UNIÃO DA FILOSOFIA E DO ESPIRITISMO II

O PRINCÍPIO DA DUALIDADE DA ESSÊNCIA DA ALMA E O SISTEMA ESPIRITUAL DO SR. COUSIN E DE SUA ESCOLA (*)

     No artigo anterior procuramos provar que se, em geral, os senhores  pensadores-livres quisessem dar-se ao trabalho de examinar os motivos que lhes permitem afirmar-se, dizer “eu”, chegariam ao conhecimento de sua dupla essência; convencer-se-iam que sua alma é constituída de maneira a existir separadamente do corpo, tão bem quanto em seu envoltório, e compreenderiam a sua erraticidade quando, após a morte, tivesse deixado sua matéria terrena. De sorte que sua ciência, se fosse baseada no verdadeiro princípio da constituição da alma, confirmaria os fatos espíritas, em vez de os contradizer com tanta persistência. Com efeito, a noção do “eu” compõe-se principalmente do sentimento e do conhecimento que temos de nós mesmos, e esses dois fenômenos íntimos, evidentes para todo mundo, implicam peremptoriamente dois elementos distintos na alma: um passivo, sensível, extenso e sólido, que recebe as suas impressões; outro ativo, sem extensão e pensante, que os percebe. Em conseqüência, se possuímos, ao lado de um elemento virtual, um elemento resistente e permanente, diferente do nosso corpo, não nos podemos dissolver pela morte; nossa imortalidade está provada e nossa preexistência é uma conseqüência natural. Assim, nossos destinos são independentes de nossa morada terrena, e este não passa de um episódio mais ou menos interessante para nós, conforme os acontecimentos que o enchem.

     De acordo com estas observações, a dualidade da essência de nossa alma é um princípio importante, pois que nos instrui sobre a nossa existência real e imortal. Mas é um princípio tanto mais importante quanto é a fonte única em que adquirimos a consciência certa de nossa individualidade, sendo assim a origem de nossa ciência, da qual não podemos duvidar, e sobre a qual repousa todo o resto dos nossos conhecimentos. Efetivamente, começamos todos por nos conhecer, antes de notar o que nos rodeia; e medimos por nossa medida tudo o que examinamos e julgamos. Assim, é indispensável observar, para o estudo da verdade, que nosso saber parte de nós, para voltar a nós; que é um círculo formado por nós mesmos, que nos enlaça e nos envolve fatalmente, mau grado nosso. Os filósofos atuais o ignoram e o sofrem sem se aperceberem. É ele que os ofusca, que os cega e os impede de olhar além e acima de si próprios. Assim teremos muitas ocasiões de constatar sua cegueira. Ao contrário, os Antigos conheciam esse círculo e sua influência misteriosa, pois simbolizavam a ciência sob a figura de uma serpente mordendo a ponta da cauda, depois de se ter dobrado sobre si mesma. O que, aos seus olhos, significava que nosso saber parte de um ponto dado, faz a volta de nosso horizonte intelectual e volta ao ponto de partida. Ora, se esse ponto de partida for elevado e o olhar for penetrante, o horizonte será largo e a ciência vasta; se, ao contrario, o solo raso e a visão turva, o horizonte será restrito e limitada a inteligência das coisas. Então, tais quais formos pessoalmente, tal será o conjunto e o alcance dos nossos conhecimentos. Por tal motivo torna-se evidente que a primeira condição da ciência individual é a de examinar-se a si mesmo, não só para distinguir suas qualidades, defeitos e vícios, mas para conhecer, de saída, a constituição íntima do nosso ser e, a seguir, elevar o nosso espírito e formar o nosso caráter.

     Então a verdadeira ciência não é feita para cada um. Aquele que a aspira não só deve ter inteligência e instrução, mas, sobretudo, ser sério, sóbrio, prudente, e não se deixar levar pelo capricho da imaginação, por sua vaidade, seus interesses, sua suficiência. O que deve guiar o verdadeiro amante da verdade é um amor desinteressado por esse objetivo venerado; é a vontade enérgica e constante de jamais parar e separar rigorosamente do joio a boa semente. Quanto mais o homem se possui, tanto mais é calmo e nobre, melhor saberá discernir os caminhos que o conduzirão à verdade; quanto mais leviano, presunçoso ou apaixonado, tanto mais corromperá pelo hálito impuro os frutos que colherá na árvore da vida.

     A primeira condição para chegar ao conhecimento das coisas é, pois, o caráter individual; e é por esta razão que, na antigüidade, provas solenes precediam a toda iniciação. Hoje o saber é espalhado sem discernimento, cada um julga poder pretendê-lo; mas, também, menos que nunca a verdade é bem acolhida, ao passo que as mais estranhas doutrinas encontram numerosos aderentes. É preciso que se convençam que os espíritos indiferentes, limitados pelas ciências exatas e naturais, levados pela imaginação, ou cheios de impertinência, são impróprios à pesquisa da verdade, e que seria mais prudente reservar esse nobre labor para alguns escolhidos. Entretanto disposições mais sensatas hoje se manifestam pelo advento do Espiritismo; e, com efeito, os Espíritas são homens bem dispostos para a busca da verdade porque, separando-se do turbilhão geral que arrasta a sociedade, renunciaram por si mesmos às vaidades mundanas, aos princípios dos pensadores-livres e à superstição oficial dos cultos reconhecidos. Dão prova de sadia independência, de um amor sincero da verdade e de uma tocante solicitude por seus interesses eternos. Aqui estão as melhores disposições morais para abordar os graves problemas da alma, do mundo e da Divindade. Para nosso bem eterno, experimentemos entender-nos e seguir juntos os traços que nos conduzirão à via sagrada. Porque necessitamos ajudar-nos reciprocamente para atingir o objetivo que todos buscamos, o de nos esclarecer sobre o que, só, é real e durável.

     Depois das disposições morais que acabamos de indicar, a coisa mais indispensável para bem se entregar à obra delicada da iniciação, é o conhecimento do princípio da dualidade da essência da alma; porque é ele que constitui uma parte do misterioso segredo da Esfinge. É uma das chaves da ciência e, sem a possuir, todos os esforços tornam-se inúteis para o atingir. Esse princípio da essência da alma, só, encerra como conseqüências, as noções consideráveis que desejamos adquirir, ao passo que todos os princípios secundários até hoje descobertos não se elevam bastante para dominar o vasto horizonte dos conhecimentos humanos e para lhe abraçar todos os detalhes. Os princípios inferiores desviam os que deles se servem no dédalo de numerosos fatos que não esclarecem; e é pela insuficiência de seus primeiros princípios que os filósofos se transviaram e se perderam nas sutilezas arbitrárias de suas doutrinas incompletas. Fatalmente levaram a confusão onde julgavam tocar à verdade. Nessas matérias, mais delicadas que difíceis, só o princípio verdadeiro espalha a luz, resolve facilmente todos os problemas e abre as portas secretas que conduzem ao mais secreto santuário. Ora, já sabemos que levamos conosco esse princípio, e que para o descobrir só se trata de nos estudarmos, mas de nos estudarmos com calma e imparcialidade. Sabemos que esse princípio é a dualidade de nossa essência anímica, de sorte que não nos resta senão dobrar com precaução o fio, do qual temos o nó mais importante. Mas, à medida que avançarmos em nosso estudo psicológico, consultaremos, nada obstante, os trabalhos de nossos mais ilustres filósofos, a fim de reconhecer onde falharam e em que suas doutrinas confirmam nossas próprias pesquisas.

     Assim, como observamos acima, parece evidente que tudo quanto em nós se liga à ordem sensível depende da substância de nossa alma; porque é o seu elemento extenso e sólido, que recebe todas as impressões exteriores e que se ressente de nossa atividade interior. Com efeito, nossa alma não poderia ser tocada de maneira qualquer, sem apresentar um obstáculo, de início, às oscilações do meio ambiente e, a seguir, às vibrações das emoções que nos afetam intimamente. Portanto, é essa maneira de ser muito natural que explica as nossas relações com tudo o que existe, com o que não somos nós, com o nosso não-eu moral, intelectual e físico, visível ou invisível. A solidez e a extensão de nossa substância, evidentemente e um princípio, não é para desprezar. Contudo não é tal opinião que reina na Universidade e no Instituto. O espiritualismo a nega como absurda, sob o pretexto especioso que a divisibilidade, que seria sua conseqüência, implicaria a corruptibilidade da substância. Mas nisto apenas há um mal-entendido; porque o que importa à corruptibilidade da natureza anímica é a simplicidade química de sua fluidez corporal e não a sua indivisibilidade mecânica, em falta da qual há mil maneiras de remediar; ao passo que, para ficar na verdade científica, é preciso evitar admitir um efeito sem causa, como impressão possível sem resistência.

     Assim, a sensibilidade de nossa alma nada ensina à nossa escola espiritualista; liga ela gratuitamente os sentimentos à razão, atribui as sensações ao organismo material e não se explica sobre a conexão dessas diversas faculdades. Eis uma das causas de sua impotência filosófica.

     Quanto a nós, a sensibilidade de nossa alma é a prova irrecusável da solidez e da extensão de sua substância. E é a noção dessas propriedades que nos abre um vasto campo de observação. Assim, de início, a extensão e a solidez substancial permitem à nossa alma tomar diferentes formas e encerrar o tipo de todos os órgãos que constituem nosso organismo corporal. Serve, assim, de origem e sustentáculo aos nossos nervos, sentidos, cérebro, vísceras, músculos e ossos, e permite nos que nos encarnemos por meio desta lei da mutabilidade das moléculas corporais, tão conhecida dos modernos fisiologistas. Nossos cientistas supõem apenas, e erradamente, em nossa opinião que essa lei seja efeito de uma força misteriosa da matéria, que se renova, se absorve, se escoa e se forma por si mesma; porque a matéria é inerte e nada forma por sua própria iniciativa. Evidentemente esta mutabilidade é efeito da atividade instintiva de nossa dupla essência anímica, que se acha sob o nosso envoltório; e a existência desta lei prova que a nossa encarnação está na ordem da natureza, pois é contínua e, ao cabo de uma série de anos, nosso corpo se renova regularmente. A formação de nosso revestimento material e a nossa encarnação sucessiva desta maneira se explicam muito naturalmente. Mas, além disso, essa substância extensa de nossa alma nos faz compreender igualmente o laço existente entre ela e o corpo. Porque, sendo o nosso organismo visível apenas a cobertura do nosso organismo substancial, tudo quanto é sentido por um deve repercutir no outro. As emoções da substância da alma devem abalar o corpo e o estado deste deve inevitavelmente afetar suas próprias disposições morais e intelectuais. Eis o primeiro ensinamento resultante da natureza concreta de nossa substância.

     O segundo ensinamento que daí retiramos é que a parte da substância de nossa alma, que não serve de tipo ao nosso organismo material, deve ser a base do nosso senso íntimo, daquele que recebe todas as nossas impressões morais e intelectuais, e que nos põe um contato com a própria substância divina; de sorte que nossa substância recebe as impressões da radiação de todas as existências e de todas as atividades possíveis, e se acha entre a origem primeira de todas as nossas noções. É da mesma maneira que recebemos o conhecimento de nós mesmos. Porque se perguntarmos a um céptico como pode afirmar-se, sem a menor reserva ele responderá!: “É que eu me sinto”, porque o céptico mesmo não pode duvidar de suas sensações. Entretanto sentir-se não é todo o nosso conhecimento: o céptico também não pode negar que sabe que se sente. Ora, a percepção do nosso sentimento é conseqüência de nossa atividade intelectual; o que prova, não só, que nossa alma não é passiva, mas que é, também, ativa, que ela quer, percebe, pensa e é causativa e livre por sua própria atividade. Nossos próprios órgãos funcionam sem que tenhamos consciência, de sorte que se é forçado a atribuir à nossa alma um segundo elemento, um elemento ativo, virtual, isto é, uma força essencial, que está atenta quando a sensibilidade está desperta, quer por efeito de seu próprio movimento, que percebe, pensa a reflete por meio do nosso órgão cerebral, que age auxiliada por nossos membros, e que anima nosso organismo com um movimento involuntário. É pela presença, em nossa alma, dessa dupla ordem essencial: da ordem substancial passiva e sensível, e da ordem virtual ativa e pensante, que nos sentimos, sabemos e temos consciência de nossa própria personalidade, sem qualquer auxílio do mundo exterior.

     Nossa força anímica é o nosso elemento espiritual por excelência, porque não tem, por si mesma, nem extensão nem solidez. Não nos é conhecida senão por sua atividade. Desde que não quer, nem pensa, nem age, é como se não existisse; e se nossa alma não fosse substancialmente concreta, pela virtude de um outro elemento, nosso corpo não teria consistência e não passaria de um monte de pó. Nem mesmo poderia existir na erraticidade; perder-se-ia no nada, a menos que se supusesse, com o espiritualismo, um mistério impenetrável, que lhe permitisse existir sem extensão nem solidez, suposição que o Espiritismo e as leis naturais tornam absolutamente inadmissível. Entretanto é nossa força essencial que Leibnitz considera como sendo substância, a despeito de sua natureza fugidia; e a escola espiritualista francesa o repete, a seu exemplo, sem se deter nessa confusão ilógica. Contudo, não basta chamar força a uma substância, para que esta realmente o seja e considerar essa substância imaginária como sendo o fundo de nosso ser, para que se saia do vazio das abstrações. Uma substância não é talo senão por seu estado concreto, por sua extensão e sua solidez, por mais sutil que a concebamos e é o que nossa escola espiritualista se compraz em passar em silêncio. Eis, assim, uma outra causa de sua impotência moral e filosófica.

     Nossa força essencial não é senão o princípio de nossa atividade; ela nos anima, mas não nos constitui. É o princípio de nossa vida, mas não o de nossa existência. Está por toda a parte em nossa substância, espalha-se com ela em todo o nosso ser e dele recebe diretamente as impressões, sem o nosso concurso voluntário. É por esta estreita união de nossos dois elementos essenciais que nosso organismo funciona espontaneamente, que nossas sensações despertam a seguir a nossa atenção e, sem outro intermediário, nos levam a perceber a causa de nossas impressões, que nossa consciência é um conjunto de sentimentos e de reflexões e que toda noção, seja qual for o seu objeto, exige que o sintamos e o saibamos. Desde então somente nós temos certeza de sua existência. É por este mesmo processo que temos conhecimento do Ser Supremo. Temos a sensação de sua presença por nosso senso íntimo, e nos explicamos esta sensação sublime por nossa razão. Porque o ideal do verdadeiro, do bem e do belo está, inicialmente, em nosso coração, antes de nos entrar na cabeça. Os povos selvagens nisto não se enganam: não duvidam de Deus; imaginam-no simplesmente, conforme o nível de sua grosseira inteligência, ao passo que vemos entre os cientistas discutir-se a sua personalidade, porque pretendem nada admitir senão pela força de seu raciocínio e porque se debatem em abstrações, sem fazer ponto de apoio na ordem sensível.

     Tal é a constituição de nossa alma. Ela se compõe de dois elementos bem distintos entre si e, não obstante, indissoluvelmente unidos; porque jamais e em parte alguma esses elementos se encontraram separadamente: toda substância tem sua força e toda força tem sua substância. Assim, esta dualidade se acha reunida na essência de tudo o que existe; está na matéria, na alma, em Deus. Repetindo, essa distinção na unidade é necessariamente admissível, porque cada um desses elementos está bem caracterizado; porque têm suas propriedades respectivas e sua modalidade categórica; e porque é uma lei universal que um mesmo princípio não pode ter efeitos contrários, que qualidades que se excluem denotam outros tantos princípios particulares. Mas sua unidade não é menos peremptória, porque nenhuma função, nenhuma faculdade, nenhum fenômeno se produz em nós e fora de nós sem o concurso simultâneo desses dois elementos irredutíveis.

     É esta unidade na dualidade constante de nossa alma que nos explica ainda esse fenômeno psicológico importante, a saber: a espontaneidade instintiva de todas as nossas faculdades e de todas as nossas funções, assim como a formação do nosso caráter e da nossa natureza moral íntima. Efetivamente, as impressões se conservam em nós e se reproduzem involuntariamente; de sorte que, como a substância é elemento passivo e permanente de nossa alma, há que lhe atribuir a propriedade de conservar as sensações, de as concretizar em si e de as transmitir, na ocasião, à atenção de nossa força essencial. Sendo essas impressões de toda espécie, forma-se em nós, por esta propriedade conservadora, uma ordem moral, intelectual e prática permanente, que se manifesta por nossa atividade instintiva e espontânea, que nos inspira os sentimentos e as idéias e guia os nossos atos sem o nosso concurso voluntário e, por vezes, mau grado nosso. Ademais, esses sentimentos e essas idéias adquiridas se agrupam em nossa alma e nos produzem novas idéias e novas imagens, que estávamos longe de esperar. As funções psicológicas de nossa substância unida à nossa força essencial, são, assim, multiplicadas e nos formam uma natureza moral, intelectual e prática espontânea, que é o fundo do nosso caráter, a origem de nossas disposições naturais. Assim, a nossa substância encerra, em estado latente, ou em potencial, como se exprime a escola, todas as nossas qualidades, conhecimentos e hábitos passados, em estado permanente. Em conseqüência, a ela e à sua atividade instintiva é que se deve atribuir a memória, a imaginação, o espírito e os sentidos naturais, assim como a origem de nossas idéias e sentimentos.

     Esta ordem substancial instintiva incontestavelmente existe em nossa alma. Cada um se reconhece uma natureza moral permanente, disposições intelectuais e hábitos próprios, que lhe facilitam a carreira e a conduta, se forem bons; ou que impedem o sucesso e o arrastam em desvios deploráveis, se forem maus. Só os nossos filósofos não o percebem; porque, não admitindo, como já observamos, uma ordem psicológica substancial, condenam-se a atribuir tudo o que é resistente em nossa alma à influência da matéria, e confundir tudo o que é sensível e vivo com a nossa inteligência. É verdade que Aristóteles reconhecia no homem uma ordem potencial, onde todas as nossas qualidades estão em potencial; mas o define mal e também a confunde com a matéria. Desde então ninguém mais se ocupou dessa ordem especial, salvo o sr. Cousin. Mas este filósofo contemporâneo, não reconhecendo na alma senão a inteligência, não considerou senão a atividade espontânea, sem lhe procurar a origem no elemento permanente da nossa natureza anímica. Ele a designa como sendo a razão espontânea e instintiva, em oposição à razão refletida, sem notar a contradição existente entre o instinto e a reflexão, qualidades que se excluem e que, evidentemente, não podem pertencer ao mesmo princípio! Também o sr. Cousin tira apenas conseqüências limitadas desta descoberta e é por isto que a sua psicologia, como a de sua escola, ficou uma ciência seca, ilógica e sem grande alcance.

     Detenhamos agora o pensamento sobre o conjunto de observações que precedem, pois elas nos fazem conhecer fenômenos psicológicos até hoje desconhecidos. Elas nos fazem constatar em nossa alma a existência de duas ordens morais, intelectuais e práticas bem distintas e fortemente caracterizadas: uma, relacionando-se perfeitamente com as propriedades particulares de nossa substância, que são a permanência, a extensão e a solidez; a outra, as de nossa força essencial, que são a sua causalidade, sua falta de extensão e sua intermitência. A primeira é passiva, sensível, conservadora; a segunda é ativa, voluntária e refletida. A união íntima dos nossos dois elementos essenciais produz, em nós além disso, nossa tríplice atividade instintiva, que é o reflexo direto do estado verdadeiro de nossas qualidades e de nossos defeitos naturais.

     Com efeito, de um lado, quanto mais sensível for a nossa natureza substancial, delicada e conservadora e mais viva e enérgica a nossa atividade instintiva, tanto mais puros e elevados serão nossas idéias e sentimentos, o nosso bom senso justo, fáceis e seguras a nossa memória e a nossa imaginação. Ao contrário, quanto menos aperfeiçoado for o nosso estado substancial, tanto mais lentas e limitadas serão a nossa memória e a nossa imaginação, mais grosseiras as nossas idéias, mais vis os nossos sentimentos e mais obtuso o nosso senso comum. Mas, por outro lado, quanto mais enérgica, constante e flexível a nossa força causadora, mais fortes serão a nossa atenção, a nossa vontade, a nossa virtude e o nosso domínio sobre nós mesmos, mais alcance terão a nossa percepção, o nosso pensamento, o nosso juízo e a nossa razão e, enfim, maior a nossa habilidade e mais honrosa a nossa conduta, porque todas essas qualidades e faculdades se derivam de nosso elemento virtual. Ao contrário, quanto mais mole, entorpecida ou pesada a nossa força essencial, tanto mais a nossa brutalidade, a nossa covardia moral e intelectual manifestar-se-ão em plena luz. De modo que o nosso valor tanto depende do estado das qualidades e das propriedades de um, quanto do outro elemento de nossa alma.

     Tal é o quadro sumário apresentado pela constituição íntima de nossa essência anímica, e que nos revela a nossa dupla faculdade de nos sentir e nos saber. Esse quadro no-la mostra, de começo, em sua unidade viva, pois descobrimos o duplo princípio de sua atividade e de sua passividade, de sua permanência e de sua causalidade, de sua existência no tempo e no espaço, e de sua independência própria e distinta de Deus, do mundo e de seu envoltório material. Ele no-la mostra, a seguir, na sua diversidade maravilhosa, pois que reconhecemos a origem de suas qualidades e de suas faculdades respectivas de nossos elementos essenciais e em seu concurso recíproco. Entretanto este quadro é apenas um primeiro esboço, posto seja fácil nele notar o método de observação rigorosa, que seguimos, e que o que Bacon descobriu, Descartes introduziu na psicologia, que a escola escocesa aplicou e que a escola espiritualista e eclética observou em toda a sua doutrina. Encontramo-nos no mesmo terreno que toda filosofia séria; e se, por vezes, estamos em desacordo com as nossas ilustrações acadêmicas, é que não podemos deixar de crer que a maioria dos fatos de consciência foram por elas mal observados e mal explicados.

     Com efeito, o ecletismo espiritualista nos reconhece três faculdades principais: a vontade, a sensação e a razão. Estas faculdades se distinguem do nosso corpo, que é sólido e amplo; de sorte que possuímos necessariamente uma alma sem extensão e espiritual. Feita esta constatação, o ecletismo não pergunta como a nossa alma deve ser constituída para ser sensível, nem se a vontade e a razão, que são ambas ativas, não são duas manifestações de um mesmo princípio virtual. São perguntas que não o inquietam. Ele apenas sustenta que, destas três faculdades, só a vontade nos pertence mesmo, pois que só ela é o resultado de uma força substancial sem extensão, que é o princípio primordial do nosso “eu”. Aos seus olhos a sensibilidade não passa de efeito do choque resultante da ação que a força do mundo exterior exerce sobre a nossa através do nosso organismo. Mas, também, o ecletismo não pesquisa como a nossa força sem extensão  se liga ao nosso organismo, nem como, nesse isolamento sem extensão, pode ela receber o choque, assim como não explica como podemos ser sensíveis. São pequenos mistérios que não poderiam detê-lo. Conforme ele, a razão é a faculdade soberana do conhecimento, mas é impessoal, isto é, não nos pertence, posto que dela nos sirvamos. Dizer minha razão é, pois, segundo o sr. Cousin, uma insensatez, pelo mesmo motivo por que não se diz minha verdade. Tal motivo não nos parece muito concludente, mas, provavelmente, a falta é nossa. Com efeito, em seu sistema, a razão é o conjunto das verdades necessárias e universais; verdades tais como os princípios de causalidade, da substância, da unidade, do verdadeiro, etc. A coleção destes princípios forma, pois, segundo ele, a razão divina, da qual participamos pela vontade inefável do Todo-Poderoso. Mas é aí que se há de crer sob palavra, pois não vimos precisamente como uma coleção de verdades, por mais universais que sejam, poderia constituir a razão divina e humana. Vulgarmente as verdades são leis e a razão é uma faculdade. Ora, eu vejo o Sol, mas nunca a faculdade de ver foi tomada pelo Sol, nem pelo menor de seus raios. Está, pois, aí um novo sistema, a juntar aos precedentes. De sorte que, nessa doutrina, nada se explica por si, nada se liga e nossa alma, aí só é representada como um conjunto heterogêneo de faculdades, de qualidades, de funções distintas, ligadas ao acaso, como folhas esparsas, que tivessem sido reunidas em volume, sob o título pomposo de Doutrina filosófica do século XIX. O segundo prefácio da terceira edição dos Fragments philosophiques lhe trazem um resumo, interessante sob vários aspectos.

     De acordo com estas considerações podem julgar-se as causas que fazem da filosofia espiritualista oficial, mau grado suas boas intenções, uma doutrina bizarra e indigesta. Estaríamos mesmo autorizados a tratá-la mais duramente, se se perdessem de vista os serviços eminentes que prestou ao espírito francês, desviando-o de um sensualismo imoral e de um cepticismo desesperador. Aí estavam, evidentemente, as principais preocupações do ilustre filósofo no começo de sua brilhante carreira; e, estudando as suas obras notáveis, vê-se que Condillac e Kant foram seus principais adversários. Assim, esta luta é a parte mais importante de seus trabalhos. Ao contrário, o seu próprio sistema nos parece muito defeituoso e sua moral, sua teodicéia e sua ontologia contêm numerosos pontos muito controvertidos. A verdade é uma flor tão delicada! o menor sopro do erro a murcha em nossas mãos, e a reduz a um pó pernicioso e enceguecedor. No calor do combate ou na emoção da ambição, é sobretudo difícil conservar a calma de espírito e a delicadeza do sentimento de evidência. De sorte que o homem preocupado é facilmente arrastado a ultrapassar os limites da verdadeira sabedoria. Felizmente o Criador nos proporcionou fatos, circunstâncias, acontecimentos providenciais, bastante chocantes para nos reconduzir ao bom caminho. E, certo, as doutrinas e os fatos sobre os quais se funda o Espiritismo estão neste número. Que os nossos grandes e sábios filósofos não os repilam sob o fútil pretexto de superstição. Que os estudem sem prevenção. Neles reconhecerão a natureza extensa e sólida de nossa alma, sua preexistência e sua perpetuidade. Nele encontrarão uma moral suave e salutar, bem feita para reconduzir todo o mundo ao bem. Se, então, seu espírito quiser dele se dar conta, que se atirem francamente à obra; que examinem cientificamente os seus princípios e as suas conseqüências. E, então, talvez o princípio da dualidade da essência da alma lhes apareça em todo o seu esplendor e em toda a sua força. Porque, parece-nos, ele lança uma viva luz sobre os segredos íntimos do nosso ser. (F. Herrenschneider - R.E. 1863)

OBS: O sr. Cousin de que trata o autor, refere-se a Victor Cousin que é autor do tratado Du vrai, du beau, du bien (Do verdadeiro, do belo, do bem); esforçou-se por combinar as idéias de Descartes, da escola escocesa, de Kant, num espiritualismo pouco coerente, mas brilhantemente expresso.

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