TITANIC
“Caros
amigos, uma sombra feliz vem até vós. Desconhecendo-lhe a pessoa, não lhe
ignorais, entretanto, o nome, nem a morte trágica no naufrágio do Titanic.
Sou Stead. Amigos comuns, entre os quais a duquesa de P..., me trouxeram aqui
para que me manifestasse por intermédio de Mme. Hervy, sua amiga. Talvez vos
cause admiração que meus Espíritos familiares não me tenham avisado da
fatalidade que pesava sobre o Titanic.
É que nada pode prevalecer contra o destino, quando irremediável, e eu devia
morrer sem que a nenhuma potência humana ou espiritual fosse possível retardar
a minha derradeira hora. A agonia do Titanic
teve alguma coisa de horrível, mas também de sublime. Houve desesperos loucos
e manifestações covardes e brutais do egoísmo humano. Mas, quantos, por outro
lado, medindo toda a extensão da coragem, se sentiram maiores diante da morte,
mais nobres e mais santos, mais perto de DEUS! Saber que se vai morrer na
plenitude da vida, na exuberância da força, pela ação dessas potências da
Natureza, indomadas sob a aparência da submissão; morrer ao cintilar das
estrelas impassíveis; morrer na calma fúnebre do mar gelado, em meio de uma
solidão infinita, que angústia para a pobre criatura humana! e que apelo
desvairado ela dirige a esse DEUS, cujo poder repentinamente descobre!... Oh! as
preces daquela noite, as preces, os desprendimentos, as consciências a se
iluminarem por súbitos relâmpagos e a fé a se elevar nos corações por entre
as harmonias do belo cântico: “Mais perto de ti, meu DEUS".
Agonia
de centenas de seres, sim, mas agonia que para muitos era a aurora de um novo
dia. Há, para os que viveram, pensaram, sofreram, como também para os que
muito gozaram das falazes alegrias que a fortuna dispensa às suas vítimas, um
alívio interior e como que um arroubo de esperança, ao reconhecerem que dentro
de alguns instantes tudo estará acabado. A alma freme na carne e a subjuga,
malgrado os sobressaltos inconscientes da animalidade.
E
quantos dentre nós, proferindo as palavras do cântico: “Mais perto de ti,
meu DEUS!” se sentiram bem perto do SER inefável que nos envolve com a sua
onipotente serenidade!
Pelo que me toca, vi, cheio de estranha doçura, aproximar-se a morte,
sentindo-me amparado pelos meus amigos invisíveis, penetrado de um misterioso
magnetismo que galvanizava os que iam morrer e que tirava à morte todo o
horror. Os que morreram sofreram pouco,
menos do que os que sobreviveram. Os escolhidos já estavam a meio no mundo
espiritual, onde em tudo rebrilha uma vida etérea. A maior amargura não era a
deles, mas a dos que, presos à matéria, enchiam os barcos de socorro, que os
levavam para continuarem nesse mundo a peregrinação da dor, de que ainda se
não haviam libertado”.
(Espírito W. H.
Stead (Publicista inglês), morto na catástrofe do Titanic
- mensagem de 21/5/1912 - Obra: O Além e a Sobrevivência do Ser - Léon
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