TODOS
OS HOMENS SÃO IRMÃOS
Senhores e caros colegas!
A Sociedade inicia seu último ano; e esta
duração não deixa de ter significação, quando se trata de uma ciência
nova. Um fato que não é de menor importância é que ela seguiu constantemente
uma marcha ascendente. Contudo, senhores, sabeis que é menos no sentido
material que no sentido moral que se realiza o seu progresso. Não somente ela
não abriu suas portas ao primeiro que apareceu, nem solicitou que dela fizesse
parte quem quer que fosse, mas antes visou circunscrever-se do que expandir-se
indefinidamente.
O número dos membros ativos é, com efeito, uma
questão secundária para toda sociedade que, como esta, não visa entesourar.
Não são os subscritores que ela busca.
Por isso não se prende à quantidade. Assim o quer a natureza mesma de seus
trabalhos, exclusivamente científicos, para os quais são necessários a calma
e o recolhimento, e não o movimento, da multidão.
O sinal de prosperidade da Sociedade não está,
pois, na cifra de seu pessoal, nem no seu encaixe: está inteiramente na
progressão de seus estudos, na consideração que conquistou, no ascendente
moral que exerce lá fora, enfim no número de adeptos que se ligam aos
princípios que ela professa, sem que, por isso, dela participem. A esse
respeito, senhores, sabeis que o resultado ultrapassou todas as previsões. E,
coisa notável, não é somente na França que ela exerce tal ascendente, mas no
estrangeiro, porque, para os verdadeiros
Espíritas todos os homens são irmãos, seja qual for a nação a que
pertençam. A prova material disto tendes no número de sociedades e grupos
que, de diversos países, vêm colocar-se sob o seu patrocínio e lhe pedir
conselhos. Isto é um fato notório e tanto mais característico quanto essa
convergência para ela se faz espontaneamente, porque não é menos notório que
ela nem o provocou, nem o solicitou. É, pois, voluntariamente que se vêm
colocar sob a bandeira que ela hasteou. A que se deve tudo isto? As causas são
múltiplas. Não é inútil examiná-las, porque
isto entra na história do Espiritismo.
Uma das causas vem, naturalmente, do fato de que,
sendo a primeira regularmente constituída, também foi a primeira a alargar o
círculo de seus estudos e abraçou todas as partes da ciência espírita.
Quando o Espiritismo mal saía do período da curiosidade e das mesas girantes,
ela entrou resolutamente no período filosófico, que, de certo modo, inaugurou.
Por isso mesmo, logo de princípio, fixou a atenção da gente séria.
Mas isto para nada teria servido, se ela tivesse
ficado fora dos princípios ensinados pela generalidade dos Espíritos. Se
tivesse apenas professado idéias próprias, jamais se teria imposto à imensa
maioria dos adeptos de todos os países. A Sociedade representa os princípios
formulados no Livro dos Espíritos.
Sendo esses princípios ensinados por toda a parte, muito naturalmente se
ligaram ao centro de onde aqueles partiam, ao passo que aqueles que se colocaram
fora deste centro ficaram isolados, por não encontrarem eco entre os
Espíritos.
Repetirei aqui o que disse alhures, porque nunca
seria demasiado repeti-lo: A força do
Espiritismo não reside na opinião de um homem ou de um Espírito; está na
universalidade do ensino dado por estes últimos; o controle universal, como o sufrágio
universal, resolverá no futuro todas as questões litigiosas; fundará a
unidade da doutrina muito melhor que um concílio de homens. Ficai certos,
senhores, esse princípio fará o seu caminho, como o Fora da Caridade não há salvação, porque baseado na lógica mais
rigorosa, e na abdicação da personalidade. Não contrariará senão os
adversários do Espiritismo e aqueles que só têm fé em suas luzes pessoais.
Eis porque a Sociedade de Paris jamais se afastou
em nada dessa via traçada pela razão sadia, que conquistou a posição que
ocupa. Confiam nela porque sabem que nada avança levianamente, não impõe suas
idéias próprias, e, por sua posição, mais que ninguém, pode constatar o
sentido em que se pronuncia aquilo que se pode justamente chamar o sufrágio
universal dos Espíritos. Se jamais ela se colocasse ao lado da maioria,
forçosamente deixaria de ser o ponto de ligação. O
Espiritismo não cairia porque tem seu
ponto de apoio em toda a parte, mas a Sociedade cairia, se não tivesse o
seu por toda a parte. Com efeito,
por sua natureza excepcional, o Espiritismo nem repousa numa sociedade, nem num
indivíduo; a de Paris jamais disse: Fora
de mim não há Espiritismo; assim ela deixaria de existir, caso
seguisse o seu curso, pois tem suas raízes na inumerável multidão de
intérpretes dos Espíritos no mundo inteiro e não numa reunião qualquer, cuja
existência é sempre eventual.
Os testemunhos que a Sociedade receber acham que
ela é estimada e considerada e, certo, é o de que mais se felicita. Se a causa
primeira está na natureza de seus trabalhos, é justo acrescentar que o deve
também ao bom conceito conquistado por suas sessões entre numerosos
estrangeiros que a visitaram, a ordem, a atitude, a seriedade, os sentimentos de
fraternidade que viram aí reinar e os convenceram, mais que todas as palavras,
de seu caráter eminentemente sério.
Tal é, senhores, a posição que, como fundador da
Sociedade, eu tive que lhe assegurar; tal é, também, a razão pela qual jamais
cedi a qualquer incitamento tendente a desviá-la do caminho da prudência.
Deixei que dissessem e fizessem os impacientes de boa ou de má-fé. Sabeis o
que eles tornaram, ao passo que a Sociedade ainda está de pé.
A missão da Sociedade não é fazer adeptos por si
mesma; por isso jamais convoca o público. O objetivo de seus trabalhos, como
indica o seu título, é o progresso da ciência espírita. Para isto aproveita
não só as suas observações, mas as feitas alhures; recolhe documentos que
lhe chegam de todos os lados; estuda-os, investiga-os, compara-os, para lhes
deduzir os princípios e tirar os ensinamentos que espalha, mas não o faz
apressadamente. É assim que os seus trabalhos a todos aproveitam e se
adquiriram uma certa autoridade é porque sabem que são feitos conscientemente,
sem prevenção sistemática contra pessoas ou coisas.
Compreende-se, pois, que para atingir tal objetivo,
é indiferente um número de membros mais ou menos considerável. O resultado
seria alcançado por uma dúzia tão bem ou melhor ainda do que por algumas
centenas. Não tendo em vista nenhum interesse material, eis a razão por que
não visa o número; sendo o seu objetivo grave e sério, nada faz ela visando a
curiosidade; enfim, como os elementos da ciência nada lhe ensinariam de novo,
ela não perde tempo ensinando o que já sabe. Como dissemos, seu papel é
trabalhar pelo progresso da ciência pelo estudo. Não é junto dela que os que
nada sabem vêm convencer-se, mas que os adeptos já iniciados vêm colher novas
instruções; tal é o seu verdadeiro caráter. O que lhe é preciso, o que lhe
é indispensável, são relações extensas, que lhe permitam ver do alto o
movimento geral, para julgar de conjunto, a este se conformar e o dar a
conhecer. Ora, ela possui tais relações, que vieram por si mesmas e aumentam
diariamente, como tendes provas pela correspondência.
O número de reuniões que se formam sob os seus
auspícios e solicitam o seu patrocínio, pelos motivos dados acima, é o fato
mais característico do ano social que acaba de passar. Este fato não só é
honroso para a Sociedade, é, além disso, de uma importância capital, pois
testemunha, ao mesmo tempo, a extensão da doutrina e o sentido no qual tende a
estabelecer-se a unidade.
Os que nos conhecem sabem a natureza das relações
existentes entre a Sociedade de Paris e as sociedades estrangeiras; mas é
essencial que todo o mundo o saiba, para evitar os equívocos a que as
alegações da malevolência poderiam dar lugar. Não é supérfluo repeti-lo.
Que os Espíritas não formem entre si nem uma congregação, nem uma
associação; se entre as diversas sociedades não há nem solidariedade
material, nem filiação oculta ou ostensiva; se não obedecem a nenhuma palavra
de ordem secreta; se os que delas fazem parte são sempre livres de as deixar
quando lhes convém; se elas não abrem as portas ao público, não é porque
aí se passe nada de misterioso ou de oculto, mas porque elas não querem ser
perturbadas pelos curiosos e importunos; longe de agir na sombra, ao contrário
estão sempre prontas a submeter-se às investigações da autoridade legal e
às prescrições que lhes forem impostas. A de Paris tem sobre as outras apenas
autoridade moral, devida à sua posição e aos seus estudos e porque lha
conferem. Dá os conselhos que lhe pedem à sua experiência, mas não se impõe
a nenhuma. A única palavra de ordem que dá como sinal de reconhecimento entre
os verdadeiros Espíritas é: Caridade
para com todos, mesmo os inimigos. Assim, ela declinaria de toda
solidariedade moral a todas as que se afastassem deste princípio, que tivessem
por móvel o interesse material, que, em vez de manter a união e a boa
harmonia, tendessem a semear a divisão entre os adeptos, porque, por isso
mesmo, colocar-se-iam fora da doutrina.
A Sociedade de Paris não pode assumir a
responsabilidade dos abusos que, por ignorância ou por outras causas, possam
fazer do Espiritismo; ela não pretende, de forma alguma, cobrir com o seu
manto, os que o comprometem; nem pode nem deve tomar-lhes a defesa perante a
autoridade, em caso de perseguição, porque isto seria aprovar o que a doutrina
desaprova. Quando a crítica se dirige a tais abusos, não temos que a refutar,
mas apenas responder: Se vos désseis ao trabalho de estudar o Espiritismo,
veríeis o que ele diz e não o acusaríeis daquilo que ele condena. Assim, cabe
aos Espíritas sinceros evitar cuidadosamente tudo quanto possa dar lugar a uma
crítica fundada. E o conseguirão se se fecharem seguramente nos preceitos da
doutrina. Não é porque uma reunião se intitula grupo, círculo ou sociedade
espírita que, necessariamente, deve ter as nossas simpatias. A
etiqueta jamais foi garantia absoluta da qualidade da mercadoria. Mas,
segundo a máxima: “Conhece-se a árvore pelo fruto”, nós apreciamos em
razão dos sentimentos que a animam, do móvel que a dirige e a julgamos por
suas obras. A Sociedade de Paris se felicita quando pode inscrever na lista de
seus aderentes reuniões que oferecem todas as garantias desejáveis de ordem,
boa atitude, sinceridade, devotamento e abnegação pessoal e os pode oferecer
como modelos aos seus irmãos em crença.
A posição da Sociedade de Paris é, pois,
exclusivamente moral e ela jamais ambicionou outra. Os nossos antagonistas que
pretendem que todos os Espíritas são seus tributários; que ela se enriquece
à sua custa, arrancando-lhes dinheiro em seu proveito; que avaliam o seu lucro
pelo número de adeptos, ou dão provas de má-fé ou da mais absoluta
ignorância daquilo de que falam. Sem dúvida ela tem por si a consciência, mas
tem, a mais, para confundir a impostura, os seus arquivos, que testemunharão
sempre a verdade, no presente como no futuro.
Sem desígnio premeditado e pela força das coisas,
a Sociedade tornou-se um centro para onde convergem ensinamentos de toda sorte
concernentes ao Espiritismo. Neste ponto, ela se acha numa situação que, pode
dizer-se, é excepcional, pelos elementos que possui para assentar a sua
opinião. Melhor que ninguém, pode ela, pois, conhecer o estado real do
progresso da doutrina em cada país e apreciar as causas locais que podem
favorecê-las ou lhe retardar o desenvolvimento. Essa estatística não será
dos elementos menos preciosos para a história do Espiritismo, ao mesmo tempo em
que permite estudar as manobras dos adversários e calcular a extensão dos
golpes que vibram para o derrubar. Bastaria esta observação para permitir
prever o resultado definitivo e inevitável da luta, como se julga o desfecho de
uma batalha pelo movimento dos dois exércitos.
Pode dizer-se com inteira verdade que, nesse
particular, estamos na primeira linha para observar, não só a tática dos
homens, mas, também, a dos Espíritos. Com efeito, vemos da parte destes uma
unidade de vistas e de plano sábio, providencialmente
combinados, ante os quais, forçosamente, devem quebrar-se todos os esforços
humanos, porque os Espíritos podem atingir os homens e os ferir, enquanto
escapam destes últimos. Como se vê, a partida é desigual.
A história do Espiritismo moderno será uma coisa
realmente curiosa, porque será a da luta
entre o mundo visível e o invisível. Os Antigos teriam dito: A
guerra dos homens contra os deuses. Será também a dos fatos, mas,
sobretudo e forçosamente, a dos homens que neles tiverem representado um papel
ativo, num como noutro sentido, de verdadeiros sustentáculos, como adversários
da causa. É preciso que as gerações futuras saibam a quem deverão um justo
tributo e reconhecimento; é preciso que consagrem a memória dos verdadeiros
pioneiros da obra regeneradora e que não haja glórias usurpadas.
O que dará a essa história um caráter particular
é que, em vez de ser feita, como muitas outras, dos anos e dos séculos fora do
tempo, com fé na tradição e na lenda, ela se faz à medida dos acontecimentos
e baseada em dados autênticos, dos quais nós possuímos, por uma
correspondência incessante, vinda de todos os países onde se implanta a
doutrina, o mais vasto e o mais completo
arquivo existente no mundo.
Sem dúvida o Espiritismo, em si mesmo, não pode
ser atingido pelas mentirosas alegações de seus adversários, com cujo
auxílio procuram fantasiá-lo. Mas, entretanto, elas poderiam dar uma falsa
idéia de seus primórdios, e de seu meio de ação, desnaturando os atos e o
caráter dos homens que nele tiverem cooperado, se se não desse a contrapartida
oficial. Esses arquivos serão, para o futuro, a luz que espancará todas as
dúvidas, uma mina onde os comentários futuros poderão colher com certeza.
Vedes, senhores, de que importância é este trabalho, no interesse da verdade
histórica. A nossa própria Sociedade nele está interessada, em razão da
parte que toma no movimento.
Diz um provérbio: “Nobreza obriga”(1).
A posição da Sociedade também lhe impõe obrigações para conservar seu
crédito e seu ascendente moral. A primeira é não afastar-se, quanto à
teoria, da linha seguida até hoje, pois que recolhe os seus frutos; a segunda
está no bom exemplo que deve dar, justificando, pela prática, a bondade da
doutrina que professa. Sabe-se que este exemplo, provando a influência
moralizadora do Espiritismo, é um poderoso elemento de propaganda, ao mesmo
tempo que o melhor meio de fechar a boca dos detratores. Um incrédulo que não
conhece senão a filosofia da doutrina, dizia que com
tais princípios o Espírita necessariamente deveria ser um homem de bem.
Estas palavras são profundamente verdadeiras; mas, para serem completas, é
preciso acrescentar que um verdadeiro
Espírita deve ser, necessariamente, bom e benevolente para com os seus
semelhantes, isto é, praticar a caridade evangélica na sua mais larga
acepção.
É a graça que todos devemos pedir que Deus nos
conceda, tornando-nos dóceis aos conselhos dos bons Espíritos que nos
assistem. Peçamos igualmente a estes que continuem a sua proteção durante o
ano que se inicia e que nos dêem a
força de nos tornarmos dignos deles. É o mais seguro meio de justificar e
conservar a posição que a Sociedade conquistou. (Allan Kardec - 1º-4-1864 -
abertura do 7º ano social).
Nota do compilador: 1 - Nobreza obriga - Tradução da expressão francesa Noblesse oblige = A nobreza obriga, isto é, quem nasceu nobre deve comportar-se como tal.