam os oceanos.
É que acima do poder e do querer do homem está a vontade de Deus, que é a suprema e Única lei do Universo inteiro; e o progresso da humanidade, mau grado dele, é uma das manifestações mais belas dessa Suprema vontade. (Espírito de Alexandre Herculano - 21/11/1906 - Do País da Luz 1).
Notas do compilador: 1 - báratro = abismo, precipício, inferno; 2 - filáucia = amor-próprio, egoísmo, vaidade; 3 - Savonarola = Girolamo Savonalora, dominicano italiano (1452-1498). Superior do convento de São Marcos, grande orador, tentou criar em Florença uma Constituição. Excomungado pelo papa Alexandre VI, a quem havia criticado, foi queimado por heresia; 4 - profundar = tornar fundo ou profundo, pesquisar, penetrar. 5 - frocos = flocos de neve