VICTOR HUGO MORREU!...
Um grito de dor, um imenso grito de dor ecoou repentinamente em Paris, e a França e o mundo estremeceram com não sei que misterioso terror; onde quer que haja uma alma que pense, um coração que ame, essa alma comoveu-se, esse coração gemeu: Victor Hugo morreu!...
Espiritualistas de todas as escolas, espíritas de todas as nações, todos aqueles a quem esta morte atinge tão cruelmente, todos aqueles que sentimos tão profundamente o que perdem, quer a França quer a humanidade, unamo-nos para chorar e orar. Porque as lágrimas são por vezes doces; é o orvalho da recordação e do reconhecimento, e, nas asas da oração sagrada, as nossas subirão num raio de aurora até o sublime poeta, até o bem-amado pai que alimentou as nossas almas com o pão sagrado de seu gênio.
Oremos,
mas demos graças também, porque se o homem morreu, o espírito sobrevive,
deslumbrante, porque o que era cá na terra uma chama, é lá no céu uma
estrela, porque não se trata de uma morte, mas de uma transfiguração. Sim,
ele se foi deste mundo tal como os profetas, enquanto se desvanecia o último
suspiro, a alma do poeta abria as suas asas brancas e subia, engrandecida,
desmedida, radiante como o arcanjo, e vimo-la passar na nuvem e ouvimos troar
uma voz potente que dizia:
Partirei nos carros sombrios
Do sonho e da visão;
Na lívida cidade das sombras
Passarei
como um raio;
Ouvirei as suas vagas assuadas;
Assemelhar-me-ei nas nuvens
Ao grande desenfreado do ar;
Terei sob os meus pés a vertigem,
E nos olhos mais prodígio
Que o meteoro e o relâmpago.
Reentrarei na minha morada,
No infinito mundo negro.
Atirando à eternidade a hora,
E à imensidade a terra,
Repelindo com o pé as nossas
misérias,
Tomarei a verdade nas minhas garras
E transfigurar-me-ei,
E passar-se-á a ver apenas
Um
resto de vislumbre humano
Tremer sob o meu sobrolho sagrado.
Porque não serei mais um homem;
Serei o espírito deslumbrado
A que o sepulcro se nomeia
A que o enigma responde, sim.
Por mais que a sombra se torne
horrível,
Expandir-me-ei
terrível,
Como Elias em Gethsemani,
Na espantosa alegria
Do abismo e do infinito.
Revista Espírita - junho de 1885